Parece mentira. Há algo de completamente irreal no azul profundo do lago Titcaca, o verde das suas margens, o azulíssimo céu aqui tão perto.
Estamos no Andean Explorer, em carruagens com rosas verdadeiras na mesas e casas de banho espaçosas e muito limpas, em madeira e mármore.
(Puno)
Põem-nos a mesa com requinte, servem-nos um almoço excelente. Pela janela passam casebres e pastores pobres, e ocorre-me que seria assim que a família real atravessaria a miséria do país: transportada com luxo. Sinto vergonha.
Atravessamos o altiplano, passamos junto a barcos de junco abandonados na orla do lago e por entre cabanas de adobe, vemos rebanhos de lamas, bezerros a correr alegremente sobre as ervas,
cholitas a fiar lã no centro da paisagem.
O comboio passa pelo centro de uma cidade, percorre a rua principal, com as suas tendas onde se encontra de tudo - desde livros a pregos, passando pelas inevitáveis folhas de coca, os legumes, a roupa usada que vem nos contentores dos EUA e da Europa. Os vendedores recolhem as suas mercadorias para mais perto da tenda, os compradores param para nos ver passar. Uma mulher tapa a cabeça com o avental - deve estar farta dos turistas e das suas máquinas fotográficas que tudo devassam. As crianças acenam, nós acenamos também.
No ponto mais alto da travessia, aí pelos 4300 m, o comboio pára junto a uma capelinha muito naïf e uma feira de produtos artesanais com vendedores muito pró-activos. Têm gorros lindíssimos tricotados à mão, mas são de tal modo insistentes que nem me apetece olhar para a mercadoria.
Uma velhinha, com os dentes verdes de coca, oferece-se para ser fotografada no seu traje regional. Outra exibe-se com uma alpaca. Querem dinheiro para a fotografia. Não tenho dinheiro comigo, não fotografo. Mas devia ter algumas moedas, sempre. Aquelas pessoas vivem disso: de meia dúzia de turistas que, duas vezes por dia, saem de um comboio de luxo e lhes pagam para as fotografar. É um trabalho.
Surpreende-me a quantidade de árvores, arbustos e até flores que encontramos a 4.000 m de altitude.
Começa a descida para Cusco, ao longo de montanhas cobertas de neve, e a diversidade aumenta. Alguns quilómetros mais tarde entramos num vale muito viçoso, com casas bem mais ricas e confortáveis que as cabanas do altiplano, terraços de múltiplos verdes nas encostas.
As crianças regressam da escola nos seus uniformes, como se viessem de um internato inglês. Uma curiosa mistura: as casas de adobe, a paisagem dos Andes, o rosto de pequenos incas, e os uniformes de camisola verde-musgo, saias e calças cinzentas.
Está uma luz maravilhosa. A Christina sentou-se no último vagão do comboio, que é aberto, a conversar com uma amiga. O Joachim sente-se tonto de altitude e tenta dormir. O Matthias entremeia a leitura de um livro, que é trabalho para as férias, com o deslumbramento da paisagem. E eu vou fotografando, toda torta entre o cadeirão e a mesa. Quase deixo cair a máquina fotográfica quando descubro eucaliptos, cada vez mais eucaliptos naqueles montes. Até tu, Peru?
Chegamos a Cusco ao entardecer. Uma viagem memorável - pela beleza de paisagens, pelo extraordinário conforto. E pelas crianças que nos acenam, e por nós que acenamos como se de repente o mais importante do mundo fosse darmos sinais de os ter visto, para alargar ainda mais o sorriso naqueles pequenos rostos desconhecidos.