07 maio 2013

a corrupção do sul


UM PONTO É TUDO

Está-nos no sangue, a corrupção

por FERREIRA FERNANDESHoje


Primo, mulher ou filho, a relação familiar pode variar, mas a etimologia de nepotismo é como a prova do algodão: a origem da palavra é "nipote", que em italiano quer dizer sobrinho. O nepotismo é de país do Sul, evidentemente. Cola-se-nos aos costumes, a todos PIGS - tugas, macarronis, coños e outros comedores de iogurte com pepino picado -, gente mediterrânica que começa a corrupção logo lá em casa. Sabem como termina a Carta de Pêro Vaz de Caminha ao Rei, depois do achamento do Brasil? A pedir um favor para o genro! E depois não queremos os alemães a dar-nos lições... Agora, mais uma região europeia do Sul, palco de nepotismo. Há 15 dias, o líder parlamentar de um partido do Governo demitiu-se do cargo, depois de se saber que empregava a mulher como sua secretária há 23 anos, com salário mensal de 5500 euros pago pelo Parlamento. Na semana passada, o presidente da comissão parlamentar de Finanças, do mesmo partido, também se demitiu: tinha há dez anos como assalariados, pagos pelo Parlamento, a mulher e os dois filhos. Estes, quando começaram a mamar dos dinheiros públicos, tinham 13 e 14 anos. Apesar de se terem demitido dos cargos de direção, os dois políticos continuam deputados. No Sul pode haver muito défice, mas não de falta de vergonha. Ah, já me esquecia, a região europeia de que falo é a Baviera, no Sul da Alemanha. E os deputados, Georg Schmid e Georg Winter, são da CSU, da coligação de Angela Merkel.

(aqui)



É revoltante.
Ferreira Fernandes fala do que não sabe para fazer uma gracinha que os papalvos portugueses paparão com gosto, mas só aumenta o fosso de desentendimento entre os dois países.
Já lá vou aos factos. Antes disso, dois apontamentos:

- É triste ver alguém a passar para a escala Portugal/Alemanha o mesmo jogo de autojustificação que em Portugal se faz e mina o país: "eles lá em cima são todos uns corruptos", diz a pessoa lá em baixo, e assim se justifica para ir roubando o Estado à medida das suas possibilidades, porque ela própria decidiu que essa é a ordem natural das coisas. Não estou a dizer que o Ferreira Fernandes rouba, estou a dizer que este jogo do "eles lá em cima não têm nada que nos dar lições sobre corrupção porque fazem o mesmo" é muito perigoso.

- A que propósito vem a referência à Angela Merkel na última frase? A chanceler pouco pode fazer no caso de Georg Schmid e Georg Winter - há muito que a Alemanha rejeita políticos à maneira do santinho de Santa Comba Dão.


Se o Ferreira Fernandes resistisse ao impulso de fazer gracinhas com o que não sabe, e se informasse melhor, em vez de aproveitar a própria ignorância neste assunto para escrever alarvidades que alimentam o ressentimento, veria que a grande diferença entre um sul e o outro é que no sul alemão:

- O escândalo começou com um livro ("Como os políticos bávaros saqueiam o Estado") que saiu em meados de Abril (deste ano). Na mesma semana o Parlamento publicou uma lista de deputados que empregavam cônjuges, filhos, pais ou irmãos (17 em 187). No dia seguinte, 20 de Abril, lê-se num jornal que não há nada de ilegal nesse procedimento (a proibição de contratos com familiares de primeiro grau só vigora em contratos a partir de 2000) mas Seehofer - aparentemente apanhado de surpresa - imediatamente aconselhou todos a despedirem o mais depressa possível os familiares que estiverem nesta situação.

- Se há palavra de ordem que se repete de momento na comunicação social, a propósito deste escândalo, é "exige-se transparência". É dita pelos políticos com os cargos mais altos, Seehofer à frente.

