13 abril 2018

regresso ao futuro

Ontem regressei à Filarmonia para espreitar para o seu futuro: vi pela primeira vez Kirill Petrenko a dirigir a orquestra que o escolheu para substituto do Simon Rattle.
A primeira peça foi o "poema dançado" La Péri, de Paul Dukas. O Kirill Petrenko dançou-o tão bem que até me esqueci de olhar para os músicos. Nem me lembrei de reparar no Ottensamer! - é só para verem como o Petrenko dançou bem.




A segunda peça foi o concerto nº 3 para piano de Sergej Prokofjew, e a Yuja Wang tocou-o tão bem que até me esqueci de reparar no Petrenko. Não consegui tirar os olhos dos dedos vertiginosos da pianista - e, concedo, das suas costas nuas no vestido também vertiginoso (podem ler mais abaixo, na secção Caras). Ocorreu-me que quem devia estar sentado no lugar do concertino era o Michelangelo, a apreciar o jogo dos músculos sob a pele enquanto ela se entregava àquelas extraordinárias acrobacias no teclado.



A terceira peça foi a quarta sinfonia de Franz Schmidt. Por essa altura já eu estava habituada ao estilo do maestro, e sem a Yuja Wang na sala, pude concentrar-me inteiramente nesta obra (e às vezes no Ottensamer).
Traduzo do programa: Schmidt terminou esta peça em Novembro de 1933, na sua casa nos arredores de Viena. A sinfonia reflecte a sua trágica biografia: em 1919 a sua mulher fora internada na psiquiatria (onde viria a ser assassinada em 1942 no âmbito do programa de "eutanásia" nazi), e a filha de ambos, Emma, morrera em 1932 após um parto. Schmidt chamou a esta sinfonia "requiem para a minha filha". 
Como será possível escrever algo tão belo a partir do turbilhão do sofrimento pessoal e daquele tempo?



Durante todo o concerto lembrei-me do comentário de um dos músicos, ao dar a conhecer a decisão da orquestra. Contou ele que a princípio foi muito difícil escolher o substituto de Simon Rattle, mas quando o nome de Kirill Petrenko veio à baila deram-se conta de que os poucos concertos da orquestra com ele tinham sido momentos realmente especiais. Depois do concerto de ontem, só posso acrescentar: acredito, e não me admiro.

Conclusão: parece-me que estão reunidas as condições para, mesmo depois da saída de Simon Rattle, continuar a ser muito feliz na Filarmonia.

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Secção CARAS deste post:

A pianista Yuja Wang é também conhecida pelos vestidos que usa em concerto. Já a vi num que era uma aflição, tudo tão résvés que sabia-se lá o que podia acontecer se ela tocasse mais uma notinha que fosse sem estar na partitura. Mas dessa vez correu tudo bem, e o concerto foi inesquecível.
A verdade é que todos os concertos da Yuja Wang são inesquecíveis, e não é por causa dos seus vestidos.
Desta vez trazia um vestido como nunca vi num palco destes. Vermelho, de rendas fugazes sobre a pele e muitos brilhantes. Se não fosse comprido - comprido mas transparente, claro, que estamos a falar do estilo Yuja Wang - era mais tipo patinagem artística. Pude apreciar o conjunto com calma durante a sessão de autógrafos: o tule transparente sobre a pele, o desenho das rendas, e os sapatos de salto tão alto que ela ainda se arrisca a não receber indemnização do seguro caso caia dali abaixo e parta uma mão. Também pude apreciar o seu estilo: simpática, despachada, desenrascada a resolver os problemas de quem não sabia como tirar uma selfie com ela.






1 comentário:

Gil António disse...

Passando a fim de conferir uma excelente publicação.
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*Mulher; Flores e Borboletas, em sintonia poética (Poetizando) *
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Votos de um dia feliz.