20 maio 2011

Deus ao fundo das escadas

Entre duas cervejas, falava-se de Deus. O grupo: um católico praticante, um católico duvidante, um ateu militante (que tira todos os dias uns minutos para se reafirmar que Deus não existe), um que só se ria, e eu, especialista em falar mais depressa que o pensamento, deixando escapar que "no fundo, não é muito importante se existe ou não - se eu agir como se Deus existisse, já vale a pena", o que logo me valeu o carimbo de "esta joga pelo seguro".

Em termos de esprit d'escalier, eu sou o superlativo absoluto sintético. Só muito mais tarde me ocorreu que era isto o que queria dizer:

A minha fé não é um apostar numa conta poupança eternidade, mas uma busca de sentido e conteúdo para a vida. Não tendo a certeza se Deus existe ou não - que isso é tal e qual como nos jogos de futebol: prognósticos, só depois do apito final -, basta-me que a sua procura seja a lâmpada dos meus pés

Como diz a Sophia com tanta leveza e graça:

"Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra a fita

Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco"

Existe? Não existe? Não sei.
Sei que o Deus de Jesus Cristo existiu com toda a força da sua concreta presença nas ruas de Calcutá por onde a Madre Teresa passou, sei que esteve em Auschwitz no dia 29 de julho de 1941, quando o padre Kolbe se ofereceu para morrer em vez de outro prisioneiro. Não existe para nós como um seguro de vida eterna, mas por nós e como O soubermos inventar em actos de amor ao próximo e à nossa vida presente.

3 comentários:

mdsol disse...

:))

Interessada disse...

Cara Helena
Talvez Deus...mas, não conhecendo eu o belo poema de Sophia, mas somente a estrofe que coroa este blogue, e tendo-a interpretado como se do meu semelhante se tratasse,achei-a igualmente bela. E talvez fiquemos a ganhar com a troca.

Helena disse...

Interessada,
não me tinha ocorrido essa leitura do poema de Sophia, e dou-me conta de como é interessante: o poder criador do meu olhar.
(Ai, que responsabilidade, este poder!)