- Duas semanas depois de se ter descoberto o escândalo já é bastante provável que a carreira política dos dois deputados mencionados por Ferreira Fernandes tenha acabado.
O caso Georg Schmid: o Merkur-Online informava em notícia de 29.04 que é muito provável que Georg Schmid perca o seu mandato, porque apesar de ter pedido desculpa a pressão do seu círculo eleitoral é muito grande. A 1 de Maio já se noticiava que ele não se recandidatará a um lugar no Parlamento. Além disso, o Ministério Público pediu que lhe seja levantada a imunidade parlamentar, porque parece que cometeu ilegalidades no contrato de trabalho da sua mulher. Provavelmente nos próximos dias deixará de ser deputado.
O caso Georg Winter: no seu site como deputado da Baviera esclarece que tem um parecer jurídico afirmando que não houve nada de ilegal nos minijobs dos seus filhos adolescentes; que o Parlamento tem outra opinião, pelo que a questão ainda está em aberto; que já devolveu todo o dinheiro pago aos seus filhos; e pede desculpa pela falta de sensibilidade com que agiu. Ontem, o Süddeutsche Zeitung noticiava que está a ser investigada a ilegalidade do emprego de menores naquele tipo de trabalho, e que aumenta a pressão para que ele deixe o lugar de deputado. Se bem conheço a Alemanha, até ao fim desta semana já terá saído.

- A presidente do Parlamento Bávaro está a pressionar para que a questão do emprego de familiares seja esclarecida o mais depressa possível, e que as leis sejam mudadas imediatamente para não haver qualquer possibilidade de se repetir casos destes. Também quer que ainda antes do fim da legislatura se mudem as regras desse Parlamento regional, para que passe a haver mais transparência na realização dos contratos, à semelhança do que acontece no Parlamento Federal. Faço aqui um desenho para o Ferreira Fernandes: a presidente desse Parlamento do Sul da Alemanha quer copiar o que a Alemanha Federal já faz, e quer fazê-lo quanto antes.

- O Parlamento está a fazer um levantamento exaustivo de todos os contratos de trabalho desde 2000 - altura em que se proibiu a contratação de familiares próximos.

- Já está a ser preparada uma lei que proíbe a contratação de irmãos dos políticos (para cônjuges e filhos já é proibido nos contratos celebrados depois de 2000).

- Os políticos já assumiram os erros cometidos e pediram desculpa publicamente; o livro falava dos políticos da CSU, mas os outros partidos também estão a passar a situação dos seus deputados a pente fino; uma política dos Verdes, envolvida num caso semelhante, já veio reconhecer em público que foi um erro, e que nem tudo o que é permitido legalmente é correcto do ponto de vista político.

É este o ponto da situação. Lembro que o escândalo rebentou há menos de três semanas, que de um modo geral não se trata de uma ilegalidade mas de um comportamento que levanta suspeitas de nepotismo, e que o Ministério Público já anda no encalço dos deputados que cometeram ilegalidades.

Perante estes factos, o Ferreira Fernandes quer concluir que afinal os bávaros são tão corruptos como os portugueses. E que era o que faltava a Alemanha pensar que podia dar lições a Portugal. Por acaso nesse ponto tem razão: um povo que gosta de papar crónicas como estas não recebe lições de ninguém, prefere persistir nos mesmos erros, e errar cada vez melhor.

***

Finalmente: as pessoas saberão o que andam a fazer? Alguém já pensou como é que os alemães reagiriam se este artigo fosse traduzido e publicado na Alemanha?
Nem estou a falar de ser necessário construir e manter as pontes entre os países, estou a falar de um fenómeno tão simples como este: o destino turístico "Portugal" é apenas uma página nos catálogos de férias alemães. Filmes como o do Marcelo Rebelo de Sousa e textos como este do Ferreira Fernandes fazem com que os alemães sintam que não são bem-vindos no nosso país. Vira a página, marca férias na Turquia, na Hungria, na Croácia.
(Ai, a liberdade de expressão, e tal. Pois. Neste caso convinha usá-la combinada com informações sólidas - em vez de abusar dela para atirar óleo para o fogo. Porque se é para nos queimarmos, que seja pela verdade.)

28 comentários:

Pedro disse...

A comparação só seria válida se efectivamente continuassem a exercer tais cargos (corruptos e corrompidos), estamos completamente de acordo.

Mas pergunto se o teu argumento relativamente às férias dos alemães no nosso país não derrapa também na esmolinha para os parentes pobres. E a situação em que o país está (e toda a Europa, que isto não é só um problema dos países deficitários e na banca-rota) não me parece que vá lá só com a esmolinha

Helena disse...

Pensei nesse risco, Pedro. Não era minha intenção fazer disto uma "esmolinha", e muito menos sugerir que temos de engolir em silêncio porque "dependemos deles".

