08 outubro 2012

Pussy Riot e a liberdade que interessa a poucos





Contaram-me há tempos que o caso Pussy Riot poucas ondas levantou na Rússia, excepto para alguns ortodoxos fundamentalistas, de um lado, e para uma minoria, do outro, que saiu para a rua gritando "Liberdade!" - uma minoria composta por jovens, para quem a liberdade é um valor romântico; por homossexuais, para quem é liberdade é uma questão existencial; e por advogados, que encontram naquelas manifestações os seus futuros clientes...

(Estava à espera do primeiro de Abril para escrever este post, mas - às tantas - não é piada.)

9 comentários:

A. Castanho disse...


É uma perspetiva de análise. Também penso que estes "casos" são por vezes demasiado empolados pelos órgãos de comunicação, os quais, mais ainda do que os diretamente interessados e alguns Advogados interesseiros, são esses sim os grandes oportunistas e os verdadeiros ABUTRES desse género de situações, que por vezes existem apenas na espuma passageira do quotidiano e não têm qualquer significado social, cívico, ou político relevante.


Esse tipo de "informação" obsessiva, paranóica e alucinada, felizmente, já não faz parte do meu mundo pessoal, ainda que encante demasiada gente, sobretudo juventude, deslumbrada com as "novas tecnologias", que todavia apenas foram inventadas precisamente para distrair as novas gerações dos velhos problemas de sempre da Humanidade...).

Carla R. disse...

Não sei que te diga. Estava em Moscovo e li no Moscow Times quando isto aconteceu, explicavam com algum sarcasmo, que tinham ido para a prisão, porque o Estado considerava que eram um perigo para a sociedade. Não sei se os outros jornais falam da actualidade no mesmo tom, mas fiquei agradavelmente surpresa porque pensava que havia mais censura (é escrito em inglês, quantos russos o lirão?). Devo ter estado na igreja do Cristo Salvador, um dia antes. Um edificio estranho e anacronico, que foi construido onde antes havia a maior piscina da Russia e onde se esperava, na altura, erigir uma estatua megalomana a Estaline. Depois, aquela manifestação minima a que assisti na praça vermelha, e que contei no meu blogue, onde apenas por estarem a mostrar um pano com letras (?) foram levados na carrinha da policia. O que lhes tera acontecido ? Vi, à noite, um homem a colar um autocolante a apelar àquela manifestação que foi reprimida e saiu nos jornais, sentiu-se que estava com receio de o colar, mas que colava mesmo assim.
Desde que isto começou, ando a tentar escrever, mas nem sei por onde começar. Nem o que é que ainda não percebi.

Helena disse...

A. Castanho,
a deriva da Rússia de Putin para regressar à ditadura é um problema de fundo, não é um truque tecnológico nem uma empolação dos mass media.
O que se passa em alguns sectores da igreja ortodoxa é grave, e que Putin esteja disponível para meter umas miúdas dois anos na cadeia para agradar a esse sector da igreja é ainda mais preocupante.

De resto, lê o que a Carla escreve. Ela viu o medo e um Estado ditatorial a proteger-se.

A. Castanho disse...


São planos absolutamente distintos.


Não é seguindo pela viela do episódio lamentável dumas miúdas anglo-saxónicamente aculturadas que iremos algum dia desembocar na grande avenida em que consiste a complexidade do regime de Putin, ou melhor, da Rússia pós-soviética.


O que eu digo é que o dito episódio, lamentável mas insignificante (sobretudo para os próprios russos!), pode até ter um efeito fantástico no "Mundo" virtual, durante uns gloriosos trinta e sete segundos ou coisa, mas depois desaparece para sempre, soterrado na avalanche seguinte de episódios lamentáveis e altamente (i)mediáticos - mas igualmente insignificantes! - com que os meios de comunicação inundam as suas dóceis e ávidas plateias precisamente para as manterem no mais completo e absoluto obscurantismo de todos: o do excesso de encandeamento.


E tudo isto independentemente do que a Carla R. possa ter presenciado pessoalmente...

Helena disse...

Dois anos de cadeia para mulheres com filhos pequenos não é insignificante.
Um sistema judicial que faz um processo como este foi feito não é insignificante. É o mesmo, aliás, que meteu um oligarca na cadeia durante anos e anos - porque andava a desafiar o Putin.
E um Putin que resolve agora aliar-se à Igreja, e uma Igreja que resolve agora aliar-se ao Putin, não é insignificante.

Claro que podes falar de mil outras coisas mais importantes que estas miúdas irem parar à cadeia, mas isto é um sinal de algo importante que está a acontecer na Rússia.

Encandeamento é não olhar para isto.

A. Castanho disse...



Mas é isso mesmo que eu digo. Encandeamento é ver «Pussy Riot» por tudo quanto é sítio na "net" e nos "media", até à náusea (independentemente do caso em si) e não ver nada daquilo que referes...

A. Castanho disse...



Talvez o apontar de todos os holofotes em simultâneo para as "Pussy Riot" seja a forma mais eficaz de deixar na total obscuridade coisas como esta:
http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=583531
...

A. Castanho disse...

Peço desculpa, a hiper-ligação que pretendia usar no meu comentário anterior era outra, mas não foi aceite por ser IFRAME...


Mas podem ir à fonte e ver lá. Está algures no "ESQUERDA REPUBLICANA". É um vídeo de uma jovem anarquista norte-americana, de Seattle. Vale a pena ver e refletir...

A. Castanho disse...



Aqui está:

http://esquerda-republicana.blogspot.pt/2012/10/os-tempos-estao-perigosos.html#links


Bom fim-de-semana!