08 março 2012

retalhos da vida de um coro




No ano passado comecei a cantar num coro de diplomatas (sim, estou a ver se apreendo alguma coisa por osmose), e muito gostava de saber quem terá tido a brilhante ideia de fazer um coro de diplomatas, seres que, como é sabido, vêm ao mundo com uma mala na extremidade dos braços. Ou seja: os diplomatas estão sempre a despedir-se para uma temporada em países sabe-se lá quais, e justamente quando o coro se tinha habituado a ter ali um tenor ou um baixo contínuo eis que auf Wiedersehen, auf Wiedersehen, e lá fica a home front entregue a um punhado de mulheres. Que neste momento se desunham (se desvozam?) para tentar transformar em música as partituras do Laudate Pueri de Mendelssohn. Como não somos muitas, e volta e meia falta alguém, eu aprendo ora com as contralto ora com as meio-soprano, e canto onde faz mais falta. Dizem que sou o joker do coro, e o maestro já me mandou treinar para cantar as duas vozes ao mesmo tempo. Eu rio-me, e digo que sim. Afinal de contas, já vi que é possível. É só esforçar-me um bocadinho, acredito.
A peça não é fácil. Muito menos para um coro como o nosso, fundado mais em boas intenções que numa sólida formação musical: pelo ouvido é que vamos, e nem sempre chegamos ao destino. Mas nós lutamos, e às vezes até todas na mesma direcção, e quase sempre todas ao mesmo tempo, excepto eu, que quando acerto no lá bemol do 68º compasso me dá uma alegria tal que acelero e transformo em semínimas as mínimas que vêm a seguir, e de repente lá estou eu largada em sprint, meio compasso à frente das outras.
Pergunto-me porque é que o nosso maestro - que é também compositor, e no intervalo de trabalhar connosco faz uns quantos concertos importantes - gasta o seu tempo com um coro destes. Há dias em que olho para nós e me sinto no meio de um filme: quando se começa uma discussão linguística em pleno ensaio (pronunciar Krug ou Kruk, e porquê, e como, e quando, e de onde vimos e para onde vamos?); ou quando uma das cantoras começa a dizer numa voz perfeitamente controlada e com cara impassível que esta maneira de ensaiar a deixa fora de si, que é insuportável ter de avançar quando ainda não percebeu bem o tom, que aquela linha melódica é impossível e ela não lhe vê nexo, o que a deixa furiosa e só lhe apetece desistir (comparo a letra com a música dessa cena: nada daquilo faz sentido; o maestro sorri e diz "então vamos lá ensaiar esta frase outra vez", e é mais ou menos a vigésima sete vez que a cantamos); ou quando a austríaca explica à coreana que em dominum se acentua o "do" e não o "num", "ai é? tem graça, não imaginava..."; ou quando uma ou outra cantora começa a dizer que não quer cantar aquilo, prefere outra música, e quase vamos a votos. Então ponho-me a imaginar se aquilo é um filme mais Fellini ou mais Scola, e lá me engano de novo nas mínimas e nas semínimas, ou canto um ré em vez de um si, com tamanha convicção que levo o naipe inteiro comigo, pelo que no fim peço desculpa a todos. O maestro faz um sorriso paciente e encantador, assim tipo "ainda não é hoje que te mato". Uffff, penso eu.
O perigo é a minha profissão.

Volta e meia damos um pequeno concerto. Não costuma correr mal, as pessoas para quem cantamos ficam contentes, tudo está bem quando acaba bem.

7 comentários:

A VIDA É UM ETERNO APRENDIZADO disse...

Bom dia!
Que bom que está fazendo parte do coro,temos sempre que fazer o que gostamos.
Grande abraço
se cuida

sem-se-ver disse...

gostei tanto :))

Helena disse...

sem-se-ver: é a vantagem da literatura em relação aos filmes. Se nos visses e ouvisses, fugias! ;-)

sem-se-ver disse...

gargalhada!

Helena disse...

:-)

Interessada disse...

Parece-me que mais Fellini do que Scola. Mas quer se parecesse com um ou com outro, eu não fugiria.
Podia era tirar o som ;)

Helena disse...

:D