28 fevereiro 2017

F*** day

 
 

(A arquitectura da Filarmonia continua a fascinar-me. 
De cada vez descubro novos detalhes, novas surpresas.)


 
Conhecem o famoso "F-word"? O meu é "Filarmonia". Foi hoje, outra vez.
Comecei por preencher a ficha de inscrição para participar na ópera que vai ser estreada em Junho. Quando cheguei à parte da motivação, escrevi:
- Então, trata-se de um education project da Filarmonia de Berlim e ainda me perguntam a motivação?! :)
(Eu sei que o mundo real não é assim, mas insisto em tentar ajustá-lo à minha maneira. A ver se corre bem.)

Depois fui ao Lunchkonzert. Era dia de duetos de piano e clarinete, como não ir?

Gostei muito do segundo andamento da sonata para piano e clarinete f-Moll op 120 nr. 1 de Brahms (no vídeo, a partir de 7:12). Estou ansiosa pelo próximo entardecer de domingo, é a música certa para adoçar essa hora.




Também gostei muito do Tema con variazioni para clarinete e piano, uma peça composta em 1974 por Jean Françaix. Ouçam, ouçam. Devolvo o dinheiro a quem não gostar.




Almocei com uma amiga, e por mim ainda agora estávamos lá na conversa. Mas o dever chama. Daqui a nada saio para o ensaio do coro. Em duas semanas vamos estrear uma peça de um compositor berlinense, e ele vai assistir hoje ao ensaio. Ai! A ver se não me acontece como da outra vez, quando me fui pôr num sítio onde não estava ninguém, e depois percebi que era mesmo ao lado do compositor da peça que íamos estrear, e no fim de cantarmos o Simon Rattle perguntou ao compositor o que achava e ele respondeu que não estava nada mal, mas era bom se conseguíssemos cantar em uníssono, e por azar estava a falar de mim. Triste vida, sou sempre o único soldado que vai a marchar bem na parada inteira.


e ainda perguntam?!



O novo Education Project da Filarmonia de Berlim é "A Trip to the Moon", uma ópera infantil encomendada a Andrew Norman, inspirada num filme francês de ficção científica de 1902. A première será no dia 17 de Junho, na Filarmonia. O coro vai cantar em "moonish", uma língua nova inventada de propósito para esta história, só com vogais e cheia de ritmo. O projecto inclui trabalhar com o Simon Halsey (aaaaiiii, o Simon Halsey) (que já nem sequer está em Berlim) e com o Simon Rattle (aaaaiiii!) (que vai deixar os Filarmónicos em 2018).

Tenho a ficha de inscrição à minha frente, cheguei à parte em que me pedem a motivação para participar neste projecto, e estou a agarrar-me para não escrever:

"e ainda perguntam?!"


27 fevereiro 2017

ponto de viragem

Está uma pessoa a rir-se de si própria por ter saído com o cão levando a trela e esquecendo a coleira (apesar de já ter tomado 2 cafés) e recebe uma mensagem da filha a dizer que acabou de ter um acidente na autoestrada. No regresso de Roma, o autocarro em que ia desviou-se de um condutor que vinha em sentido contrário (na autoestrada!), bateu num camião, e a seguir foi apanhado por trás por uma camioneta que também se despistara. Por sorte não aconteceu nada a ninguém, excepto um susto terrível.
E nas próximas semanas também não vai acontecer nada, porque mandei a Christina correr para baixo da cama mais próxima, e só sai de lá em Abril, para regressar a casa.
Ela disse que sim.
 

Está uma pessoa descansadinha, a rir-se na vida, e num segundo tudo pode mudar. 

(Beijo na boca. Um dia que encontre o anjo da guarda da Christina, vai de beijo na boca.)

dia 8 da Berlinale 2017


Ao oitavo dia ia apanhando uma desidratação com o Karera ga Honki de Amu toki wa (Close-Knit) de Naoko Ogigami. Eu e a sala toda a fungar, faz de conta que era a gripe da Berlinale...
E Maudie, de Aisling Walsh, com uma fantástica Sally Hawkins: mais fungadelas.
A ver se me lembro, da próxima vez, de comprar acções das empresas de lenços de papel antes de começar a Berlinale. Aposto que têm uma grande subida de lucros por estes dias.

