20 agosto 2011

dúvida existencial

Neste ano lectivo queremos mandar o Matthias para os EUA durante uns meses: para ele aprender inglês, claro, e sobretudo para abrir um pouco mais os horizontes. E, já agora, para lhe dar umas fériazinhas dos pais, que se tornaram muito difíceis desde que lhe começou a adolescência.

Finalmente encontrámos uma escola que faz o favor de o aceitar (mas nem às paredes confessarei quanto é que esse favor nos vai custar mensalmente).
(o que levanta outra questão: se o dinheiro do Estado americano não vai nem para um SNS como deve ser nem para escolas públicas, de onde lhes vem o défice monumental?)
(adiante)
Ontem estive a tentar inscrevê-lo. Mas parei completamente indecisa na pergunta: caucasian ou hispanic/latino? É que o rapaz tem passaporte alemão e cara de português. E quem diz português bem podia dizer brasileiro, ou seja, hispanic/latino.

Já agora: porque é que eles não têm um quadradinho para "ariano"?
Não é que me ajudasse muito, porque o rapaz é produto de um casamento misto (o que eu gosto destas expressões da ideologia nazi...), mas se começamos a falar destas coisas acho bem que levemos a lista até às últimas consequências. Sempre fica mais claro de que é que podemos estar a falar.


Depois li melhor, e vi que não era uma questão de aspecto físico, mas de ethnic origin. Acho que vou assinalar: "outros" - product of Europe.
Seja lá o que isso for.


A gente olha, pensa duas vezes, e dá-se conta de que estas distinções - African American, Asian / Asian American / Pacific Islander, Caucasian, etc. - estão a perder completamente o seu significado.
Por estas e por outras é que às vezes gosto muito do futuro.   

13 comentários:

Sara disse...

O hispanic/latino nos EUA não está muito relacionado com o aspecto físico, mas sim com o local de origem do indivíduo. E tenho a vaga ideia que há organismos oficiais nos EUA não consideram os portugueses e espanhóis como sendo hispanic/latino (só os oriundos da América Latina e às vezes nem incluem o Brazil). Preferem white/caucasian, mas o hispanic/latino é um bocado auto-nomeação ou seja a pessoa é que decide se quer ser identificado como tal ou se prefere ser enquadrado na categoria com a sua cor de pele.

jj.amarante disse...

Presumo que boa parte do défice se deve ao poderio militar americano. Se for ver quem tem porta-aviões constatará que muito poucos países têm uma dessas unidades. Os próprios ingleses tiveram que se desfazer do único que tinham porque não tinham dinheiro para mantê-lo. A China vai agora ter o seu primeiro porta-aviões, numa afirmação clara de potência mundial. Os E.U.A têm doze desses sugadouros de dinheiro dos contribuintes, para não falar do arsenal atómico e dos seus 3 vectores de entrega, os mísseis balísticos intercontinentais em silos, em submarinos atómicos e em aviões bombardeiros permanentemente no ar. Para não mencionar as guerras em que se envolvem com grande frequência: desde 1945 tiveram a da Coreia, do Vietnam, do Iraque (na sequência da invasão do Kuwait), do Afeganistão e do Iraque outra vez. Sem falar das operações de menor envergadura no quintal da América Central e do Sul. É o que antigamente se chamava o complexo militar-industrial e do qual já não se fala tanto mas que continua a gastar muito dinheiro.

jj.amarante disse...

Essas perguntas sobre origem étnicas são pura e simplesmente racistas. Há alguma ironia nos eufemismos, como chamar hispânicos a descendentes dos antigos aztecas e usar a tríade Afro-americans, Asian-americans e cúmulo dos cúmulos Native-americans. Uma pessoa interroga-se onde estão então os verdadeiros Americans, aqueles que não precisam de adjectivos. Palpita-me que são os WASPs, que agora se intitulam Caucasianos. É espantoso que com tanta emigração da Europa para a América do Norte não existam por lá os Euro-americans.

sem-se-ver disse...

caucasiano, sem dúvida. é essa a resposta certa.

por mais imbecis que sejam essas questoes - qual a necessidade delas, aliás?

lembro-me sempre do episodio do einstein, que à chegada de uma fronteira qq, ou no preenchimento de um formulario qq, na altura do nazismo, escreveu, em raça: humana.

Helena disse...

Sara,
uma vez um americano disse-me que eu era "black". Eu! Que devo ser das portuguesas morenas mais claras que há. Hihihi.
E não estava a brincar nem nada: estava a exemplificar até onde pode ir a palermice racial.

jj.amarante,
o mesmo americano (é uma pessoa extremamente informada, culta e crítica) disse-me que o Estado americano dá às empresas. Não aprofundei o assunto, mas pelo que me dizia pareceu-me que a quota do orçamento estatal que vai para assistência e saúde é uma percentagem ínfima do que é gasto em apoios diversos ao sector empresarial. Comentário dele: "o liberalismo é uma farsa!"
Um dia hei-de pedir-lhe números sobre isto.

Quanto às perguntas racistas: para ser justa, devo acrescentar que esta pergunta é de resposta facultativa. Mas é uma pergunta cada vez mais dispensável: o que significa ter avós chineses, olhos em forma de amêndoa?

Sem-se-ver: isso mesmo.

Lucy disse...

posso fazer uma pequena pergunta - porquê ir para os EUA aprender inglês e não para Inglaterra? Ah...reli o post e já percebi é para "abrir um pouco mais os horizontes". OK já tenho a resposta. bj

Helena disse...

Pode, Lucy, pode. A resposta é mais assim: porque nos EUA temos amigos que adoram o rapaz, o que torna esta pequena aventura um mero pequeno risco calculado.

Lucy disse...

pois, adorar esse rapaz não é mesmo nada difícil ...

Helena disse...

Bem, estou a ver que também há quem o adore em Lisboa...
:-)
(e o meu coração de mãe coruja a rebentar)

Lucy disse...

pois há e se ele quiser vir aperfeiçoar o português e, talvez, estreitar horizontes, será muito bem-vindo...

Helena disse...

hahahaha!
Obrigada, Lucy.
Pela gargalhada ("estreitar horizontes") e pela oferta. Mas eu gostava de lhe pôr os olhinhos em cima assim mais ou menos volta e meia...

Sara disse...

Em relação à cor de pele, hoje em dia começa a utilizar-se leucodérmico e melanodérmico nos relatórios médicos. Descreve a cor e não a origem do indivíduo.

Helena disse...

Sara,
essa lembra-me uma expressão que usam na turma do meu filho: "de forte pigmentação". A miúda mais querida da turma tem mãe alemã (digamos, quase sem pigmentação) e pai africano. E eles, para não dizerem "africana" (que não é verdade) ou "preta/negra" (estas duas incomodam, por melhores que sejam as intenções), dizem "forte pigmentação".
A verdade é que a tratam pelo nome, e a adoram.