08 abril 2013

29.3.2013 - Pampa boliviana


Ontem, sentados no terraço sobre ao rio, foi difícil deixar a conversa e a lua cheia, enorme e intensa rente à selva, para ir dormir. Hoje acordaram-nos às cinco e meia da madrugada. Pouco depois estávamos no barco, em suave deslizar com a corrente, e sobre nós a lua muito redonda, agora mais alta e pálida.
Os olhos habituavam-se à penumbra, começavam a distinguir os vultos: uma garça aqui, ali uma ave-do-paraíso a bufar com desespero. Seguíamos com os meandros do rio em direcção ao nascer do sol, atentos aos ruídos do fim da noite. O guia anunciou "concerto de macacos!" - uma algazarra infernal nas árvores frondosas.
Estava uma manhã clara, propícia ao espectáculo deste imenso azul tingido de laranja.
A Anna-Lia, a argentina do nosso grupo, foi para a frente do barco fazer as suas fotografias. Parecia o pessoal em Delicate Arch que se põe sob o arco no momento em que a luz está perfeita, e estraga as fotografias de centenas de pessoas... (mas esta, que a Christina fez, até ficou especialmente bonita com a Anna-Lia lá dentro)
Voltámos ao acampamento. No caminho, vimos alguns macacos em acrobacias de ramos e lianas. Caimões, só o nosso Pedro, a mascote da cozinha. Estava no seu lugar habitual, sob o passadiço junto à sala de jantar. O Olivier disse "dá a patinha, Pedro". Rimos todos - mas nenhum de nós se atreve a pôr um pé no toco de árvore uns vinte centímetros acima da água, mesmo junto à cabeçorra do bicho.
Agora estamos à espera do pequeno-almoço: bolinhos fritos, ovos mexidos, empanadas de queijo ainda quentes, torradas, salada de frutas tropicais.
Escrevo sentada no pavilhão em cima do rio. O sol avança sobre as árvores, aquece o dia. Os sons dos pássaros misturam-se ao vozear das mulheres na cozinha. Um dos guias está a assobiar alegremente, outro imita os ruídos dos animais. Será para chamar os caimões? Não precisa de chamar muito: estão aqui sob o meu chão, entre os milhentos nenúfares brancos.








7 comentários:

jj.amarante disse...

A foto no.4 fez-me lembrar uns versos duma canção do Adamo (um belga dos anos 60, anterior aos Beatles...)
...
J'aime le calme crépuscule
Quand il s'installe à pas de loup
Mais j'aime a espérer crédule
Qu'il s'embraserait pour nous
...
Nesse caso era um alvorada, mas são imagens simétricas. Parabéns pelas fotos e boa estadia!

Helena disse...

Já regressei a Berlim, jj. amarante.
Mas foi uma belíssima estadia. Os três dias na selva e na Pampa, esses, foram para lá de mágicos.
(e nem sei o que direi sobre Machu Picchu...)

Os pôres-do-sol, curiosamente, eram simplesmente doces, sem este esplendor laranja que vimos na madrugada.

Paulo disse...

Estava a ver que não vinhas. Agora vou ver os actos anteriores da reportagem.

(Da parte dos caimões não sei se gosto...)

Rita Freitas disse...

Tão bonito!

BJS

Gi disse...

Um caimão chamado Pedro! Extrordinário.
Ainda assim, eu dispensava a patinha. Uma vez segurei num crocodilo com 3 anos, pequenino, pr'aí com um metro de comprimento (tenho uma foto a comprová-lo) e o bicho tinha uma força que não te conto!

Helena disse...

Os meus filhos fizeram fotografias a fazer de conta que eram o rambo com um que tinha dois anos. Pouco mais de meio metro, mas já metia medo.
O Pedro, a primeira vez que o vi, pensei que era de plástico. Depois vi dois, um deles a mexer-se, e achei que era o brincalhão do nosso guia com telecomandos...
Custou-me um pouco a realizar que estava realmente a viver 50 cm acima de caimões enormes.
Mas depois lembrei-me que vivo entre carros, e estes não são menos letais. É mesmo só uma questão de aprender a conviver com os perigos.

Inês Veiga disse...

Bem-vinda de volta! Fico contente por poder ler as tuas crónicas outra vez!

Estive na Amazónia Brasileira há alguns anos e as tuas fotos trouxeram-me óptimas lembranças!!

Fico à espera dos próximos capítulos!