Mas vamos por partes:


1. 


Bamui haebyun-eoseo honja (On the Beach at Night Alone), de Hong Sangsoo. Da sessão para a imprensa vi apenas os primeiros 40 minutos, porque tinha bilhete para outro filme às dez da manhã. Um filme sereno, uma actriz perfeita. Tive pena de não ver até ao fim. 


2. 





Karera ga Honki de Amu toki wa (Close-knit), de Naoko Ogigami, é um filme sobre questões de transgénero para principiantes. No Japão só agora se começa a falar nestes temas, pelo que a transexual apresentada é uma pessoa perfeita, amorosa, maravilhosa, tudo de bom.
Paciência. O cinema japonês fará o seu caminho, e daqui a uns anos apresentará transexuais normais, com direito à imperfeição dos humanos.
Close-knit é um filme doce, de uma simplicidade quase pedagógica, absolutamente encantador. Permite reduzir as questões de transgénero e homossexualidade à essência das relações: amor, respeito, empatia. E mostra como tudo pode ser simples, se aceitarmos as pessoas em vez de as tentarmos ajustar à medida dos espartilhos morais.


3.


Tahqiq fel djenna (Investigating Paradise), de Merzak Allouache, é um documentário que explora as imagens do paraíso no Islão, focando especialmente o fenómeno da utilização da internet por salafistas para aliciar, manipular e recrutar jovens para a jihad.
Mostra um paraíso desenhado para os homens (e as respostas dos homens sobre o paraíso das mulheres: "se calhar vai ter uma cozinha mais bonita" ou "no paraíso, a mulher escolhe o seu marido"), a ingenuidade ("Deus é que sabe porque é que nos dá 72 virgens no paraíso, Deus não erra"), a pornografia machista nas imagens do paraíso (já valia a pena ver este filme só pelas imagens de um imã a descrever as mulheres que os homens vão encontrar no paraíso, "ai aquele cabelo, ai aquela boca, ai aquelas mamas, ai aquelas coxas, ai..."), a dicotomia espírito/letra das escrituras que provoca o auto-de-fé invertido (em vez de se queimar livros, é um livro interpretado de forma perversa que está a incendiar o mundo). O cancro wahabita que alastra pelo mundo graças ao poder económico da Arábia Saudita, promovendo por via digital uma globalização islâmica de conceitos muito arcaicos que está a mudar a vida de muitos muçulmanos. E o efeito explosivo de uma religião que põe a felicidade e a realização dos homens num plano pós-morte.
Um bom contributo para a análise de problemas prementes do nosso tempo.
Aqui podem ver uma pequena reportagem sobre o realizador e o filme.
Durante o debate, perante alguém que dizia que este filme podia mudar as coisas, o realizador respondeu com humor: "Se um filme pudesse mudar o mundo, já o teríamos sabido..."
O que me lembrou uma frase semelhante do realizador de Fuocammare, sobre os refugiados africanos e Lampedusa. O seu filme ganhou o Urso de Ouro do ano passado, mas tudo continua na mesma.



4.




Politica, manual de instrucciones, de Fernando León de Aranoa, é um exercício muito arriscado de transparência: durante um ano, uma equipa de filmagens acompanhou o processo de formação e implantação do Podemos. O filme, que começa com a exibição de jovens políticos inteligentes e dinâmicos, com um discurso articulado que é puro prazer do espírito, acaba por insistir muito na questão da conquista do poder. Não se sabe qual o conteúdo das 500 horas filmadas, e se o filme faz justiça ao fenómeno Podemos - mas o que nos mostra é mais estratégia que conteúdos, mais preocupação com o poder do que atitude de serviço e defesa de valores.
Talvez seja essa a maldição dos partidos - e sendo assim, escusavam de usar um novo como exemplo. Qualquer outro serviria melhor para fazer o desenho.



5.




Maudie, de Aisling Walsh, com uma Sally Hawkins fenomenal.
Nem digo mais nada. Vão ver o filme, digam vocês.


