09 fevereiro 2011

ora vamos cá a apostas: quem tem mais sentido de humor - Mozart ou Beethoven? (2)

Se bem entendi, para o pianista Alfred Brendel é Beethoven.
Ontem, passámos um belo serão na Filarmonia ouvindo este homem de oitenta anos falar sobre humor na música, e vendo-o interpretar alguns exemplos. Curiosamente, tocou imenso Beethoven, e também algum Haydn. Mas Mozart, que seria o exemplo mais evidente para todos, nem pensar. Segundo Brendel, as suas peças são de um perfeito equilíbrio formal - Mozart consegue surpreender ao oferecer-nos aquilo que se esperava -, enquanto algumas peças de Beethoven e de Haydn só podem ser compreendidas se lidas num registo de humor: passagens inesperadas, acordes dissonantes que surgem como se o pianista se tivesse enganado, gargalhadas repetidas nas notas mais graves, diálogos em pianissimo e fortissimo, repetições malucas, variações cujo tema parece ele próprio já uma variação.
Onde Mozart era um perfeccionista da surpresa dentro da norma, Beethoven era um brincalhão que nos dava o descabido. Quem diria!


Se eu fosse amiga dos meus leitores, escrevia agora à Filarmonia e pedia a lista das peças que ele tocou, só para vocês verem. Mas algo me diz que humor também é uma questão de interpretação: outro pianista não arrancaria ao público estas gargalhadas que nós ontem largámos enquanto Alfred Brendel tocava Haydn e Beethoven, com as mãos alegremente saltitantes sobre o teclado e um sorriso enorme. Pese embora o seu comentário, ao chegar ao fim de uma peça que nos fez rir a bom rir: "se um pianista não for capaz de pôr o público a rir com esta peça, mais lhe vale tornar-se organista".

Uma bela sessão, foi o que foi. Que me abriu um pouco mais o horizonte: nunca me tinha ocorrido que algumas passagens de um concerto para piano e orquestra pudessem ser para rir! Vou passar a estar mais atenta a esta faceta da música. Mas prometo que não me rio nos concertos, como é óbvio: é que não há muitos iniciados nestas artes, e os outros, os que não percebem nada disto, podiam sentir-se incomodados e olhar para mim com cara de "minha senhora, isto é uma coisa muito séria!"

Mas se me desse para desatar a rir, tinha um bom advogado de defesa: Alfred Brendel, que entre as tosses e os risos nos concertos, prefere...
...ora cá vamos a mais apostas: o que prefere Alfred Brendel, quem dá um palpite?

9 comentários:

Chloë disse...

Que sorte ver/ouvir o Brendel!! Lembro-me de ouvir um talk dele na BBC (há muiiiiito tempo) que foi uma auténtica delícia!
bjs

Paulo disse...

Não vai sair daqui que ele prefere as tosses. Ou vai?

Voltando aos humores. O de Mozart seria mais óbvio, penso eu, e o de Beethoven mais cerebral, penso eu também. Mas mais facilmente consigo imaginar o primeiro a dar gargalhadas enquanto passeava em Viena que o segundo. Contudo, posso estar redondamente enganado.

Helena disse...

Chloe,
em inglês?
O homem é mesmo dotado.

Vê lá tu esta sorte (espero que sejas a Chloe que eu conheço, para estar a usar assim o "tu"!): o Matthias esteve no seu concerto de despedida em Berlim.

Eu gostei muito da palestrinha dele ontem. Brincalhão mesmo!

Helena disse...

Paulo,
o Brendel disse algures que as peças do Mozart não eram uma carta à primalhada. Ele podia ter imenso humor, mas nas peças dele não entra em maluquices, falta-lhes essa componente de "deslocado" ou "descabido" que existe em algumas de Beethoven.

E na mesma entrevista acrescentou que é nas peças dos românticos que se encontra menos humor. Os clássicos tinham a vida mais fácil: como o standard estava muito bem definido, eles podiam brincar saindo do standard. No romântismo, o standard era sair fora, de modo que não havia como fazer brincadeiras.

Se eu fosse compositora nesse tempo, bem sabia como brincar: meter o standard anterior, fazer de conta que era Mozart.

(hihihi: "fazer de conta que era Mozart" - nada mais fácil...)

Paulo disse...

Beethoven podia ir pelo campo do "deslocado", porque já nem ele próprio sabia se era um clássico ou um proto-romântico. De maneiras que ia explorando caminhos.

Já a Viena de Mozart não apreciava ser confrontada. Ora bem, Mozart tinha que se contentar com o que lhe era permitido fazer, não fosse chocar os patronos que lhe davam o pão para a boca. Nem consigo imaginar o que ele teria feito se tivesse vivido mais umas décadas.

mdsol disse...

Uma delícia, uma delícia muito grande estes post!


:)))

Chloe disse...

Sou aquela Chloe :) O Brendel vive em Londres há trinta e muitos anos - até é um "honorary sir"!

Gosto muito mais de Beethoven do que Mozart. Quem tinha mais humor, não sei, mas Mozart bores me a bit!!!

António P. disse...

Não vale.
Agora aparece o Haydn.
Não era só entre o Mozart e o Beethoven ?
Não me diga , Helena, que p Brendel diz que é o Haydn.
Eu mantenho o Beethoven :))

Helena disse...

António,
isto é sobre humor, sobre sair do standard: meti o Haydn pelo meio para complicar, como o Beethoven fazia com os acordes inesperados...
O Brendel tocou muito Beethoven. Parece-me que isso responde à sua pergunta.
A explicação do Paulo parece-me muito boa: o Beethoven era um experimentalista do classicismo...

Chloe,
esconde-te!
Se a Teresa do Rantanplan aparece aí e lê o que escreveste, estás perdida!
;-) para a Teresa
;-) para a Chloe