08 novembro 2017

"contra a doença do politicamente correcto" (1)

A jornalista Bárbara Reis escreveu recentemente uma crónica no Público tomando partido contra aquilo a que ela chamou "a doença do politicamente correcto".

A sua tese:

"Caminhamos para uma sociedade que aceita e promove a censura (...). Levado ao extremo, infantilizados, mecânicos e em permanente cuidado para não perturbar, nem dizer ou fazer alguma coisa incómoda, um dia nenhum adolescente dará um primeiro beijo sem antes ter na mão um papel assinado a garantir que o gesto é bem-vindo."

Continua:

"Exagero? Sim, mas não é exagero o que se passa nas universidades americanas e inglesas e, em menor escala, nas portuguesas?"

Dei-me ao trabalho de gastar algum tempo com cada um dos exemplos dados por Bárbara Reis, e concluí que a jornalista não se deve ter dado ao menor esforço de tentar entender o que estava por trás de algo que lhe pareceu estranho. Limitou-se a agarrar nas parangonas tipo Daily Mail, trazendo-as para o seu texto com o pior resumo possível - o que melhor serve a sua tese. Bem sei que escreveu uma crónica e não uma notícia, mas tenho alguma dificuldade em perceber que seja possível a um jornalista meter os princípios, a ética e a curiosidade profissional no bolso quando está a escrever "apenas" um artigo de opinião.

Vejamos com mais detalhe os exemplos que Bárbara Reis dá daquilo a que ela chama "exageros que se passam nas universidades americanas e inglesas":



1. Na School of Oriental and African Studies, de Londres, alguns estudantes pediram menos “filósofos brancos” (o que seria se a Universidade Católica não ensinasse David Hume por ser ateu?)

O exemplo da Universidade Católica e de Hume está mal escolhido. A questão é mais: o que seria se num curso de teologia católica a matéria fosse dada quase exclusivamente a partir da perspectiva de  budistas, confucionistas, muçulmanos e ateus?
Para averiguar o que se passou realmente, nada como ir directamente às fontes: na Escola de Estudos Africanos e Orientais (sublinhado meu) e no âmbito dos esforços de tomar consciência do legado colonial dentro dessa instituição, a associação de alunos emitiu um  documento sobre as prioridades educacionais, no qual propunha:
- To make sure that the majority of the philosophers on our courses are from the Global South or its diaspora. SOAS’s focus is on Asia and Africa and therefore the foundations of its theories should be presented by Asian or African philosophers (or the diaspora).
- If white philosophers are required, then to teach their work from a critical standpoint. For example, acknowledging the colonial context in which so called “Enlightenment” philosophers wrote within.

Para quem quiser entender melhor este caso, em vez de se ficar pelas garrafais tipo Daily Mail, recomendo dois textos:
- Soas students have a point. Philosophy degrees should look beyond white Europeans
Resumindo muito: informa que a Escola de Estudos Africanos e Orientais (repito o sublinhado) não tem um BA em Filosofia, mas apenas em Filosofias do Mundo, no departamento de Religiões e Filosofia; lembra que o tempo dos estudantes não é ilimitado e que por isso é natural que no currículo do curso de Filosofias do Mundo de uma escola de estudos orientais e africanos (desculpem repetir-me) os pensadores africanos e asiáticos só devam ser preteridos a favor dos europeus quando se considerar que estes têm contributos essenciais ao estudo de determinada realidade; congratula-se pelo sinal positivo que vê no facto de estudantes se pronunciarem sobre os currículos da sua escola.
 - Are Soas students right to ‘decolonise’ their minds fromwestern philosophers?
O autor falou com estudantes e professores da escola, e escreveu um texto muito inteligente e informativo - para quem se quer dar ao trabalho de se informar, em vez de ficar pela rama das parangonas que servem uma determinada imagem que se tem do mundo.



2. em Cambridge houve críticas à comida “culturalmente insensível” do refeitório

O caso está aqui descrito. Era mais ou menos como servirem batatas cozidas com bacalhau, alheira e couve-galega e anunciarem na ementa da cantina "cozido à portuguesa". Se um português protestasse e afirmasse que essa combinação não tem nada a ver com a cultura gastronómica do seu país, era caso para o acusar de sofrer da "doença do politicamente correcto"?