Fazer férias não é dar esmolas, é adquirir um serviço. A escolha do destino de férias é um acto de liberdade, que tem importantes consequências económicas para determinados países.

O discurso anti-alemão que se faz em Portugal é muito grave. Por sorte, ainda não começou a constar muito por aqui. Ainda.
Tenho visto como os alemães começaram a evitar os países em crise como destino das suas férias, porque têm mais que fazer do que usar as férias para se irem meter na boca do lobo. Os hotéis gregos já sofreram imenso com isso, e é provável que os espanhóis comecem a sofrer também.

Quanto à situação em que estamos todos: precisamos de nos unir e de recuperar a confiança mútua. Não se chega lá com estas tentativas de iludir as evidências (a corrupção na Baviera não tem, definitivamente, a mesma dimensão da portuguesa) e muito menos com insultos aos outros povos ("nazis de pai e mãe", you name it).

Pedro disse...

Claramente, quanto à corrupção estamos falados. Não só a diferença das dimensões. É que aí as coisas resolvem-se. Com justiça (entenda-se, tendo em vista o bem comum). Ao contrário de cá.
E completamente de acordo que o turismo poderá ser uma das nossas principais bóias de salvação. Mas para um crescimento sustentável, não para uma crise destas dimensões.

Obviamente não sou apologista do dizer mal dos alemães, como se fossem culpados da crise - nem são eles, nem a troika.

Izzie disse...

Em Portugal há tanto discurso anti-alemão, como na Alemanha também há tanto discurso anti-Portugal.
Sim, se na Alemanha têm liberdade de expressão para dizer o que lhes bem apetece, por cá também o podem fazer. E deixar de dizer por medo de irritar os credores, e que deixem de vir cá fazer turismo... isso seria enveredar por uma mentalidade pobrezinha, de respeitinho, muito dos tempos da outra senhora a que felizmente já dissemos adeus. Afinal, eu também não sou a fã nº1 da Alemanha, e até tenho um carro alemão. E até me ofereço para explicar aos turistas alemães que, por cá, um protector factor 10 é o mesmo que nada.

Helena disse...

Pedro,
sim: o turismo é um sector importante, mas Portugal precisa de mais que isso.
E sei muito bem que tu não és dos que embarcam nesse jogo fácil de arranjar um bode expiatório.
Mas discordo de ti um pouco: a Angela Merkel e a troika têm culpas nesta crise, porque as exigências que fazem são impossíveis de atingir.
É verdade que Portugal não precisou da ajuda de ninguém para caminhar para esta situação (e irrita-me que se deite as culpas para os outros, porque isso significa que não teremos de mudar nada em nós). Mas o modo de o ajudar a sair dela é que está muito errado.

Helena disse...

Izzie,
desculpa, mas isso é mentira. Na Alemanha não há um discurso anti-Portugal. Ponto.
Em compensação, o discurso anti-alemão que se faz em Portugal é execrável e imbecil.

Também não é verdade que na Alemanha tenham liberdade para dizer o que lhes apetece. Há um controle apertadíssimo do que os políticos dizem, e por menos de uma frase podem ir para a rua, de um dia para outro. O Sarrazin, por exemplo, tornou-se objecto do opróbrio nacional por causa do que andou a dizer sobre os turcos - perdeu o cargo importante que tinha no Banco, e o partido socialista queria expulsá-lo do partido (não sei se expulsou ou não). Outro deputado foi para a rua porque escreveu no seu site algo como "ninguém fala do papel dos judeus durante a revolução bolchevique".

Estás a cair no mesmo erro que o Ferreira Fernandes: "ai, mas na Alemanha fazem o mesmo que em Portugal". Não fazem. Fazem outros erros, mas por acaso esses não fazem.

Bem me queria parecer que aquela história do turismo podia ser mal entendida. Não foi isso que quis dizer. Penso que qualquer povo tem o direito de falar dos factos e criticar com seriedade, e que de modo algum deve deixar de o fazer por medo de sofrer represálias económicas.