26 fevereiro 2017

"polaroid" (2)



Trago o filme da Enciclopédia Ilustrada - e já ganhei o dia. Estas imagens que o Tarkovsky fez com uma polaroid são de uma beleza impossível. Como se a matéria tivesse sido feita de propósito para se acomodar de forma assim perfeita na fotografia.

Aqui há mais algumas imagens (mas já fui ver o preço do livro. Gulp!): Instant Light.



terrorismo na Alemanha

Avisem o Trump que não é só na Suécia que "acontecem coisas horrorosas"...

O Ministério do Interior alemão informou que em 2016 houve na Alemanha mais de 3.500 ataques a refugiados e centros de refugiados. Foram feridas 560 pessoas - entre as quais 43 crianças.


- 2.545 ataques a refugiados fora do seu local de residência
- 988 ataques a centros de refugiados

- 217 ataques a centros de apoio ou a pessoas que prestam apoio a refugiados

Fala-se muito - e bem - nos ataques de terrorismo islâmico. Mas estes ataques, de terroristas da extrema-direita, têm passado despercebidos.


bate e foge (3) - Berlinale 2017

Entre o filme no Zoo Palast e o seguinte, no International, decidi ir almoçar sushi no Mr. Hai Kabuki (Paulo, anota: quando tu não estás, o cozinheiro do Mr. Hai não se esmera.)

Ao passar na praça da Gedächtniskirche, onde ainda ardem muitas velas a lembrar as vítimas do atentado de Dezembro, dei-me conta do ambiente extremamente calmo da Berlinale. A cidade cheia de turistas e estrelas de cinema, e em lado nenhum se armou o aparato do medo. Limitaram-se a proibir a entrada de bagagem nos cinemas e nas salas da organização, e só uma vez me revistaram o saco. Sem stress, sem stress.  
Esta cidade não se deixa vencer facilmente.



Ao passar na Bleibtreustrasse, parei um pouco numa loja de que gosto muito porque, para tornar especial um espaço que é apenas um longo corredor estreito, puseram uma árvore deitada desde a rua até ao fim da loja. As pessoas contornam as raízes para entrar, e dentro da loja avançam sobre o tronco, impecavelmente cortado e envernizado. Não me interessa o que vende, mas paro sempre a admirar aquele corredor.






Logo a seguir, uma memória do Holocausto: pedras na calçada, com o nome das pessoas que foram levadas daquela casa para os campos de concentração. Uma data chamou-me a atenção: 27.11.1941. Foi o primeiro transporte para Riga, a terrível viagem, o massacre à chegada. Contei aqui, quando descobri essa data no memorial Gleis 17. E agora estava a ver a casa de onde algumas dessas pessoas saíram, uma casa bem bonita, praticamente à frente de uma das minhas lojas favoritas. Li o nome delas, o nome da mulher de quase 60 anos que se suicidou para não entrar nesse comboio, os nomes do casal com uma filha de 14 anos que se deixaram levar - que esperança ou que desalento os terá levado a aceitar a deportação?
Esta cidade confronta-nos permanentemente com a História. Não esquece.






Continuei de S-Bahn para Alexanderplatz. O dia estava frio, mas com um céu azulíssimo. Quase tornava bonitos os edifícios de Plattenbau da Karl-Marx-Allee.






dia 7 da Berlinale 2017



1.




Invoco a quinta emenda da constituição americana para não me pronunciar sobre o Colo, de Teresa Villaverde. O problema não é o filme, sou eu, e não me quero enterrar mais do que já estou. Digo apenas que é um filme muito bem feito sobre o poder desestruturante da crise, capaz de sufocar em claustrofobia os espaços mais abertos.


2.



Sage femme, de Martin Provost - a história de duas mulheres muito diferentes que têm contas abertas do passado e tentam uma reaproximação - é um filme que avança sem sobressaltos e termina da mesma forma. Excelente o trabalho de Catherine Deneuve e Catherine Frot.


3.



