29 dezembro 2011

Natal na ilha de Rügen

O Natal foi bom, obrigada.
Foi no mar Báltico, a três horas de Berlim. Chegámos à cidade costeira, Stralsund, no dia 24 às três da tarde, e apanhámos um susto: nós a morrer de fome, e tudo já fechado por causa do Natal. Em desespero de causa, já a caminho da McDonald's da estação de caminho-de-ferro, deparámos com uma loja de produtos biológicos que nos serviu uma bela sopinha enquanto o dono ia guardando os produtos e fechando as contas. Cada vez gosto mais deste pessoal alternativo.
 

Seguimos para a ilha de Rügen, mas perdemo-nos um bocadinho, de modo que atravessámos de novo a ponte, de regresso ao continente, e ainda bem, porque nos deparámos com este incrível pôr-do-sol (às quatro da tarde, snif snif):



Rügen é a ilha do mar Báltico com falésias brancas de giz que inspiraram Caspar David Friedrich para o famoso quadro "penhascos de Rügen"...


...e que desbloquearam em Brahms a sua primeira sinfonia, que lhe estava há catorze anos atravancada em doloroso trabalho de parto, particularmente o quarto andamento (pelo menos é a versão que o pessoal da ilha gosta de contar). Podia passar aqui uma gravação com o Karajan, mas - que outra coisa esperavam? - levam este bocadinho com o Simon Rattle:



A ilha estava envolta numa neblina molhada. Impossível fazer fotografias.
Havemos de voltar lá no Outono (deve ser linda, no Outono, com as suas florestas de faias, consideradas pela UNESCO património natural da Humanidade) e talvez me levante bem cedo para apanhar a luz do sol nascente reflectida nas falésias brancas.

 






Falésias que se desmoronam e reinventam, numa paisagem sempre nova. Água de um extraordinário verde, evocando outras latitudes. Árvores cujas raízes se agarram teimosamente ao vazio, em constante luta: de que esperança se alimentarão?

No segundo dia de Natal fomos a Hiddensee, e foi mais forte que eu: entrei no barco a cantarolar "Du hast den Farbfilm vergessen, mein Michael", o refrão de uma paródia de Nina Hagen a um parzinho que se esquece de levar rolo a cores para registar o idílio burguês das férias naquela ilha.
Mas cantei baixinho, para não envergonhar a minha filha, que diz que não me pode levar a lado nenhum.


Nina Hagen Du hast den Farbfilm vergessen - MyVideo

Hiddensee. Há quantos anos sonho com essa ilha, e com as fotografias a cores, e com a Nina Hagen em bikini ou até na praia de nudismo, como ela diz na canção. Mas nada disso: tal como Rügen, a paisagem estava apagada de nevoeiro. Saímos numa aldeia e fomos a pé para outra, onde descobrimos que todos os restaurantes estavam fechados, de modo que entrámos de um salto no barco que estava a zarpar. Havemos de voltar lá, talvez na Primavera, talvez no Outono, e arranjar bicicletas para percorrer a ilha calmamente, descobrir-lhe todos os mistérios.


 

O barco passou perto de um enorme grupo de cisnes que dormitavam na água gelada, misturados com patos. Lembrei a história do patinho feio - é mesmo verdade que existem juntos, e livres, na natureza! E eu a pensar que era liberdade poética do Hans Christian Andersen...
As fotografias não estão boas, mas podem acreditar que todos aqueles pontos brancos são cisnes dorminhocos.



Em Schaprode passeámos pelas ruas adormecidas, parámos para apreciar as formações de musgo nos telhados de colmo, maravilhámo-nos com o encanto discreto da arquitectura atemporal. E encontrámos um restaurante muito acolhedor, que rapidamente nos fez esquecer a frustração da caminhada cinzenta por Hiddensee.











Tal como no hotel, também neste restaurante ficámos muito agradavelmente surpreendidos com a simpatia e o profissionalismo dos empregados. Sem perder a naturalidade que lhes conheço e me fascina desde que vivi numa cidade da antiga RDA, descobri que estão a conquistar um excelente patamar de qualidade. Longe vão os tempos em que diziam aos clientes "tem de esperar" ou "procure ali, talvez encontre naquela prateleira ao fundo".

O nosso hotel era um palacete "renascentista" de fins do século XIX, com decoração interior feita por Henry van de Velde. Durante o período comunista, o palacete - tal como muitos do seu género - foi usado como lar de terceira idade, depois como hospital. Todo o seu recheio foi levado, sabe-se lá por quem. Após a queda do muro foi vendido, e - tal como muitos do seu género - transformado em hotel paradisíaco, entre um lago e um parque. Os seus novos donos tentaram recuperar o mais possível dos adornos originais, e deram-lhe mais de quatrocentos quadros com motivos da ilha.
Hotéis como este, em antigos palácios e palacetes, existem às centenas na região a norte de Berlim e até à costa, concorrendo entre eles para conseguir clientela, o que muito jeito nos dá, porque baixam os preços, ou melhoram a qualidade da oferta, ou ambos. Se o Milton Friedman visse, até babava. Até dizia: "eu não disse?! eu não disse?!"
E mais babaria se ouvisse o que a directora do hotel nos contou durante a visita guiada: que não consegue arranjar pessoal para fazer os trabalhos mais indiferenciados, porque o Estado paga melhor. Melhor dizendo, a Segurança Social, que assegura as despesas básicas e até um nível de vida relativamente aceitável, sem ser necessário as pessoas levantarem-se cedo, deslocarem-se para o local de trabalho, cumprirem horários, etc.
Já ouvi isso de outras pessoas. Parece que uma ideia óptima (uma sociedade solidária, que não deixa ninguém cair numa existência miserável) está a ser pervertida por alguns, e que estes são em número cada vez maior, o que vai acabar por dar cabo da ideia original, que era excelente. De onde se prova (digam isso ao Milton Friedman) que o egoísmo individual muitas vezes não conduz a uma sociedade melhor. Muito pelo contrário.