Mas o que aqui se passa é outra coisa, e vou simplificar: os governos portugueses andam a fazer merda em cima de merda há mais de vinte anos, mas de repente a culpa é toda da puta nazi. Quando o país estava à beira do colapso, a Europa foi obrigada a ajudar. Como a Merkel exige que se façam reformas em troca da ajuda financeira (ou seja: não aceita pôr os impostos dos contribuintes alemães incondicionalmente ao serviço da manutenação do status quo em países cujos governos no passado deram provas de incompetência, e que não têm propriamente um plano de fundo para resolver o problema estrutural, que é este: como é que as economias gregas, portuguesa, etc. conseguem ser competitivas no quadro da globalização?), os portugueses dizem que ela é uma puta nazi e que os alemães, já se sabe, nunca hão-de deixar de ser nazis, afinal de contas corre-lhes no sangue.
(Simplifiquei.)

Helena disse...

Acrescento um comentário que trouxe do facebook:
"Eu nunca li na imprensa alemã nenhuma tirada de comentaristas contra Portugal. Diariamente leio três a quatro jornais alemães. Pelo contrario tenho encontrado com muita frequência colunistas a criticar a política de austeridade de Merkel e a mostrar empatia com Portugal."

Júlio de Matos disse...



Tanta sanha contra o Ferreira Fernandes, mas afinal é tudo tiros na água: NADA do que ele diz foi desmentido!

Mais racionalidade e menos emotividade precisa-se.

Helena disse...

Ó Júlio de Matos, por favor!
Ele diz que a corrupção na Baviera é igual à corrupção em Portugal, e que aqueles dois corruptos continuam deputados.
Eu mostro, com recurso a artigos de jornal anteriores à data desta crónica, que há uma diferença enorme entre o modo como se trata a corrupção; que, mesmo ainda não estando provado que o que eles fizeram era ilegal, a carreira política deles tem os dias contados e a Justiça já está a tratar do caso.
Ele contou meias-verdades para poder dizer que em termos de corrupção os bávaros não são melhores que os portugueses. Eu acho isto muito grave.

Júlio de Matos disse...



Ele não diz coisíssima nenhuma, Helena, apenas satiriza uma certa ideia preconcebida e errada, sem incorrer aliás em nenhum erro factual: tu própria confirmas que as pressões para deixarem de ser Deputados estão a aumentar! O que é que se passa contigo?

NINGUÉM em Portugal vai concluír que a corrupção na Baviera é igual à de Portugal, que disparate! Os portugueses não são todos uns papalvos, como tu insinuas!

É preciso e urgente desmontar todos estes mitos comunicacionais absurdos e o Ferreira Fernandes é mestre nisso, com subtileza e humor!

A tua reacção descontrolada e desproporcionada a este texto é incompreensível, desculpa lá.

E se tu achas "muito grave" (!!!) o Artigo do Ferreira Fernandes, como é que classificas os actos concretos de que os tais Deputados se tiveram que penitenciar??!

jj.amarante disse...

Eu na Alemanha ultimamente quem me aborrece mais é o Schaüble, com a sua estratégia de "manter o rumo" parece que aconteça o que acontecer. Mas tenho a sensação que por exemplo o nosso presidente Cavaco Silva se tivesse comprado umas acções do BPN pelo valor estipulado pelo Oliveira Costa a quem revendeu as mesmas acções pelo dobro, numa valorização também feita pelo mesmo Oliveira Costa e face à falência do banco ele já teria sofrido pressões irresistíveis para se demitir se desempenhasse uma cargo de relevo na Alemanha. Ou será que estou enganado?

Helena disse...

Qual é a ideia "preconcebida e errada" que ele satiriza?

Sobre esse NINGUEM, sugiro que vás ler os comentários a essa crónica. Há de tudo, inclusivamente vários ninguéns.

Penso que em momento algum do meu post sugeri sequer que os actos concretos dos tais deputados não teriam gravidade.

Izzie disse...

