14 abril 2014

três dias num ápice

Ainda só cá estamos há três dias e parece uma eternidade. Tanto que nos acontece, e tão bom, e em sucessão vertiginosa.

Temos um guia extraordinário e uma cozinheira que já me pôs a olhar para as janelas como plano b, para quando não puder mais passar pelas portas.

Já estivemos a fazer planos mirabolantes de cenas filmadas com helicóptero, e parece que vai ser fácil. Aliás: neste país tudo parece fácil, possível, acessível. As pessoas tratam-nos com enorme amabilidade, as portas abrem-se escancaradas.

No Domingo fomos à Santa Sé em Etchmiadzin para a benção dos ramos. No fim da celebração a praça em frente à catedral encheu-se de uma alegria contagiante. Fizemos fotografias com polícias, no meio de muita gargalhada. Uma senhora deu-me um ramo benzido pelo Catholicos - e deixou-me comovida e grata. Fotografámos as crianças. Os próprios pais pediam para tirarmos o retrato aos filhos (tão bom estar num mundo onde não impera o fantasma da pedofilia!) e os miúdos vinham ter comigo a rir como quem diz "só mais uma".

À tarde estivemos na casa do compositor Tigran Mansurian. Pusemos-lhe a sala em pantanas, mudámos coisas de sítio (a chávena oferecida pela filha, a jarra oferecida pela Kim Kashkashian - avisava ele com um sorriso doce). Comentei com a sua assistente "ele tem tanta paciência" e ela respondeu que nós estávamos a ter imensa sorte. Sem dúvida! Até tocou para nós (com a luz assim e depois a câmara assado, e a chávena da filha mais para a esquerda e a jarra da Kim Kashkashian fora do cenário) a peça que está agora a compor. Depois convidou-nos para tomar chá com ele, mas tínhamos de sair rapidamente, porque queríamos filmar numa igreja o início da Semana Santa, quando abrem a cortina do templo.

Hoje voltámos a Etchmiadzin para fazer imagens do tesouro da catedral. A lança que trespassou Cristo (uma das quatro, mas esta será com certeza a original) e várias relíquias da cruz e dos santos. Um bom bocado da arca de Noé - ao qual falta um canto, que foi oferecido à Rússia (que terrível depêndencia obrigará um povo a mutilar tal herança para fazer um presente?). Também entrevistámos um bispo na área reservada da Santa Sé, enquanto na sala ao lado o Catholicos recebia o novo chefe do governo arménio. À saída parei um pouco nos khashkar belíssimos dos séculos XII e XIII. Por mim ficava ali o dia todo, mas estava um dia bom para filmar a cidade. E à noite aconteceu um pequeno milagre: demos connosco numa sala pequena e cheia de fumo e filosofia a combinar com alguns dos mais famosos músicos arménios eles darem um concerto extra para nós os podermos filmar.

E não: não é que os arménios sejam uns parolos todos deslumbrados por lhes estarem a fazer um filme. Há algo no nosso projecto que os cativa e entusiasma. O Ricardo diz que é o Espírito Santo no seu nome. Quem sabe...

Em todo o caso, é uma responsabilidade para nós.

Amanhã bem cedo partimos para Kharabakh. Depois, quando tiver mais tempo, deixarei aqui algumas fotografias.












3 comentários:

Ant.º das Neves Castanho disse...



Ena! Boas viagens e... BOA PÁSCOA!


PS: O nosso "Nagorno" este ano vai ser, como sempre, no Alto Alentejo...

Paulo disse...

É mas é tu e o Ricardo a iluminarem-se um ao outro e a contagiarem quem vos aparece à frente.

Helena disse...

Não subestimes os arménios, Paulo... ;)