O documentário I'm not your negro, de Raoul Peck, a partir de textos de James Baldwin, era um dos filmes a não perder nesta Berlinale. Muito bem feito, usa um texto com quase meio século e imagens de várias épocas para pôr o dedo na ferida: o racismo contra pretos continua a ser um problema grave, e não é um problema das vítimas, é um problema que os brancos têm de identificar neles próprios, e têm de saber resolver. Como dizia Raoul Peck no debate após o filme: "don't put the burden on us!"
No regresso, o amigo com quem o fui ver comentava que a situação dos pretos nas sociedades de supremacia branca sempre foi como uma corrida de 100 metros na qual os brancos já partem com um avanço de 70 m. Tem havido resultados positivos ao fim de tantas décadas de lutas pelos direitos civis, e a distância entre os dois grupos já só é de 30 m à partida - mas nos EUA assiste-se a uma reacção brutal dos brancos assustados com esta perda de vantagem.
Gostei da imagem - e não se aplica apenas às questões de racismo, e aos EUA.
Depois, o meu amigo falou do Malcolm X, e de não adiantar nada "oferecer a outra face" - se é para morrer de qualquer modo, mais vale morrer a lutar. E acrescentou: depois de tantos séculos em que os brancos violaram as nossas mulheres, era justo nós agora violarmos as deles.
Eh, lá! As mulheres dos brancos sou eu! Bem sei que entre os meus muitos egrégios avós é bem possível que algum tenha andado a ganhar a vidinha nos barcos negreiros, mas não me dá jeito nenhum virem agora com fantasias de violência sexual mascaradas por uma espécie de justiça histórica...
E lembrei-me de uma conversa com o Reuven Moskowitz, há mais de dez anos, em Weimar. Este sobrevivente do Holocausto, que dedicou a sua vida à paz entre judeus e palestinianos, respondeu-me, quando lhe disse que às vezes ao olhar para velhinhos de Weimar me perguntava de que lado estavam eles 60 anos antes, que esse tipo de atitude só aumenta o fosso e o ódio entre as pessoas, e não ajuda nada a promover a Paz.



4.





1945, de Ferenc Török. Um filme húngaro sobre um aspecto ainda muito silenciado do Holocausto - a conivência dos povos, e a cobiça alheia. O realizador apresentou-nos o filme dizendo que ali estavam 12 anos da sua curta vida. 12 anos! Todos somados, quantos anos de vidas virão apresentar-se nos 400 filmes da Berlinale? Quantos sonhos, quantos esforços, quantas desilusões?

O filme é a preto e branco, e decorre em 1945 quando, pouco depois do fim da guerra, numa aldeia húngara corre a notícia da chegada iminente de dois judeus que ninguém conhece. A simples presença dos dois homens na aldeia basta para sacudir as consciências e as relações entre os seus habitantes. O enredo está bem construído, as personagens desenvolvem-se com equilíbrio, a crítica social e histórica está bem colocada, e o conjunto resulta numa homenagem digna às vítimas do Holocausto. De tudo isso, que já está muito certo, sobressaem imagens de extraordinária força: as de dois judeus que atravessam uma aldeia em silêncio. Das imagens mais inesquecíveis que vi nesta Berlinale.


5. 




Ao ler no programa que se tratava de um filme sobre pessoas presas num bar devido a um ataque terrorista, imaginei que El Bar, de Álex de la Iglesia, seria um filme divertido no qual um grupo de espanhóis discutiria medos e esperanças entre tapas e copos de vinho. Bem me enganei! Dei comigo às dez da noite num filme de terror, género que evito cuidadosamente deste que vi o Shining aos 17 anos. E descobri que já sou crescidinha, já consigo ver estes filmes sem me impressionar. E que  filme! Muito bom ritmo, boa história, boas máscaras. Óptimo desenho do modo como as pessoas se revelam em situações extremas, numa sucessão permanente de surpresas.
Saí do cinema a pensar que talvez não me tenha assustado porque já estou habituada: infelizmente, nos últimos tempos tenho tido oportunidade de ver pessoas normais a ficar completamente transtornadas devido ao medo.