Eu não acho, nem conheço ninguém que ache, que a culpa da crise é da "puta nazi". Entre aspas propositadamente, que nunca lhe chamei isso. Não gosto da postura da Merkel pró-austeridade, como também a critico ao Conselho Europeu. Mas que já li muita coisa sobre o desgoverno dos países do sul, os PIIGS para aqui e para ali, já li, caramba. Até aqui já vi insinuado muitas vezes que somos sustentados pelos sacrifícios dos alemães e andamos a querer viver bem à custa dos europeus ricos!
Bom, ao que julgava saber, isto é uma União Europeia, de cariz federalista-monetário. Embora o federalismo não esteja ainda alargado à política, a verdade é que se optou pelo caminho federalista. E numa federação económico-financeira não pode haver pobres e ricos, estamos todos sob a bandeira do euro. Há contribuições proporcionais que são distribuídas com vista ao desenvolvimento. E nisto a Europa falhou-nos, nós falhámo-nos, enfim, está um novelo embaraçado de todo.
Eu tinha orgulho de ser europeia, muito. Mas isto já parece um casamento, e é quando as coisas correm mal que se vê a força da relação. E caramba, a sátira do FF pode ser atacada se se apoia em dados errados, mas daí a extrair mais... É que não me parece que os alemães precisem de muitos "inimigos" a dar cabo da sua imagem, nestes últimos tempos têm tratado bem disso sozinhos.
Quanto ao turismo, pois que vão para a Turquia, mas não bebam água da torneira nem legumes frescos. Aqui, no dealbar da década de 80 ainda arriscavam uns e-coli, uma cólera; mas graças à Europa já somos mais adiante que isso. Se não querem aproveitar, domage, que está a começar a época da sardinha e tudo.

Helena disse...

jj. amarante,

o Schaüble parece-me uma pessoa irascível e amarga, muito pouco cuidadosa no que diz. Também me irrito muito com o seu ar de quem sabe mais que os outros, e sobretudo com a sua insensibilidade.

Já não sei por que ordem é que estas coisas aconteceram, mas ele teria ido para a rua na própria semana em que se começou a falar de:
- caso da permuta da casa de férias
- chamar "dia da raça" ao 10 de Junho (bom, esta punha-o na rua no próprio dia, nem aguentava uma semana)
- BPN
- como é que foi mesmo o caso das escutas de Belém?
(e ficamos por aqui)

Júlio de Matos disse...


É mais do que óbvio: a ideia de que os europeus do Sul são corruptos por natureza. Também concordas com ela? Espero bem que não.

Não leio comentários de jornais, nunca. Nem vou começar a ler agora, obrigado... São todos feitos por "ninguéns" (somos peritos mundiais nessa triste actividade - ou nunca leste comentários sobre o Sócrates?) e não representam coisíssima nenhuma (deve haver milhões destes "ninguéns" embrutecidos e manipulados em todos os Países do Mundo, excepto talvez Nauru - e o Vaticano...).

Ao afirmares que o Artigo do Ferreira Fernandes é "muito grave", desvirtuas de tal modo o conceito, que precisas de pelo menos sugerir um qualificativo proporcional para os actos concretos dos tais Deputados...

Helena disse...

Izzie,
"puta nazi" era mais uma simplificação. Geralmente ficam-se por "besta" e "nazi".
;-)

OK, acredito que eu esteja a ver as coisas de forma enviezada, e em Portugal não se diga que a culpa é da Merkel (e não do Cavaco, do Sócrates, e do Passos Coelho)

O que ouço aqui não são insinuações, mas afirmações: é impossível manter um país a funcionar à custa do endividamento crescente do Estado; os países em crise têm de fazer reformas; os pacotes de apoio não podem destinar-se a manter o status quo; se as coisas correrem mal, esses montantes vão ser pagos pelos contribuintes dos países que deram o dinheiro.

O tempo das contribuições começou com a adesão à CEE. Os fundos chegaram, mas se calhar não foram aplicados como deviam. E sim, falhámo-nos todos.

Penso que a Europa é um projecto do tempo das vacas gordas. Em tempo de crise fica claro que as coisas não podem funcionar. Espero que esta crise permita ao menos decidir com mais clareza como queremos avançar. Seja em que direcção for.

Helena disse...

Júlio de Matos,
os povos do sul, com variações de país para país, não são corruptos por natureza mas por prática mais que evidenciada nas estatísticas.

Mas está bem: para satirizar a ideia de que os povos do sul são corruptos por natureza, o FF conta meias-verdades sobre um povo do sul da Alemanha, e adianta que a Alemanha não tem lições de moral a dar a ninguém. Percebi inteiramente.

Izzie disse...

Do Cavaco, do Sócrates, do Passos Coelho, do Guterres, do Barroso. Ter memória é uma coisa lixada, ainda mais quando ouvimos quem não a tenha. Isto de ser português é um fado, muito triste e lamentado, principalmente para quem não se identifica com certas formas de estar e gerir a "cousa" pública. A verdade é a vivenda mariani já lá vai, eles todos cada vez mais ricos, e nós, ó nós.

Helena disse...

