29 dezembro 2011

Taizé em Berlim (1)

Eu não queria meter ninguém cá em casa. Já tenho trabalho que chegue, que sejam outros a ter o prazer de receber jovens de todo o mundo, a interculturalidade, etc., que eu de momento sou mais "deixem-me trabalhar". Mas a nossa paróquia insistia, que ainda faltam lugares para seis mil pessoas, e o Joachim insistia, e a Christina insistia. E eu pensei, caramba, por causa de uns pequenos-almoços que não te apetece fazer é que vais deixar essas pessoas ao deus-dará em pavilhões desportivos? E disse que sim, que podíamos receber oito cá em casa.
Uns dias depois perguntaram-nos se estávamos dispostos a ter também a televisão, por causa de uma reportagem sobre uma portuguesa que vinha a este encontro, e que ficaria cá. Pois que não havia problema, pois que podiam vir - e desatei a limpar e a arrumar como se viesse por aí a minha sogra. Que vinha: de facto, isto era uma operação de limpeza dois em um.
A minha sogra chegou, fomos para o Báltico, o Natal chegou e foi, regressámos a Berlim mesmo a tempo de desencantar uma bela jantarada de família, num derradeiro esforço lavei os trinta copos, dei um jeito à cozinha e fui-me deitar, estourada, convencida que no dia seguinte o pessoal de Taizé e a tv e tudo chegariam a meio da tarde, o que me dava tempo para desfazer as malas, arrumar a casa, preparar em frente ao espelho frases inteligentes para dizer em frente à câmara.
Às oito e meia da manhã a Christina veio-me avisar, alarmada, que eles já estavam a caminho da nossa casa. Daí a nada o telefone tocou outra vez, e era um jornal berlinense a perguntar se podia vir também.
Tivemos uma meia horita de stress, mas mal os ouvimos na rua (uma barulheira, só podiam ser oito portugueses!) a coisa começou a melhorar.


Simpáticos, bem-dispostos, abertos, extremamente agradáveis. Sentámo-nos à mesa do pequeno-almoço improvisado, começámos a falar como se fôssemos antigos amigos, até nos esquecemos da câmara que filmava. Depois o Joachim foi entrevistado e disse coisas muito acertadas, depois eu fui entrevistada enquanto o carrapito que fizera a correr se desfazia perante oitenta milhões de alemães (mais ou menos, vá) e é claro que disse coisas muito interessantes mas na reportagem que passou à noite vi que eles escolheram justamente a parte em que eu estava a dizer disparates e o meu penteado entrava em espiral autodestrutiva. Depois os da televisão foram-se embora, e veio a jornalista, que era amorosa e me compreendeu inteiramente, porque o artigo que saiu hoje no jornal começa assim "Na realidade, a Helena Araújo está atrasadíssima com uma tradução, mas..." (e era mesmo o que eu precisava, que todos os berlinenses saibam que eu atrasei uma entrega). Falámos, eu comecei a fazer um almoço (esparguete com molho de tomate, que é a única coisa que se arranja quando nos entram oito pessoas pela casa dentro dez horas antes do esperado), o fotógrafo disparava "Helena Araújo em frente a uma panela com água" "um dos convidados na cozinha a cortar belíssimas lascas de presunto pata negra" "os anfitriões e os convidados de volta de uma panela vazia que alguém escondeu estrategicamente com um prato fazendo de conta que era para servir a comida", a jornalista quase ia ficando também para o almoço, mas acabou por se ir embora porque também tinha prazos para cumprir, e à saída comentou com ar triste que estava muito arrependida por não ter aberto a sua casa a visitantes.
Eu é que não sei se ela teria com os seus tanta sorte como nós estamos a ter com os nossos.

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Já os inscrevi para a visita à cúpula do Reichstag. Já os levei a ver o memorial do muro na Bernauer Strasse, já percorremos Unter den Linden em passo estugado (ah, gosto destes!) porque eles estavam a ficar atrasados para o encontro ao fim do dia no centro de congressos, e conseguimos até fazer um sprint para ver a rotunda dos deuses da Antiguidade no Altes Museum e o altar do Pérgamo (coisas que se podem ver gratuitamente, esta cidade não cessa de surpreender). Desafiei-os para irem comigo assistir hoje ao ensaio geral do concerto de fim de ano da Filarmónica de Berlim. Os olhos brilhavam-lhes, mas que não, que a essa hora tinham trabalho de grupo. Ah, para que conste que a moral de trabalho dos portugueses é assim!
E agora volto à minha tradução, para que conste, por causa da fama dos portugueses e assim.

4 comentários:

Cristina Torrão disse...

Helena, admiro a sua resistência! Eu, depois de um Natal como o seu e de dias como estes, precisava de quatro semanas de Wellness... ;)

Helena disse...

Cristina, o meu Natal foi wellness!
Depois dos passeios que fazíamos a seguir ao pequeno-almoço, o maior stress que tinha era escolher entre ir para a piscina e a sauna ou ficar no quarto a ler. Ou ir para a piscina ler.
E depois: quem corre por gosto...
;-)

Gi disse...

Helena, isso parece uma enorme trabalheira e muito divertido. Que assim continue (a parte divertida, quero eu dizer).

Helena disse...

É muito mais alegria que trabalheira. Muito mais. E continua, e parece que amanhã vêm para cá mais três, e consta que são óptimos.