16 maio 2012

Riccardo Chailly e a Gewandhausorchester na Konzerthaus


O crime não compensa. Ou a infidelidade, melhor dizendo. Ontem fui infiel à Filarmonia, e arrependi-me amargamente. Para a primeira peça, o concerto para piano em sol maior, de Ravel, sentámo-nos em lugares altos, em frente ao palco, do lado direito. Com binóculos e tudo, claro. Mas a Hélène Grimaud tinha a vasta cabeleira solta sobre a cara, o que nos roubou metade do prazer da sua música.
Fosse na Filarmonia, e ao menos podíamos ter-lhe visto os dedos, a partir dos blocos por cima do piano.
Enfim...
Deixassem-me mandar, e era isto que mandava: as pianistas devem ter o cabelo curto como a Maria João Pires, ou apanhado em rabo-de-cavalo como a Grimaud em alguns dos seus melhores concertos, ou ao menos um ganchinho, ao menos um ganchinho.
Deixassem-me mandar, e punha uma câmara na cara da pianista, para transmitir em écrãs gigantes na sala toda.
(Ah, mas quando ela inclinava a cabeça para trás, e procurava anjos por trás dos candeeiros, e o seu rosto se libertava, iluminado, aaaah...)  (E o Ravel, aaaah, e a clarinetista, aaaah, e o flautista, aaaah.)


 



A seguir ao intervalo, mudámos de lugar. Não sei que me passou pela cabeça para sugerir tal coisa, porque a plateia na Konzerthaus fica muito abaixo do palco, e é plana. Sim, ouvimos bem a soprano, o que é importante na quarta sinfonia de Mahler, mas... lá está, na Filarmonia tinha sido outra coisa. Para mim, feroz adepta dos efeitos audiovisuais, não tem comparação.

(Aaaaah, aquele terceiro andamento, aaaah, bem me podia ser o 11º mandamento, "ouvirás para sempre esta música, e darás graças".) (E o quarto, aaaah...) (Aquela maluquice de texto, o São Pedro feito mirone, os leitões assados a correrem pela rua, as santas a dançar, todas excepto as que cozinhavam e as que riam.) (Quem me dera a mim ir parar com a alma ao paraíso do Mahler.) 

O princípio do terceiro andamento (continua aqui e aqui):




O quarto:



E aqui está de novo o quarto andamento, num concerto em que ligaram o turbo:

5 comentários:

Mar* disse...

Tão bom ;) Obrigada por partilhares connosco estes teus momentos e tão boa música. Apesar da infidelidade, parece-me que o saldo final foi positivo!

*

cjs disse...

Não sei se é por escreveres no plural, mas ao ler o teu texto sinto-me como se estivesse estado lá contigo.

Anónimo disse...

Quanto ao 4ºandamento turbo a foto do vídeo mostra Bruno Walter precisamente o discípulo e colaborador de Mahler...Só com a pauta à frente para lermos as indicações do compositor.
Tiudózio

Helena disse...

Mar*,
claro que o saldo final foi mais que positivo - o concerto foi lindo!
Não ver os músicos (a cara da pianista, na primeira parte, e praticamente toda a orquestra, na segunda) incomodou um bocado, mas o concerto foi mesmo muito bom.

cjs,
pois é, parece que tenho esse dom de fazer as pessoas sentir que estiveram presentes naquilo que descrevo... ;-)
E às vezes até vou mais longe: o Joachim gosta muito de ler as minhas descrições a partir do que me conta sobre o que ele próprio viveu. hehehe

"Tiudózio",
mesmo assim, prefiro que seja mais lento. Questão de gosto.

Mar* disse...

Sim, sim ;) Deu para perceber precisamente isso pelo texto.

Ainda bem que assim foi, fico tão feliz por ti...e por todos nós, que podemos desfrutar destas tuas descrições cheias de alma!