uns inúteis, os cientistas

Raixparta os cientistas, que são muito bons e tal, mas não sabem definir prioridades. Gastam tempo a descobrir sete planetas a 40 anos-luz da terra (40 anos-luz, estão a ver bem? Uma pessoa sai para os ir conhecer, passa lá um dia e quando regressa à terra já se lhe acabou a vida!), gastam tempo e recursos a descobrir coisas assim, mas depois, o que é mesmo necessário, nada.
Como é que se faz para o arroz malandrinho do dia anterior não se transformar em açorda no dia seguinte, hã?
(Eu a olhar para aquele pimento biológico, aquela courgette biológica, os brócolos biológicos, tanto dinheirinho no meio daquela gosma de colar papel de parede, e a dizer-me como dizia aos filhos: "vá, come ao menos os legumes".)
(Inúteis, os cientistas! humpf!)
(E tenho uma panela daquilo - vou passar a semana inteira a comer cola de papel de parede, snif snif.) 


[ADENDA: informaram-me que isto não é uma questão de ciência, é da área do metafísico. Portanto, corrijo: raixparta os milagres, que nunca acontecem quando uma pessoa precisa deles!
Vou recomeçar a ir à missa ao domingo, a ver se se opera um milagre no meu arroz malandrinho.
Depois conto.]



"polaroid"

A Polaroid fez 70 anos no passado dia 21. A Enciclopédia Ilustrada registou a efeméride. Partilho o post que lá escrevi:

Uns meses depois de ter vindo morar para a Alemanha, fui viver em casa de amigos que tinham uma recém-nascida e um filho de 3 anos. A mãe era colega do Joachim na universidade, e o meu trabalho era tomar conta dos pequenitos enquanto ela ia às aulas. Numa dessas manhãs, enquanto a bebé dormia, fiz com o rapazinho uma Polaroid de Lego. A objectiva com uma janela, o compartimento para o rolo (melhor dizendo: para os quadradinhos de papel cuidadosamente arrumados) protegido por um portão de plástico, bendito Lego que tudo permite. Ficou uma Polaroid muito catita. Passámos a manhã a tirar fotografias. Ele escolhia o motivo, fazia a fotografia, tirava da máquina um dos quadradinhos de papel, e desenhava a cena que tinha fotografado. Depois eu fazia o mesmo - porque só tínhamos uma Polaroid, tínhamos de a usar à vez.
À noite, quando o Joachim chegou para jantar connosco, a mãe do miúdo mostrou-lhe a nossa máquina fotográfica e a exposição de fotografias (uma bela colecção) e disse:
- Joachim, tens de casar com esta mulher!
Seu dito, meu feito. E já lá vão quase 25 anos. Mas nunca mais fiz nenhuma Polaroid. Coitado do Joachim, casou ao engano.


25 fevereiro 2017

bate e foge (2) - Berlinale 2017




Mais algumas fotos da semana da Berlinale, feitas a correr entre cinemas e filmes:

 





  


 


dia 6 da Berlinale 2017




(Já lá vai mais de uma semana - não precisam de ler, estou a escrever apenas para mim :) )

14 de fevereiro. Na sessão para a imprensa, às 9 da manhã, havia uma fila de cadeiras toda ocupada por italianos de meia-idade, todos homens, a desejar-se mutuamente um bom São Valentim.
Por essa altura, já andava confusa de cansaço: pensava que ia ver o "Colo" de Teresa Vilaverde (e fiquei muito satisfeita ao ver a fila interminável de interessados no filme) mas afinal era o "Toivon Tuolla Puolen" ("o outro lado da esperança") de Aki Kaurismäki. A história de um refugiado sírio que vai dar à costa da Finlândia, contada numa linguagem contida e com a conta certa de humor para aliviar a violência crua dos neonazis e a violência asséptica e ainda mais brutal da burocracia estatal. Um bom filme, mas com um refugiado demasiado "boa pessoa" - e não quero dizer que os refugiados são más pessoas, apenas que têm o direito de ser pessoas imperfeitas, como todos os outros.




Na roulotte de Käsespätzle não tinham troco para a minha nota de 100 euros. Disseram-me para comer, e voltar lá com uma nota mais pequena quando pudesse. Eram apenas 5 euros, mas fiquei com vontade de gostar de toda a Humanidade.




