18 fevereiro 2013

Berlinale 2013 - A Batalha de Tabatô




No caderno com o programa da Berlinale, A Batalha de Tabatô parecia um filmezeco com uma história sem interesse: pai e filha vão a caminho da aldeia, para o casamento desta, e o pai lembra uma batalha que ali aconteceu. Apesar de ser de um português, desarrisquei-o da minha lista.
Por sorte a Berlinda organizou um encontro com todos os participantes portugueses nesta Berlinale, no qual se tornou óbvio que o João Viana teria muito mais para oferecer que um filmezeco. De modo que comprei um bilhete, e foi das coisas melhores que fiz nesta Berlinale, porque começou aqui uma viagem: de um cinema na Potsdamer Platz para África, uma travessia por pontes desconhecidas para dentro de mim.

O filme conquista logo às primeiras imagens, às primeiras palavras -

 Há 4500 anos, enquanto tu fazias a tua guerra, criámos a agricultura. 
 Há 2000 anos, enquanto tu fazias a tua guerra, criámos a boa governação dos reinos. 
 Há 1000 anos, enquanto tu fazias a tua guerra, criámos o chão do reggae e do jazz. 
 Hoje, perante a tua guerra, criaremos contigo a tua paz.

- e leva-nos para uma África que eu, ignorante me confesso, desconhecia inteiramente.
Um filme africano, disse-se no encontro da Berlinda. Vai crescendo de forma surpreendente, para culminar num final cheio de simbolismo, acrescento eu, e muito mais que isso, contou o João Viana após a apresentação: é o filme que as pessoas de Tabatô quiseram fazer, com uma mensagem que lhes é muito importante, e que querem passar na Guiné-Bissau, numa espécie de cinema itinerante.

Perante a sala cheia até ao último lugar, o realizador deixava serenamente transbordar o amor e o respeito que o ligam a África, e respondia com uma simplicidade desarmante às perguntas que lhe faziam ("casting? não houve casting - eles tiveram a ideia, decidiram quem fazia o quê, e pediram-me para os filmar").


A batalha - a minha ponte - de Tabatô, recebeu uma menção honrosa na categoria Melhor Primeiro Filme da Berlinale 2013. Nem que fosse o décimo ou o centésimo filme: mereceria na mesma todas as honras! Ou seja (e isto é um conselho para os amigos): não o percam. 

(Nota mental: prafrentemente, devo ler a sinopse dos filmes no site da Berlinale, e não no caderno)

2 comentários:

Catarina disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Helena disse...

Catarina, essa parte ele omitiu lá na conversa com o público. ;)

(Quantas histórias tão bonitas por trás de um filme tão mal apresentado no caderno do programa!)