04 maio 2017

quem precisa de um Putin quando já tem um Juncker?


O meu país é a Europa, mas essa Europa que quero está cada vez mais parecida com o triste fado do comunismo: a utopia de um mundo melhor, em nome da qual se cometem crimes graves e inconciliáveis com os valores daquela. Como este mais recente (enfim, não tenho a certeza que seja o mais recente - não acompanhei com atenção o noticiário dos últimos dois dias): Jean-Claude Juncker janta com Theresa May em Londres, e uns dias depois a conversa deles é soprada ao Frankfurter Allgemeine Zeitung de forma a dar uma péssima ideia da primeira-ministra.  

O artigo no Frankfurter Allgemeine é extenso e detalhado. Alguém que esteve no jantar deu-se ao gosto de contar a um jornalista alemão a sua versão, e mostra Theresa May como uma política extraordinariamente incompetente, irrealista, irresponsável, incapaz. Para dar uma ideia do tom: há uma passagem em que Juncker, em pleno jantar, terá aberto a sua pasta para tirar os dossiers do acordo para a adesão da Croácia e do tratado de livre comércio com o Canadá. São seis quilos de papel, milhares de páginas, que ele usa para mostrar a Theresa May que as coisas são muito mais complicadas do que ela pensa. Se isto é verdade, Juncker deu-se ao trabalho de carregar seis quilos de papel na sua pasta para fazer uma encenação humilhante para a primeira-ministra britânica. Mais grave ainda é o ruído de fundo contínuo em tom de chantagem: "nós contra vocês, vocês contra nós, vamos ver quem ganha".
O medir forças, a chantagem, a insuportável arrogância de Juncker. E depois, alguém que esteve nesse jantar - suspeita-se que tenha sido Martin Selmayr, o alemão que é chefe de gabinete de Juncker (em Bruxelas conta-se esta anedota: qual é a diferença entre Selmayr e Deus? / Deus não pensa que é Selmayr) - arranja de publicar esta versão dos factos a cerca de um mês das eleições no Reino Unido. Se isto não é uma interferência gravíssima de Bruxelas naquelas eleições! Já nem precisamos de Putin para destruir ainda mais a confiança nas Democracias europeias.

A minha Europa não é isto. A minha Europa nasceu da ousadia de alguns políticos capazes de sonhos e gestos de enorme grandeza. Este Juncker não é um desses estadistas - é pior que um merceeiro de aldeia, que me desculpem os merceeiros. Além de só saber fazer contas de somar simples, tem vistas curtas, é mesquinho e é vingativo.

Não quero uma Europa onde os países só ficam por terem medo das retaliações. Não quero uma Europa que castiga para se impor, sem se preocupar com o sofrimento enorme que provoca aos povos. A única Europa que tem alguma perspectiva de futuro é uma União da qual se pode sair sem ser castigado. 

O que Juncker (e Merkel, e Schäuble) está a fazer ao Reino Unido é um tremendo tiro no coração da Europa. 


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