26 abril 2018

saída de emergência


Como contei num post anterior, no sábado passado tive um ensaio do coro numa escola. Vamos ter dois concertos com outro grupo, e foi preciso arranjar uma sala onde coubessem todos. Por sorte, nos edifícios das escolas antigas costuma haver um grande salão, e foi num desses, numa enorme escola deserta ao fim-de-semana, que nos juntámos. 

No fim do ensaio pegámos nas nossas coisas e descemos a escadaria. Ao chegar ao nível térreo não encontrávamos a porta da saída. As saídas de emergência estavam todas fechadas, e nós às voltas por ali, um bocado irritados e também muito aliviados por a casa não estar a arder. Finalmente, vimos uma das portas principais a abrir-se. Era uma empregada de limpeza, que também estava a sair. Corremos para a porta. Mal eu passei, a funcionária fechou a porta e rodou a chave mesmo na cara das pessoas que estavam a querer sair.

Pedimos que abrisse, e ela recusou. Que aquela chave era só para ela, que a porta dos outros era outra, que bastava descerem à cave, irem até ao fundo do corredor, entrar numa salinha, depois noutra, e era por lá que podiam sair. Dizia-nos isto de chave na mão, mesmo junto à porta, com o pessoal desconsolado a olhar para ela pelo vidro, sem entender o que se passava.

Um dos que tinha conseguido sair tentou intimidá-la, gritando-lhe ordens para abrir a porta porque estava assinalada como saída de emergência, e que ia chamar a polícia, e coisas assim. Ela, teimosa, repetia que não abria, que aquela porta era só para ela e que os outros fossem à volta, ele que chamasse a polícia, e que ela tinha ordens superiores. Regras são regras. Ele gritava, ela gritava, uma adolescente começou a gritar também "vocês são adultos, portem-se como tal!"

Depois calaram-se todos, os que ainda estavam dentro da escola encontraram a tal saída pela cave, encontrámo-nos junto ao portão, dissemos "adeus, adeuzinho" em tom jovial, e cada um foi ao seu sábado. A alguns metros de nós, dois funcionários da escola e a adolescente observavam-nos e comentavam com rancor: "agora estão todos simpáticos, a dizer adeus e adeuzinho como se fossem boa gente."

Tudo aquilo foi desconcertante. A cupidez do exercício do pequeno poder, a brutalidade de fechar uma porta à frente das pessoas que queriam sair e não conheciam o edifício, a rapidez com que resvalámos para uma situação de violência, o desprezo de uns e o despeito dos outros. Mas o que me intrigou mais foi aquele apelo da adolescente: "portem-se como adultos!"

O que é que esta miúda entende por comportamento de adulto? Um adulto é um manso que se submete a prepotências e obedece cegamente às regras? Um adulto é aquele que aceita passivamente situações inaceitáveis, criadas por regras que se esqueceram de prever todas as possibilidades?


2 comentários:

Pedro Urbano disse...

Quando souberem, avisem sff, que já ando cá há um tempo sem saber muito bem o que fazer...

Helena Araújo disse...

Isto é um desabafo?

Talvez possas encontrar alguma ajuda na oração
"meu Deus, dá-me força para mudar o que pode ser mudado,
dá-me paciência para aceitar o que não pode ser mudado,
e dá-me discernimento para distinguir as duas coisas."