Pois, esqueci-me de metade deles. Foi a pressão: estava a escrever a toda a pressa, porque o meu filho precisava de desligar a internet! :)

Era de corrupção que estávamos a falar? Por muito menos que uma vivenda mariani (OK, menos que uma vivenda mariani, mas acompanhado por tentativa de intimidar um jornalista), o presidente alemão foi para a rua. O pessoal começou a ir todos os dias brandir sapatos para a frente do palácio dele.

Júlio de Matos disse...

Helena,

se queres ver estas coisas de um ponto de vista futebolístico, podes até levar já a bola para casa...

Não insistas nas meias-verdades (ainda não nos disseste quais), nem nas lições de moral.

Tu leste o Ferreira Fernandes de uma forma muito parcial e redutora, em minha opinião. Eu quando o li apenas sorri, pela ironia, mas nunca me passou pela cabeça, a mim e a mais ninguém com o seu perfeito juízo, penso eu, mudar de ideias sobre a Alemanha e os alemães por causa dos "factos" evidenciados no Artigo.

O que o Artigo me diz, é a minha interpretação pessoal, que os problemas económicos e políticos nunca podem ser vistos de uma forma moralista, como tem sido propalado "ad nauseam" pela narrativa oficial desta crise!

O que o Artigo evidencia é que a corrupção é um fenómeno eminentemente pessoal, embora possa ter cambiantes sociológicas e culturais, mas que é um erro julgar um País e um Povo por um fenómeno de cariz eminentemente pessoal! É um erro em que incorre o Mundo inteiro que vê a CNN e lê pasquins, dé S. Francisco a Moscovo, e tu indignas-te e achas repugnante é o Ferreira Fernandes???

Bom, nesse caso sugiro-te que atentes no estilo de comentários que a toda a hora se ouvem na rua, em Portugal, nas lojas, nos empregos, etc., sobre as qualidades morais de angolanos, brasileiros e cabo-verdianos, só para começo de conversa (não esquecendo nunca os alentejanos...).

Helena disse...

Meias-verdades: contou metade da história. Nem metade - não chegou a um quarto da história. Omitiu que ter pessoas da família empregadas era permitido por lei (contratos realizados antes de 2000) e que este escândalo, que rebentou há 3 semanas, teve consequências imediatas e muito importantes (as que eu me dei ao trabalho de descrever, com links para as notícias e tudo). Só que se explicasse tudo isso não podia fazer a piadinha:
" E depois não queremos os alemães a dar-nos lições... "
"No Sul pode haver muito défice, mas não de falta de vergonha." (esta afirmação, à luz do que se tem passado aqui nas últimas semanas, é de gritos)
"E os deputados, Georg Schmid e Georg Winter, são da CSU, da coligação de Angela Merkel."

Não vale a pena continuar a falar sobre as nossas diferentes interpretações do texto do FF - cada um ficará com a sua. Há um dizer alemão "prefere perder um amigo a perder uma anedota". Penso que o FF, nesta crónica, preferiu perder a verdade a perder a anedota. É pena.

Quanto à corrupção: nem é uma questão de dar lições de moral, nem é uma questão de julgar povos e países. Bastam os factos: a corrupção asfixia os países. Quanto mais corruptos, mais asfixiados.

Ferreira Fernandes diz que a Alemanha não tem de dar lições a Portugal. Eu penso que era muito boa ideia Portugal olhar para o modo como a Baviera reagiu a este escândalo, e tirar algumas conclusões. Vai lá ver na minha lista o que aconteceu no espaço de três semanas, e compara com o que acontece em Portugal.

Júlio de Matos disse...


Helena,

continuamos desfocados, porque simplesmente não estás a ser racional.

Não vou insistir mais, mas é bom que fique aqui claro que o Ferreira Fernandes, ao contrário do que afirmas, não disse nenhuma meia-verdade - tudo o que ele diz é COMPLETAMENTE verdade! -, nem disse que a Alemanha não tem de dar lições de moral a Portugal.


E mais uma vez repito que não estou mínimamente a discutir o fenómeno da corrupção na Alemanha e em Portugal, mas sim o modo desproporcionado e injustificável como, a meu ver, te atiraste ao Ferreira Fernandes.


Noutra altura, se quiseres, podemos então discutir a Baviera, a Merkel e outras coisas mais, mas nem vale a pena, porque aí, se calhar, vamos estar de acordo em tudo...

Gi disse...