O segundo filme do dia foi The Party, de Sally Potter. Tínhamos visto os artistas chegar para a première, no dia anterior. O Bruno Ganz, que no tapete vermelho me lembrou o Hitler (e a culpa é dele: ninguém o mandou fazer um Hitler tão extraordinariamente bem conseguido em A Queda) tem um papel hilariante neste filme. Já lhe podiam dar o Oscar - não pela representação propriamente dita, mas por ter conseguido fazer tudo aquilo sem ter ataques intermináveis de riso. Um óptimo filme: ritmo, energia, tensão, excelentes diálogos e excelentes actores.


Belinda, de Marie Dumora, é um documentário que resulta de uma aposta ousada: acompanha a evolução de uma miúda da etnia yeniche, que é retirada aos pais e vai crescendo entre os serviços sociais e as saudades da família - especialmente do pai, que passa muito tempo na prisão. Confesso que adormeci quando ela estava a telefonar ao pai, ainda preso, e quando acordei ela estava a ir para a prisão vestida de noiva, para casar com o namorado que estava preso. Talvez tivesse sido menos doloroso se tivesse acompanhado todo o processo. Mas não: saí do cinema sentindo-me triste por ter visto uma miúda que parecia ter todos os caminhos pela frente dar lugar a uma jovem mulher a arrastar-se penosamente numa existência sem perspectivas, sabendo que aquela história é real, está a acontecer, e não é única. E que provavelmente vai ter filhos, que um dia telefonarão ao pai na prisão. Como é que se quebra este círculo vicioso?




La Reina de España, de Fernando Trueba, é um filme um pouco desequilibrado: oscila entre a acusação ao franquismo e uma leveza inconsequente. Salva-o o trabalho da Penelope Cruz.


em contraciclo

Durante a noite arrefeceu, e caiu muito granizo.
(Se querem saber tudo: por volta da meia-noite o Fox desatou a ladrar, eu fui ver se era um ladrão e descobri que tinha uma raposa a andar de um lado para o outro como se estivesse no jardim da casa dela. Maravilha! E que sorte ser uma raposa - se fosse um ladrão era mais chato, porque eu já estava na cama e ia fazer má figura a tentar escorraçar um ladrão naqueles preparos em que estava.)
(Nota mental: da próxima vez que me levantar da cama para ir ver se é um ladrão, cuidar de ir preparada para o caso de ser um ladrão.)

Mas voltemos ao assunto inicial: o tempo que faz em Berlim. No lago, o gelo recuperou algum terreno (será que se pode usar esta expressão quando se trata de água?) e o granizo cobriu-o de branco. Apareceram os primeiros patos e cisnes, abrindo sulcos de luz. Fiquei sem saber se me alegrar pelos primeiros sinais da primavera, ou pelo regresso do gelo em contraciclo.











 



24 fevereiro 2017

os últimos cartuchos antes do degelo








fim de ciclo

Ontem choveu toda a manhã.
Dei uma volta curta com o Fox, e à tarde o Matthias levou-o a passear. Trouxe novidades: começou o degelo, e foi muito divertido ver o bicho a testar a água cautelosamente com a pata e a descobrir que já não podia correr em cima do lago.

Hoje saí com o Fox, e confirmei: começou o degelo. Ai! Assim se me acaba uma promissora carreira de fotógrafa (pelo menos nos próximos 10 meses).



Paisagem junto à minha mesa em dia de chuva. 



A primeira vez que vi o nosso lago foi a chegar por este mesmo caminho. 
Paixão à primeira vista. Ainda dura.   



 

Duas casinhas de cidade num lago do meu bairro. Não há dúvida: mais vale rico e saudável... 
 

 
 

O Fox até se estava a portar bem como modelo, mas às tantas viu um cão ao longe e partiu à desfilada, catapum catapum catapum, parecia uma manada de búfalos. E eu atrás dele, ó Fox! ó Foooox!
Por sorte não atravessou a rua, este maluco.
(Claro que temo que um dia seja atropelado. Mas ele é tão feliz na sua liberdade que nos faz pena pensar em tê-lo sempre preso para lhe garantir a vida. Que vida é essa, se a vive sempre preso?)