27 setembro 2012

estava eu para contar...

Estava eu para contar do casamento da nossa amiga, que foi diferente de todos os outros


***  na realidade, todos os casamentos alemães são completamente diferentes,
porque o mais importante é o que acontece na festa: uma série de sketches, canções com letras inventadas e outros divertimentos organizados pelos amigos dos noivos. 
Neste casamento, no sul da Alemanha, havia um grupo de amigos que sabiam danças do folclore da Renânia-Palatinado, de modo que passámos boa parte da tarde em bailes de roda, de inspiração palaciana: "vira para cá, vira para lá, adiante e troca o par". À hora do jantar, já me tinha rido com mais de metade dos convidados, já tinha tropeçado em pelo menos um quarto deles, e dado encontrões a outros tantos...
Também teve um momento delicioso, quando as netas da noiva (sim, parece que afinal a vida não começa aos quarenta - insiste em reinventar-se a qualquer idade)
prepararam para os noivos uma dança das cadeiras que nos encheu de riso e ternura: 
adultas todas apericaltadas a saltar para ficar com o último lugar disponível, e as gémeas de cinco anos furiosas a acusar: "fizeste batota! fizeste batota!"
Também gostei muito da própria cerimónia do casamento. Simples e festiva - e com um discurso feito de sabedoria e sensatez. 
Parece-me que vou ter de mudar de opinião sobre celebrações de casamentos civis: 
afinal também é possível fazê-los com muita dignidade!  ***


ia contar, mas optei por ficar longe do computador e saborear o fim-de-semana tão especial, os encontros com amigos de há um quarto de século - mergulhar no carinho e na profunda confiança destes que sabemos companheiros da nossa vida.

Logo a seguir a vida real pregou-me as rasteiras do costume (sempre a correr atrás do atraso), e daí a nada havia ainda mais a acrescentar: o concerto do Barenboim com a Saatskapelle Berlin.



***  ah! aquele Kol Nidrei de Bruch tocado com tanta poesia e sensibilidade pela Alisa Weilerstein! E o concerto para violoncelo e orquestra de Carter (a Alisa Weilerstein, a Alisa Weilerstein!), de que me senti tentada a gostar. Já a nona sinfonia de Bruckner foi um sarilho, porque me fez pensar na Filarmónica, a quem já ouvi esta peça duas vezes, no princípio deste ano. Ah, os contrabaixos da Filarmónica: quem os ouve uma vez, não esquece a diferença. Por muito boas que as outras orquestras sejam.  *** 

Estava eu a pensar como falar de tudo isto, e meteu-se o fim-de-semana e o Outono em Berlim. A luz do Outono e o mercado de sábado, com as barraquinhas de variadíssimos cogumelos e de saladas de flores e ervas.


Fotografei a salada, que ficou óptima, com alguns tomates muito aromáticos e um molho leve, de balsâmico suave, iogurte natural e sal de ervas:



E mais uma coisa e mais outra, e estava para publicar aqui alguns dos postais da exposição dos expressionistas,


por exemplo este do Max Pechstein na praia com a mulher e o filho, até parecia as nossas férias de Verão com o Matthias, a Christina em Berlim a preparar a viagem para a Bolívia e o pobre do rapaz a aturar sozinho os cotas em férias, "finalmente Verão!" diz no postal, e falta o balão para o rapaz: "nunca mais acabam as malditas férias..."


e este também, estas poucas-vergonhices que se mandavam pelos correios alemães, assim sem envelope nem nada, há mais de cem anos


*** (o facebook chegou demasiado tarde ao nosso mundo, perdeu-se um século de moralidade, estava-se mesmo a ver que um século que começou assim despautado só podia dar o resultado que deu...)  ***

Estava também para contar da "feira da ladra" junto ao Karaoke de domingo no Mauerpark

*** e de como é estranho ver todas aquelas coisas usadas e pensar que provavelmente é tudo roubado (carteiras roubadas, faróis para bicicletas roubados, às tantas os únicos honestos são os chineses da fancaria) (e um homem que estava a vender cinco bicicletas usadas - seria este o mesmo que tentou vender a Ginger da Rita? Ele desviou o olhar, o homem das bicicletas, talvez tenha reconhecido um certo ar de minhota nos meus olhos, talvez esteja traumatizado, o pobrezinho)   ***

e no momento seguinte já tinha era de dizer que o concerto do almoço de terça-feira no foyer da Filarmonia foi excepcional, não apenas pela peça, a sonata para violoncelo e piano em sol menor de Rachmaninow, mas pelo violoncelista, que me fez esquecer a Alisa Weilerstein. O Nikolaus Römisch, que toca na Filarmónica, e que toca tão bem tão bem tão bem, que só me apetecia ficar aqui o resto do dia a escrever tão bem tão bem tão bem. Cheguei a pensar "mal aproveitadinho, na Filarmónica de Berlim", mas não pensei muito, porque foi um daqueles concertos onde não cabem palavras. Excepto umas poucas: para dizer que o piano da Kyoko Hosono se combinava na perfeição com o violoncelo do Nikolaus Römisch.



***  e o andante, ah!, este andante (há uma gravação muito melhor, com o Yo-Yo Ma 
e o Emanuel Ax, que na Alemanha não se pode ver):  ***





Agora estou sem saber se vos revele que a seguir a esse concerto me desgracei na caixa da Filarmonia, e que é uma sensação formidável ter na mão bilhetes onde está escrito "Barenboim Kaufmann", além dos outros todos, todas as preciosidades.
Ó vida de mil faces transbordantes: poucas horas depois o Joachim desafiou-me para irmos a Praga este fim-de-semana. Praga, ou Jonas Kaufmann acompanhado ao piano por Barenboim?
Ganhou Praga. É um sonho antigo, e afinal está aqui ao virar da porta: cinco horas de comboio, pelo preço do Alfa Porto-Lisboa.

De modo que estou aqui a pensar que ainda não escrevi todos os posts que queria, e daqui a nada vou estar outra vez a correr atrás do atraso para escrever os outros posts que quero - algo me diz que também vão ser cheios de "Ah! o não sei quê" como este.

9 comentários:

Cristina Gomes da Silva disse...

Abocanhar a vida é muito bom! :-)

Paulo disse...

A 9ª de Bruckner por outros não dá. Também ainda me lembro do som dos dez contrabaixos a subir das profundezas da Terra.

Quanto ao resto, também ando sem vagar.

Helena disse...

é bom, é, Cristina - mas às vezes a vida serve-me bocados em tamanho copo de gelado XXL! Eu não dou vazão...

Paulo, e eu também me lembro bem do brilho dos teus olhos quando o chão se abriu e os dez contrabaixos começaram a tocar... (de facto, de todos os concertos a que fomos nessas semanas, foi esse o momento mais inesquecível)

Gi disse...

Escolher entre um fim-de-semana em Praga e um recital Kaufmann-Barenboim: dilema quase insolúvel.

(A ouvir a 9ª de Bruckner por Haitink no Youtube, à espera dos contrabaixos)

Paulo disse...

Não será certamente a mesma coisa, Gi.

Helena disse...

Optei pelo fim-de-semana, Gi. Apetece-me passear com o Joachim por Praga com esta luz de Outono.

Gi disse...

Pois não, Paulo.

Gi disse...

Eu percebi, Helena :-) Bom fim-de-semana para os dois.

Helena disse...

E além disso, Gi, se visses a alegria da rapariga que ficou com o meu bilhete!
:)

Bom fim-de-semana para vocês também!