Dilema: ficar calada ou levar no toutiço?
Ok, vou falar.
Eu acho que faz parte de qualquer coisa que não sei se é a natureza humana se é a cultura dos povos do sul preferir os amigos aos meramente conhecidos e aos desconhecidos. Acho natural que para um empregador, perante capacidades semelhantes, seja mais agradável empregar o amigo do que o desconhecido com que até pode vir a dar-se mal.
Acho um corolário disto que se alguém empregue na sua empresa um familiar que seja capaz de cumprir as funções que é preciso preencher.
O que acontece é que algumas pessoas têm dificuldade em perceber, por um lado que as instituições não lhes pertencem, e por outro lado que mesmo não sendo Césares é importante estarem acima de todas as suspeitas.
Ainda por cima, o que é legal nem sempre é aceitável, e por vezes o que é legal deixa de o ser, e por isso é que o Relvas tem a consciência tranquila, e esses dois deputados devem ter ficado muito confusos (sem querer igualar casos nem consciências nem branquear nada).
Só mais uma coisa: acho que nepotismo e corrupção não são a mesma coisa, mas talvez seja por eu ser do sul.

Helena disse...

Ai, Gi, que vais levar no toutiço!
;-)

Dando-te razão: o casal Curie não trabalhava em conjunto? Teria sido inteligente separá-los, só para não levantar suspeitas? E se o Miguel Portas ainda fosse vivo, e se fosse apartidário, e se o Paulo Portas o convidasse para o seu gabinete: o país ganhava ou perdia?

Percebo perfeitamente as desconfianças e as regras que à partida impedem as pessoas de empregar familiares nos seus próprios serviços públicos. Mas penso que em alguns casos se podem cometer erros pelo inverso: deixar de fora de um serviço alguém de competência reconhecida, apenas porque é familiar (até ao 3º grau!) do tal deputado.

Estas coisas são também fruto de evolução e amadurecimento, como dizes. O que em 1999 era aceite, na Baviera, em 2013 é muito criticado.

Estas coisas servem para a sociedade olhar para si e fazer os reajustamentos necessários. Vamos indo, vamos vendo, vamos-nos reinventando.

O que me agradou muito neste episódio foi a rapidez e a transparência com que reagiram e mudaram as regras do jogo.
Por isso me chateia tanto a insinuação do Ferreira Fernandes de que tudo fica na mesma ("continuam deputados").

Júlio de Matos disse...

«Apesar de se terem demitido dos cargos de direção, os dois políticos continuam deputados.»

(F. Fernandes)

«Ontem, o Süddeutsche Zeitung noticiava (...) que aumenta a pressão para que ele deixe o lugar de deputado. Se bem conheço a Alemanha, até ao fim desta semana já terá saído.»

(Helena Araújo)


Independentemente de ser quase fim-de-semana, é caso para perguntar: os homens ainda são ambos Deputados?

Helena disse...

Ainda são deputados, sim.

E agora diz-me tu: à luz dos factos, e não do que o Ferreira Fernandes quis ver (a mulher não tinha um salário de 5.500 euros - teve meses em que chegou a ganhar isso / os miúdos não "mamavam dos dinheiros públicos" - tinham um contrato perfeitamente legal de minijob para fazerem a gestão do site / à data a que os contratos foram feitos, eram legais e eram prática corrente naquele parlamento) porque é que deviam deixar de ser deputados? Porque é que é sinal de falta de vergonha continuarem a ser deputados?

Júlio de Matos disse...

Repito só o "link" do comentário que se perdeu (?):

http://www.youtube.com/watch?v=InQZRp5NFks&feature=player_embedded

Júlio de Matos disse...


Helena,

respondi-te no tal comentário que se perdeu e onde, no essencial, dizia que não sou eu que tenho de dizer por que razão eles devem ser demitidos, mas sim quem fez as tais pressões enormes para eles se demitirem!

Eu não tenho opinião formada sobre esse assunto, sobre o qual nem sequer me considero lá muito bem informado (apesar dos teus louváveis esforços...), nem alguém ma iria pedir, se a tivesse! Já bem me basta a mim ter opinião sobre a Autonomia da Madeira...

E rematei dizendo que outras coisas me preocupam muitíssimo mais, atualmente, aqui em Portugal (e juntei o dito "link").

Acho que, no fim, ainda te desejei um "bom fim-de-semana aí na Civilização!" (sem ironia...).