04 novembro 2014

os portugueses descobriram a Austrália?



Se calhar os portugueses não descobriram a Austrália, mas descobri eu este livro e fiquei toda contente. A ver se me explico: gosto imenso de estórias da nossa História - a Deu-la-Deu Martins a juntar os últimos restos de farinha para fazer um bluff de primeira, atirando pão, por cima das ameias, aos castelhanos que cercavam o castelo; a padeira de Aljubarrota, glória nacional; o Mestre de Avis e a tratantada da técnica do quadrado, dos insultos aos espanhóis para os atrair à cilada... Nas intermináveis viagens de carro contava estas e outras histórias aos meus filhos, que ouviam deliciados, "mãe, conta mais!"
De modo que quando me ofereceram este livro, e as suas 100 perguntas sobre factos, dúvidas e curiosidades dos descobrimentos, comecei a salivar. Hehehehe, vou juntar histórias suficientes para ir  com eles à China e voltar, pensei eu.

Era bom, era, mas este não é um livro de episódios de portuguesíssima glória. E ainda bem, porque em troca tenho um prazer da inteligência e, ao seguir o raciocíneo, uma descrição muito cativante do trabalho do historiador. A partir de uma pergunta qualquer ("os portugueses descobriram a Austrália?") detemo-nos no significado das palavras e na sua realidade (a Austrália já estava "descoberta" muito antes de os portugueses por lá passarem), passeamos pelas fontes disponíveis e a sua credibilidade, olhamos com cuidado para o contexto (uma coisa era uma viagem como a de Colombo, com um objectivo claro; outra coisa era o vaivém dos barcos e os inúmeros motivos das viagens que os portugueses faziam do outro lado do mundo). No fim, ficamos sem saber se os portugueses foram os primeiros europeus a chegar à Austrália mas, em compensação, aprendemos muitas outras coisas, e eu, pessoalmente falando, chego à conclusão que buscar hoje glória nacional nesta matéria seria uma manipulação e um anacronismo sem sentido.

Triste vida, vou ter de arranjar outras histórias para contar numa eventual viagem à China. Ou estas mesmo, só que terei de dizer adeus ao registo "livro da primeira classe do Estado Novo". Enfim, mais vale tarde que nunca...

Se me pagassem para a publicidade, acrescentaria que é o livro ideal para quem lê página e meia à noite antes de adormecer (espero que o Paulo Pinto não me ouça): capítulos suficientemente interessantes para uma pessoa aguentar acordada aquele bocadinho, suficientemente curtos para uma pessoa adormecer de bem com a vida, sem desligar o cérebro a meio do trabalho. Melhor que este, só mesmo "O Leitor", do Bernhard Schlink (espero que o Bernhard Schlink não me ouça).


11 comentários:

Fernando Tavares disse...

Helena já agora propunha que viesse a ler este artigo
http://portugalglorioso.blogspot.pt/2013/05/australia-descoberta-por-portugueses-em.html
Melhores cumprimentos
ftavares

Cristina Torrão disse...

Bem, por falar em viagem à China, eu tenho aqui há anos um livro que ainda não li com o título "Als China die Welt entdeckte". Parece que a China foi a primeira a descobrir a América e o resto do mundo. Dizem... Como disse, ainda não li.

Paulo Pinto disse...

Oh Helena, posso comentar os comentários? é a bem da higiene histórica.
1. o artigo que o Fernando Tavares menciona é um post de um blog ideológico (basta ver o título) que faz uma tresleitura de várias coisas, a começar pela notícia da Reuters. Não foi descoberto nenhum "mapa que prova que..."; o dito mapa é conhecido há séculos. O que há é uma interpretação do Peter Trickett, no seu livro "Para Além de Capricórnio", que defende a "tese Cristóvão de Mendonça". Numa palavra, é um livro cheio de falácias, erros, ingenuidades e disparates, que não tem credibilidade científica nem historiográfica. Isto tem um nome: pseudo-história. Fiz uma recensão crítica ao mesmo (penso que é a única em Portugal) que saiu na revista Brotéria de maio/junho deste ano. Conhece?Fica a sugestão.
2. À Cristina Torrão, presumo que esteja a falar do livro do Gavin Menzies. É um delírio puro, ainda mais alucinado do que o Trickett. Infelizmente, tudo o que é lixo de sensacionalismo histórico é sucesso.
Voilá. Thanx.

Helena disse...

Paulo, com certeza.
Eu fiquei calada porque me pareceu que não tinha nada de realmente interessante a acrescentar, a não ser uma certa desconfiança (tanto mais que o livro "os portugueses descobriram a Austrália?" me ensinou a olhar para a História com olhos de perguntador, em vez de olhos de "deixa ver se consigo sacar daqui mais uma medalhinha para a glória nacional").
Mas fico muito satisfeita se aparece por aqui alguém que entende do que fala. Obrigada!

Cristina Torrão disse...

Obrigada pelo aviso, Paulo Pinto! De facto, trata-se desse livro, tenho-o na estante desde fins de 2004 e ainda não o li. O título chamou-me a atenção e comprei. O meu marido começou a lê-lo, há vários anos, mas desistiu. Já não me lembro bem porquê, mas não lhe interessou minimamente. Deve ter sido por isso que perdi grande parte do interesse, pois eu tinha realmente intenção de o ler. Agora, ainda fiquei com menos vontade, na verdade, acho que já não tenho vontade nenhuma!