(foto daqui)

   

No dia 27 regressámos a Berlim, mesmo a tempo de preparar em meia hora uma jantarada de Natal para alguns primos. Nada de muito difícil, porque o realmente importante é estar com as pessoas, e não à volta de uma mesa a rebentar de comida.
Além disso tínhamos um belo salmão fumado que a minha sogra encomendara na Noruega, pelo que o trabalho mais importante era apenas cortar o bicho em fatias lindas, exibindo os veios como uma obra de arte. Na próxima encarnação tentarei uma carreira como cozinheiro japonês. Nesta, ainda estou muito longe disso. A cerca de um milímetro da perfeição: um longo caminho a percorrer.

13 comentários:

Paulo disse...

Essas falésias de giz, como C. D. Friedrich as viu, também quero.

(Belo post, Helena.)

Helena disse...

(Obrigada, Paulo.)

:-)

Essas falésias de giz que estão no quadro foram mais inventadas que vistas. Ele inspirou-se me dois lugares difentes. Há meia dúzia de anos um desses grupos desmoronou-se, e a água do mar ficou com cor de leite. Estas coisas acontecem sempre no inverno (por causa das infiltrações da chuva) o que é uma chatice, porque dizem que faz muito bem à pele banhar-se naquela água. Só que não deve fazer bem nenhum à tosse, à gripe e às constipações...

Paulo disse...

Eu sei, mas as que ele viu devem estar em Berlim, não?

Helena disse...

Esta está num museu na Suíça.
Aqui há vários quadros dele na Alte Nationalgalerie, correspondentes a várias fases.
Mais ou menos estas:
http://www.google.de/search?q=caspar+david+friedrich+nationalgalerie&oe=utf-8&rls=org.mozilla:de:official&client=firefox-a&um=1&ie=UTF-8&hl=de&tbm=isch&source=og&sa=N&tab=wi&ei=jn38TrfNA4vXsga04s3oBA&biw=1376&bih=624&sei=kX38Tqu7E4bJswa92az5Dw

(a ver se o link funciona...)

Helena disse...

Lembro-me de ter visto aqui em Berlim, nesse museu, alguns dos primeiros quadros que aparecem nessa selecção de imagens.

Paulo disse...

Também vi alguns desses quadros na Alte Nationalgalerie, há muitos anos. Estava com a esperança de que as falésias me tivessem passado despercebidas ou que nessa época estivessem em tournée. Então também tenho que ir à Suíça, é isso?

Helena disse...

É isso, é.
Grande chatice, ir à Suíça.

;-)

(se vieres uns dias antes, a gente dá-te boleia até lá - queres?)

Anónimo disse...

Belo post, Helena. E que belo Natal!


Pedro

Helena disse...

Obrigada, Pedro. Foi realmente um belo Natal (apesar do tempo, nada bom para passeios e fotografias)

Cristina Torrão disse...

Ufa! Confesso que fiquei cansada só de ler. Também gostava de ir a Rügen. Mas uma lufa-lufa destas pelo Natal...
Eu sou mais para o sossego.

Helena disse...

Lufa-lufa, Cristina?
Para mim, lufa-lufa é o Natal nas casas portuguesas: as compras em supermercados cheios, horas e horas na cozinha, horas a fritar rabanadas e sonhos, o bacalhau de molho dias antes, a mesa dobrada ao peso de tanta iguaria, a cozinheira cansadíssima ainda antes de se sentar à mesa.

O nosso sossego começou pouco antes das cinco da tarde no dia 24. Fomos nadar e saunar. Arranjámo-nos, jantámos no excelente restaurante do hotel.
No dia seguinte tomámos um lauto pequeno-almoço, fomos à missa de Natal numa cidadezinha lá perto, fomos passear na praia e almoçar num restaurante russo, voltámos para a piscina e a sauna. Novo jantar de festa no hotel.
No segundo dia de Natal fomos à ilha de Hiddensee, fizemos lá uma pequena caminhada, voltámos para Rügen, passeámos na cidadezinha portuária e almoçámos num restaurante simpático, voltámos para a piscina e a sauna e o banho turco. Terceiro jantar de festa.
No último dia fomos passear para Königsstuhl, o famoso ponto das falésias, metemos as malas no carro e voltámos a Berlim.
Ainda parece muito cansativo?

Cristina Torrão disse...

Bem, rendo-me ;)

Helena disse...

hahahahha

Mas não é uma rendição tão tão tão completa que eu tenha de dar o endereço do hotel, pois não? ;-)