23 abril 2017

os psicadélicos e a ciência



O facebook a mostrar a vida como ela é em apenas quatro passos:

1. Alguém escreveu um post a criticar as pessoas que se iludem sobre os riscos do sarampo.
2. Outra pessoa comenta: "O que dizer de quem, tendo os filhos vacinados, se preocupa tanto com os que não estão? Estupidez pura, afinal, se os seus estão imunizados, o que os preocupa no contacto com crianças não vacinadas? live and let live"
3. Entra em cena este texto: The choice not to vaccinate doesn't only affect you!
4. Logo a seguir aparece o texto "
Portugal: o sarampo", onde li o comentário que transcrevi num post anterior, insinuando que em Portugal "mataram" uma adolescente para servir a agenda da histeria pró-vacinas.
 
Ora aí está um exemplo muito claro da impossibilidade de ganhar as pessoas por meio do debate e do esclarecimento.

Na cidade onde vivo tem havido alguns surtos de sarampo, devido a grupos da classe média-alta que se interessam muito por medicina alternativa e se entendem como vanguarda dos cuidados de saúde que pensa "fora da caixa" (sendo que "caixa" é a ciência). Se metem na cabeça que não devem vacinar os filhos, é impossível ao médico convencê-los do contrário. De tal modo que uma médica no hospital universitário já reduziu a argumentação a esta frase: "oh, não precisa de vacinar todas as crianças, vacine apenas aquelas que não quer perder."

É uma simplificação, claro. Porque muitas vezes não são os nossos filhos que se perdem, mas os filhos, os pais ou os avós dos outros.

"Serei acaso o protector do meu irmão?" foi a cínica pergunta de Caim, quando Deus lhe perguntou por Abel. Teremos acaso de nos preocupar com a saúde dos outros? Alguém me pode obrigar a vacinar o meu filho apenas para proteger o vizinho cujo sistema imunitário é muito frágil? E se um filho meu, doente com rubéola, contagiar uma grávida, e se ela decidir abortar, posso sair desta história de mãos descansadamente lavadas? E se ela não abortar, e se a criança nascer cega ou com microcefalia, posso encolher os ombros e murmurar "shit happens"?


A propósito, conto uma história que nos está a acontecer: há tempos o Matthias fez à vizinha o favor de tomar conta do cão dela. O cão (um bichinho tímido e sensível, do tamanho de um gato) fugiu, correu desaustinadamente vários quilómetros, e mordeu a mão do homem que o tentou agarrar. Uns dias mais tarde recebemos uma carta a dizer que a ferida teve complicações, o homem teve de ir ao hospital tratar o ferimento, faltou vários dias ao trabalho, e tudo somado dá um prejuízo de cinco mil euros - que ele agora exige dos donos do cão e de quem o deixou fugir.

Parece-me que se as pessoas têm de responder pelos prejuízos provocados pelos animais que estão à sua guarda, também podem ter de responder pelos prejuízos provocados por elas próprias e pelas decisões que tomam. Enquanto se discute se as vacinas devem ou não ser obrigatórias, e enquanto não se chega a consenso, faça-se uma lei que não deixe dúvidas sobre a responsabilidade de quem, podendo evitar ser portador de uma doença contagiosa, não o fez. Concretamente: se eu escolho não vacinar um filho meu, e se ele acaba por contagiar um bebé que ainda não está em idade de ser vacinado, depois este contagia a sua avó, e se esta morrer por causa disso, eu devia ter de pagar as despesas médicas da avó e do neto e as faltas ao trabalho por ser preciso tratar desses dois doentes, e ainda me devia sujeitar a um processo por homicídio involuntário. Que tal?

Uma outra solução - mas isto agora sou eu a delirar, que também tenho direito, não são só os outros... - era oferecer às famílias de não vacinados uma estadia de quinze dias com tudo pago num clube de férias muito agradável, onde houvesse permanentemente surtos de sarampo, rubéola, varicela, papeira e todas as outras doenças infantis contagiosas que constam do plano nacional de vacinas. Tinha a vantagem de apanharem as doenças e deixarem de ser portadores potenciais, e de poder confrontar os pais com a Gretchen Frage, que é: querem mesmo sujeitar os seus filhos a correr o risco de apanhar certas doenças, quando o podem evitar? 




(Os meus filhos têm as vacinas em dia. Já eu, não sei. Perdi o meu boletim de vacinas da infância, e não sei o que constava lá. Só me lembro das anotações a lápis com a data em que devia ir repetir determinadas vacinas. Vou tratar disso esta semana, sem falta. É que a tragédia que aconteceu em Portugal na semana passada lembra-nos que essas doenças matam. E se, de um modo geral, podem ser relativamente inócuas nos miúdos, no caso dos adultos há um grande risco de complicações grandes ou até fatais. Não me dava jeito nenhum ir desta para melhor por causa dos psicadélicos que gostam de desconfiar da ciência médica ocidental.)


3 comentários:

Jaime Santos disse...

Ora bem. No seu caso, como no meu, provavelmente só precisa de se preocupar com o tétano, hepatite e eventualmente a tuberculose, mas a vacina não é muito eficiente e tem de repetir o teste de tempos a tempos. Claro, se não teve sarampo, papeira ou rubéola em pequena, talvez valesse a pena fazer a tríplice...

Helena Araújo disse...

Obrigada, Jaime.
Não sei que vacinas fiz, nem me lembro das doenças que tive.
Vou falar com o médico, e logo se vê.

Vítor Silva Santos disse...

Um adulto se cumpriu o Plano Nacional de Vacinação durante a infância e a adolescência, só tem que fazer a vacina anti-tetânica, de 10 em 10 anos.
Se tiver mais de 65 anos ou alguma patologia que diminua a actividade do sistema imunitário deve fazer anualmente a vacina antigripal.
Jaime Santos o BCG que é a vacina da tuberculose era dado a todas as crianças em Portugal até há muito pouco tempo. Deixou de o ser, o grupo alvo são só as crianças em risco. Não tem qualquer interesse fazer a prova de Mantoux, penso que é a isso que se refere quando diz "repetir os testes de tempos a tempos".
Em Portugal a vacina da hepatite B faz patye do PNV, se não fez, essa deve fazer, é importante. Recomenda-se a vacinação durante a gravidez
com uma dose de vacina combinada contra a
tosse convulsa, o tétano, e a difteria, em doses reduzidas (Tdpa), entre as 20 e as 36 semanas de
gestação, idealmente até às 32 semanas. Não falo aqui nas vacinas necessárias ao viajante.