20 maio 2016

"diabo"

Estava a ver se alguém fala do diabo que foi desencaminhar o Dr. Fausto de Goethe, que havia de ser um nerd mas em medíocre (o Fausto - porque o Goethe, esse, havia de ser um nerd, mas em genial). Como estão todos muito caladinhos, vou ter de me envergonhar eu. A história começa com um prólogo no céu, uma conversa entre Deus e o diabo, à maneira do livro de Job. Não sei como é que Deus arranja, que a cada par de milénios mete-se no jogo e a fazer apostas. Más companhias, já a minha avó avisava. Cuidado com as más companhias! Entretanto ela morreu, e espero que esteja a avisar Deus com o mesmo empenho com que me avisava a mim, e espero que ele lhe dê ouvidos (durante muitos anos a coisa correu bem comigo, mas agora meti-me no facebook...).
O diabo entra na casa do Fausto em forma de caniche, depois mostra quem é e ao que vem, e o nerd do professor, que tudo estudou mas pelos vistos pouco aprendeu, com meia dúzia de tretas acaba a vender a alma ao diabo. Ao caniche. E é melhor eu agora não atirar pedras ao telhado do Fausto, porque tenho cá em casa um rafeirito que manda em mim, e nem sequer fizemos um pacto para ele me dar tudo o que quero, nem nada. Por falar nisso, são horas de o levar outra vez a passear.
Em todo o caso: o Fausto vendeu a alma ao diabo, depois disso só fez asneiras, e quem pagou foi a pobre da Gretchen.
O Goethe publicou o primeiro Fausto em rapaz novo, e passou o resto da vida a pensar e a escrever o segundo. O Fausto II escapa com um olho negro. Então como é? Vende a alma ao diabo, morre, e tal, mas Deus arranja de não perder a aposta toda?! E depois falam em "justiça divina"... Mais valia rematar à maneira do Evangelho, com uma daquelas frases que me deixam sempre boquiaberta a pensar quem terá sido o tradutor que fez tal asneira (geralmente a culpa é do tradutor), tipo "o reino de Deus é assim: quem muito tem, mais lhe será dado; quem pouco tem, até esse pouco lhe será tirado". É daquelas frases que me fazem pensar que se o reino de Deus é assim, se calhar era boa ideia ir espreitar como será o contrário, o reino do diabo, mas eu não disse nada, nem sequer estou aqui, ópramim lá tão longe, já estou no lago a passear o cão. Não, não é um caniche.

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Na aldeia da minha avó não se podia dizer diabo. Nem demo. Nem mafarrico. Nenhum dos seus nomes. Em vez disso, diziam "o cão" ou "o bicho da peçonha" em modo raivoso, cuspido. Como se o diabo existisse mesmo, como se todos morressem de medo da sua presença material e fizessem questão de lhe omitir o nome, não fosse ele pensar que o estavam a chamar.

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Hoje já é amanhã, pelo menos aqui na minha terra, e a culpa é do vizinho que me viu a chegar a casa tarde e a más horas e ainda abriu uma garrafinha de vinho para ficarmos na conversa. Em todo o caso, antes deste dia do diabo terminar queria falar do Martinho Lutero que fugiu para a Wartburg disfarçado de Junker Jörg, e se entreteve por lá a traduzir o Evangelho para uma língua que acabou por se tornar a base do alemão moderno unificado, digamos assim, mas isso era no tempo em que a religião tinha uma palavra a dizer na sociedade. Até tinha uma língua inteira.
Diz que o diabo costumava incomodá-lo muito, desde tenra idade, e uma vez, lá na Wartburg, quando estava novamente a ser provocado e posto à prova, o Lutero perdeu a paciência e, zimbas!, atirou-lhe o tinteiro ao focinho. Mas o malvado do mafarrico esquivou-se e a parede ficou toda esborratada. Para gáudio dos crentes e turistas muitos anos depois, que foram esgravatando a tinta da parede até não sobrar mancha nenhuma para eu ver (fui lá no princípio deste século, e não tinham deixado nada para mim, os egoístas). Para gáudio dos trolhas da Turíngia, que passavam a vida a pintar e a repintar a nódoa, que era esgravatada e repintada. Mas agora deixaram-se disso, se calhar a culpa é da troika.
Em todo o caso: a culpa deste texto é do rosé.
Boa noite, durmam bem.


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