28 outubro 2011

ursinhos de peluche e quejandos

Esta semana foi notícia que a chanceler Merkel deu ao presidente Sarkozy um ursinho de peluche de lembrança para a bebé Giulia. Gostei de saber. Nada como um jornalismo atento e pertinente, sempre em cima dos acontecimentos mais carregados de significados simbólicos e políticos, etc.
Mas: já se sabe como é o jornalismo - falam, falam, e acabam por omitir as coisas mais importantes.

 
Pois o que eu queria mesmo saber, e quase nem durmo só de pensar nisso, é: ofereceu um ursinho da famosa marca Steiff? Estes são os mais tradicionais, e muito simbólicos como presente para uma menina, já que a fundadora da empresa, a Margarethe Steiff, era uma mulher com uma vontade indómita, que conseguiu realizar o seu sonho apesar da doença que a entrevou desde criança, apesar da pobreza, apesar de viver num pequeno fim do mundo da Floresta Negra. Uma grande mulher, um exemplo.  


Ou terá sido um ursinho Sigikid?
A Sigikid faz ursinhos mais doces, divertidos e modernos. Mais do nosso tempo.
Este, por exemplo, tem uma caixinha de música para embalar o sono da criança. E que canção escolher? Talvez o "Guten Abend, Gute Nacht", de Brahms. Talvez uma popular, "Weißt Du wieviel Sternlein stehen": "sabes quantas estrelas há no firmamento azul? / (...) Deus contou-as todas / Para que nenhuma lhe falte / naquele número imenso". O papá da pequena Giulia podia acrescentar uma nova estrofe: "Sabes quantos euros há no pacote de estabilização? / Deus contou-os todos, etc."
Para a menina dormir descansada um soninho dos anjos.



Ou será um Käthe Kruse, boa mistura entre os dois anteriores? Esta firma é mais conhecida pelas suas bonecas. Contudo, em algum momento decidiu diversificar a produção, e em boa hora, porque faz coisas lindas para bebés.

A Käthe Kruse tinha sete filhos. Max Kruse, o pai dos mesmos, recusava-se a comprar bonecas para as filhas, porque as achava todas horríveis. "Façam-nas vocês", dizia ele e, como tantas vezes acontece, Deus quer, o homem sonha, a obra nasce das mãos das mulheres.
A Käthe Kruse começou a fazer bonecas para as filhas, depois para a vizinhança, e quando deu por ela já estava a receber encomendas da América. Isto em princípios do séc. XX.
Ainda hoje se fazem essas bonecas, com carinhas lindas, muito tranquilas, mas demasiado passivas e perdidas num mundo só delas.  


Uma boneca que já não serve às crianças dos nossos dias, porque lhe faltam pontos de contacto e identificação.


Durante alguns anos a Sylvia Natterer fez bonecas lindíssimas, a preços quase acessíveis, para a firma Götz. Eram as minhas preferidas, porque sabiam escutar:



Por algum motivo que não entendi (provavelmente o motivo do costume...) as bonecas da Sylvia Natterer começaram a ser produzidas na China. Uma pena: os olhos das bonecas, pintados à mão, deixaram de contar histórias. A Steiff também tentou a sua sorte na China, e deu-se mal: depois de ensinarem os empregados, durante meses e meses, para que estes conseguissem atingir o standard de qualidade que a Steiff se exige, eles iam para outro emprego. A empresa queixava-se da moral de trabalho das pessoas, mas algo me diz que as pessoas teriam alguma razão de queixa da moral de pagamentos da empresa.

Só quando a minha filha já tinha atingido um patamar etário que me inviabilizava os alibis é que a Sigikid se lembrou de inventar uma boneca com uma cara mais à maneira das crianças do nosso tempo. Uma boneca simpática, mas senhora do seu nariz, capaz de dar uma resposta torta se a irritarem. Ao mesmo tempo: atenta, capaz de partilhar todos os estados de espírito da criança. Reparem bem naquele rosto: se estou triste, sinto-me compreendida e recebo consolo. Se estou contente, ela está contente.




Eu, se fosse à Angela Merkel, era esta boneca que teria dado à pequena Giulia. Que a vida da filha do Sarkozy no meio de tantas crises nacionais e internacionais não deve ser fácil, e ela bem precisa de um amigo especial que lhe compreenda e aceite todos os estados de alma, e que a ajude a encarar os problemas com um olhar positivo.
Mas, como sempre, ninguém me pergunta nada, e depois fazem asneira. Ou, pelo menos, fazem não tão bem como podiam ter feito.

12 comentários:

Rita Maria disse...

Parece de propósito: a boneca que "já não serve às crianças de hoje, porque lhe faltam pontos de contacto e identificação" parece-se um bocado com a Angela :)

Helena disse...

hehehehe

Helena disse...

E a minha preferida, da Sylvia Natterer, parece a Christine Lagarde!
(eh, pá, o Jung e o Freud hoje acordaram cedo!)

Rita Maria disse...

Eu acho que tem uns ares da Cécilia (cf. aqui) pelo que me parece que por uma vez a Merkel tomou a decisao acertada...

Helena disse...

"por uma vez", hehehe
(eu hoje só me rio)

Luis Novaes Tito disse...

Esta Helena é uma verdadeira enciclopédia. O que se aprende por aqui é sempre notável.

Helena disse...

:-)
Luís: eu sei umas coisas, o Luís sabe outras. Juntos, damos o Petit Larousse, pelo menos! ;-)

cjs disse...

se te tivessem perguntado primeiro, ficariam surpreendidos: ursos de peluche? bonecas? ná, nada disso, o que está mesmo in é mandar vinho Alemão para a França! Mas o que é que a Angela percebe de modas? Se calhar nem saberia como o acondicionar devidamente...

Rita Maria disse...

(eu só vim aqui para dizer "eu percebi!", porque um rapaz esforça-se com citaçoes espirituosas e depois era aborrecido se ninguém as reconhecesse)(nao tem nada que agradecer, ora essa)

Helena disse...

ai! eu não percebi. Rita, depois explicas-me isso em particular, para eu não me envergonhar em público?

cjs,
algo me diz que tu tens conhecimentos de insider...
;-)

Levar vinho alemão para a França será porventura um sinal do princípio do fim do mundo?!

camalees disse...

Que post delicioso.Adoro a Steiff e a Sigikid. Começo é a não ter desculpas para os comprar...

Helena disse...

Camaleões,
:-)
Pois é, essas desculpas são um problema. Por outro lado, daqui a nada entramos numa idade em que já podemos outra vez...
;-)

(Conheço uma americana que colecciona bonecos Steiff sem qualquer complexo.)