3. o Instituto de Psiquiatria, Psicologia e Neurociência do King’s College pensa retirar os retratos dos seus fundadores

Esta, até o Daily Mail explica: foi decidido alterar a aparência do hall da entrada da escola, criando uma amostra de diversidade (incluindo académicos pertencentes a minorias étnicas), e transferindo os bustos dos fundadores e os retratos dos antigos decanos para outros lugares do edifício. Como diz um decano, no artigo do Daily Mail: "We’re trying to reflect the diversity in terms of students we have, but also trying to be more inter-cultural, more international in terms of how we develop the science."
Aqui para nós, que imagem de faculdade nos parece mais apelativa e moderna? A que exibe na entrada bustos e retratos dos fundadores e dos decanos, todos "homens brancos de barba", como se dizia no artigo do Daily Mail, ou a que exibe na entrada fotos de uma extraordinária rede de investigadores provenientes de todo o mundo?


4. a City University, famosa pela escola de jornalismo, proibiu jornais tablóides

A City University não proibiu jornais tablóides. Uma assembleia de estudantes (com a extraordinária representatividade de 1% do corpo estudantil) votou uma moção de carácter sobretudo simbólico para banir os tablóides. A ideia era fazer algo para impedir que certos jornais continuem a alimentar o fascismo, as tensões sociais e o ódio na sociedade. A moção deu origem a um acalorado debate e a firmes tomadas de posição muito críticas por parte do corpo docente e de muitos alunos da escola.
O Guardian explica: The motion said the titles have published stories that demonise refugees and minorities, have posted Islamophobic stories and “all actively scapegoat the working classes they so proudly claim to represent”. It added that “freedom of speech should not be used as an excuse to attack the weakest and poorest members of society” and that the titles publish stories that are “inherently sexist”.
The motion, while largely symbolic, is embarrassing for the university, which runs one of the UK’s top journalism programmes.
O artigo do Guardian fala ainda de tomadas de posição no debate que se seguiu, nomeadamente: “Students on our journalism courses value being able to access the views of publications and broadcasters across the industry and the department will continue to enable all these opportunities”;  “We combine professional skills training with a concern for professional standards and the importance of fair, impartial and ethical reporting is at the heart of our courses.”; “People should be free to choose what they read. Rather than banning things, we should be encouraging people to voice their objections to views and opinions they don’t like.”; “The students in the class I was teaching today were furious and understandably so at gesture politics from a fraction of the student body. They understand that the answer to journalism that you may not like is to do the journalism better.”


5. e no University College, a associação Nietzsche Society foi proibida por receio de estimular o pensamento fascista.

Não, Bárbara Reis. A tal associação, que antes de se chamar "Nietzsche Society" tinha o nome "Tradition UCL", não era um grupo de académicos interessados no estudo sério de um filósofo. Se investigasse um pouquinho ia dar-se conta de que a Nietzsche Society andou a espalhar na universidade cartazes assim:


Em resultado disso, foi aprovada uma moção para banir o grupo daquela universidade.
Bem sei que a Academia é um lugar de debate e liberdade, mas neste caso parece-me que o tal "exagero que se passa nas universidades americanas e inglesas" está mais do lado de quem afixa um cartaz com um lema dos white supremacists ilustrado por uma imagem de macacos, que do lado de quem quer banir da Academia "debates intelectuais" deste nível.

Estes cinco exemplos têm três características comuns:
- foram contados de uma forma, digamos, trapalhona;
- os factos não têm uma dimensão que justifique sequer falar-se deles, quanto mais usá-los para fundamentar a tese do "estamos cercados pelo politicamente correcto" (e se é só este tipo de exemplos que a Bárbara Reis consegue arranjar...)
- todos eles são iniciativas para corrigir situações de falta de respeito pelas minorias, e em todos eles a Bárbara Reis opta por criticar não a falta de respeito em si, mas quem a pretende corrigir.