Paulo Pinto disse...

ok. obrigado. Confesso que a publicação do meu livro acabou por ser dececionante, não apenas pelo desinteresse completo que mereceu por parte de outros historiadores e académicos (e de críticos literários, enfim), mas sobretudo porque este tipo de feedback é exatamente o que esperei obter quando criei o blog, precisamente para aparecer gente a colocar questões e dúvidas e com quem pudesse trocar impressões. Foi um flop, a esse nível. ah! sobre o Peter Trickett, há uma que tenho atravessada: foi agraciado com uma comenda no 10 de junho, há uns anos. Prova em como Portugal continua a ser uma aldeola de parolos que ficam deslumbrados quando um estrangeiro aparece a dizer que somos os maiores, mesmo que escreva disparates.

Cristina Torrão disse...

Blog? Para trocar impressões sobre assuntos históricos? E qual é, posso saber? ;)

Paulo Pinto disse...

um blog que criei, dedicado ao livro e às temáticas ali tratadas: http://100perguntas.blogs.sapo.pt/

Cristina Torrão disse...

Obrigada, vou lá dar uma olhada!
Mas é um facto que os portugueses têm muito menos interesse em temas históricos do que o que se pensa.

Armando Alves disse...

Eu tenho o livro e estou ainda a completar a leitura do todo.
O livro foge à regra dos padrões normais, que se baseiam em documentos lá inseridos, etc...
Não há nenhuma desmérito nisso.
É facto que Portugal, bem como, todas as nações, envolvem um certo romance na História.
Mas é certo, também, que para refutar algumas teorias que diz ser descabidas, refugia-se na quantidade de historiadores que também a refutam,falta de documentos, etc.
No entanto, não desenvolve grandes teses que refutem tal argumento...
No caso da austrália (e não digo que a descobrimos) esse mapa não está escrito em português?
E no caso de colombo, que nunca se chamou assim mas Colon (vem nas bulas papais) também era um genovês tecedor de lãs ou de condição? Sabe que o tecedor de lãs nunca poderia casar com Filipa Perestrelo Moniz (que só podia casar sobre ordem régia) nem entrar numa corte europeia (a de D. João II) mesmo sendo um bom "mercador", duvido que D. João II enviasse uma carta ao mesmo "especial amigo" e concede perdão real por atentado contra realeza. Sebemos, já excepções correto? Mas só para o que quer refutar? Para o que outros querem "provar" não as há?
Além de que, fez-se um teste de ADN (pago pelo governo espanhol) às ossadas dos familiares de "colombo" (uma vez que este não possuía ossos suficientes) e das centenas de pessoas italianas que podiam provar documentalmente ser descentes de colombo, todas deram negativo....
Não estou a dizer que era português mas genovês muito menos.
Esperava mais do livro, não de histórias para inflamar o orgulho nacionalista (que desde que seja regrado, nã vejo mal algum) mas porque as refutações e os argumentos são tão simples e ténues quanto as teorias que refuta.

Paulo Pinto disse...

É muito curioso eu estar a comentar o meu livro aqui e não no blog que criei para o efeito, mas a Helena não se importará...
Deixe-me dizer duas coisas apenas: a primeira é que eu tinha 3 páginas para cada pergunta; há-de explicar-me como é que se "desenvolve grandes teses" com esse espaço. E depois, enfim, essas "teses" do mainstream historiográfico estão publicadas e disponíveis, não tenho que as repetir (em 3 pp, ainda por cima); como perceberá, quis introduzir perguntas, temáticas, olhares, refutar alguma banha da cobra que por aí anda, e pouco mais. Se alguém fizer melhor, ótimo, ficarei à espera.
A segunda é a forma enviesada como estas questões são colocadas, faz-me lembrar muito as pretensões do "criacionismo", por exemplo. Eu explico: uma das formas de falsear o debate (o livro Pseudociência do David Marçal explica isto bem) é apresentar teorias sem sustentação científica ao lado do conhecimento científico, e colocar o público perante "escolhas", como se se tratasse de um debate entre duas visões alternativas mas igualmente válidas. Na História tb é assim. Eu amanhã (quem diz eu diz Peter Trickett, Menzies ou Mascarenhas Barreto) desenterro uma história qualquer, escrevo um livro cheio de falácias e disparates, os jornalistas aparecem logo, babosos, a querer saber qual a "visão ousada, alternativa, que faz justiça aos portugueses" e pronto, está construído o tal confronto. Infelizmente, não são os vendedores da banha da cobra que têm que provar que têm razão, a esses basta-lhes alinhavar umas coisas sem rigor nem critério, desde que puxe pela imaginação; são os historiadores que são obrigados a vir a terreiro desmontar pacientemente (e vezes sem conta) os ardis e as falácias de quem leu pouco e ainda conhece menos. Respondendo à sua pergunta sobre o mapa, desculpe estar a desviar, escrevi uma recensão crítica sobre o livro, que mencionei num comentário acima. Perdoar-me-á que o remeta para lá.