 Outras acusações que Bárbara Reis faz, para justificar que se lute contra a "doença" do politicamente correcto:
 
- um americano de origem asiática não pode usar rastas sem ser acusado de “apropriação cultural”
Como o próprio texto mostra algumas palavras mais tarde, pode. Por pertencer a uma minoria, a outra minoria não se sente ameaçada pela assimetria de poder. 
Muito haveria a dizer sobre rastas e apropriação cultural, mas proponho que se volte a falar deste detalhe daqui a uns anos, quando tiverem tirado o elefante do meio da sala. Quando, por exemplo, não houver jornalistas a criticar quem quer banir do campus universitário um grupo de white supremacists depois de este ter espalhado na universidade cartazes como o que se vê na imagem acima.  

- E a colecção de Verão da Bimba & Lola, cujo padrão eram caras de mulheres masai? Uma homenagem ou uma objectificação da tribo queniana? Ou a intenção foi, simplesmente, desenhar um padrão bonito, que poderia ter caras de bebés louros, austríacos com chapéu tirolês ou cozinheiros de bigode comprido?
O problema é que este padrão reforça a ideia de "africano" como "exótico" e "primitivo".
Chimamanda Adichie conta com muita ironia um episódio a propósito desta questão: quando foi estudar para os EUA, a sua colega de quarto, muito simpaticamente, mostrou interesse pela sua cultura. Queria ouvir "música tribal" e ficou surpreendida quando Chimamanda lhe mostrou a sua cassete da Mariah Carey.
Também aqui proponho que se volte a falar do padrão da Bimba & Lola quando na nossa sociedade as pessoas da maioria olharem para uma pessoa de pele escura, olharem para ela nos olhos, e virem nela um igual e não um "exótico" e um "primitivo".



A crónica de Bárbara Reis termina com a acusação de que andamos a perder tempo com microagressões, quando há coisas bem mais graves para resolver, e dá exemplos: grave é o juiz do Tribunal da Relação do Porto ter sido conivente com um brutal acto de violência doméstica; a desigualdade salarial entre homens e mulheres; não deixar entrar negros na Urban; o contínuo silêncio que persiste em Portugal sobre a pedofilia na Igreja.

Sim, são questões muito graves. No entanto, há esperança: Bárbara Reis é jornalista. Em vez de gastar tempo a espalhar no mundo histórias muito mal contadas para dar a impressão de que o politicamente correcto é uma loucura que nos cerca e ameaça seriamente, pode usar o lugar e o poder que tem para participar na luta por um mundo melhor.

Só tem de fazer o seu trabalho. Mas convinha que fosse bem feito.

(Sim, estou irritada: gastei demasiado tempo a fazer o trabalho que Bárbara Reis devia ter feito antes de escrever o que escreveu.)

7 comentários:

Paulo Topa disse...

Muito bom e muito obrigado pelo trabalho. Fica a sugestão de o enviar para o Público a ver se o publicam.

emagrecer com acupuntura disse...

Fiquei deliciada com a crónica e também já li a continuação. Muito informativa e bem fundamentada. É assustador como os incompetentes e os mal preparados têm voz e espalham ideias falsas.
Gosto da sugestão do Paulo Topa de enviar a crónica para o Público.

Zélia Maria Matos disse...

Manda o teu texto, tal e qual, para o Público. E obrigada por te dares ao trabalho.
:)

Helena Araújo disse...

Bem, parece-me que começa a haver aqui quórum... :)

jj.amarante disse...

Eu constato que em relação ao ponto 2 sou um vencido da vida. Quando passei algumas semanas há uns 30 anos em Inglaterra fiquei convencido que na esmagadora maioria dos restaurantes qualquer prato estrangeiro era sempre uma interpretação inglesa desajeitada dessa cozinha, e que os cozinheiros ingleses eram um caso completamente perdido. Esses estrangeiros de agora em Inglaterra mostram uma esperança na possibilidade de redenção dos cozinheiros ingleses que me parece de louvar.

Helena Araújo disse...

jj. amarante, hehehehe
O artigo que referi, "soas' students have a point" fala com muita admiração da energia e do empenho desses jovens. Mas muitos deles não são estrangeiros - são ingleses de todas as cores de pele que perceberam que há muito trabalhinho a fazer para corrigir hábitos antigos.

Fernanda P. disse...

Concordo mas recomendo a tradução das citações em inglês.