16 junho 2014

Alemanha x Portugal

Estava eu mais ou menos indiferente em relação ao jogo que vai começar daqui a bocadinho, encolhia os ombros e dizia "que empate o melhor", e eis que de repente me lembro que o meu filho está em Portugal com sete amigos alemães. Vão com certeza ver o jogo num café, e não fazem a menor ideia que isto é muito mais que um jogo de futebol, é um "ajuste de contas" (como li hoje no facebook).

Já não é a primeira vez que eles se metem em aventuras destas - há dois anos estavam numa esplanada holandesa a ver o Holanda-Alemanha. Mas os holandeses não andam a fazer discursos de ódio contra os alemães, nem andam a dizer que a Merkel conseguiu com o euro o que a Alemanha tentou com duas guerras mundiais, por exemplo.

Mandei-lhe uma mensagem a lembrar que podem estar rodeados de pessoas que odeiam os alemães, e a sugerir que sejam muito discretos caso a Alemanha ganhe.

Sinto-me parva, e perplexa. É esta a nossa Europa em 2014?!

ADENDA: no decurso de um longo debate no facebook dei-me conta de que devia ter escrito "pessoas com enormes ressentimentos em relação aos alemães" em vez de "pessoas que odeiam os alemães".
Escolho "alemães" e não "Alemanha" porque a agressividade verbal que tenho testemunhado é contra o povo e não contra o país.




14 comentários:

Maria de Jesus Lourinho disse...

É, sim, Helena. Desgraçadamente.

Ant.º das Neves Castanho disse...



Helena, que exagero! Acho que não tens nada que recear...


(acho que o meu anterior comentário se perdeu, talvez algures nas malhas da espionagem cibernética da Comichão Europeia...)

Ceridwen disse...

A esta altura, vejo já algumas bandeiras de Portugal a esvoaçar nas janelas dos prédios próximos. Não é inédito. Regularmente, ou sempre que há jogos internacionais o cenário repete-se. Não me parece que haja bandeiras por ser um jogo contra a Alemanha, mas sim um jogo da equipa de Portugal. Portanto, não atribuo importância simbólica em demasia ao jogo de hoje (embora admita que haja quem atribua esse tipo de simbolismo, evidentemente).
Ajuste de contas? Se Portugal – enquanto Estado-nação - se joga num campo de futebol então sim, é caso para dizer: É este o nosso país em 2014?

Adenda: suponho que os/as holandeses/as não foram incluídos/as no grupo de países cujos problemas, segundo Merkel, tinham origem no excesso de feriados e férias. Os discursos propagandísticos que instigam preconceitos têm sempre consequências muito graves. Confesso que não sei quem é que tem pior ideia de quem.

Fuschia disse...

Não costuma haver problemas desse género, acho que esses comentários são mais garganta que outra coisa.

Helena disse...

Repito o que disse há bocadinho no facebook: näo me parece que os miúdos corram o risco de serem massacrados no café. Mas acho bem que näo sejam muito efusivos se a Alemanha ganhar, porque este jogo näo é apenas um país contra outro país. Há muito ressentimento acumulado, e é melhor eles näo terem um comportamento que seja sentido como provocatório.

Helena disse...

Entretanto, por esta altura os miúdos alemäes já se devem estar a sentir embaracados. Maldito jogo, como é possível correr täo mal?

Helena disse...

Ceridwen,
admito que as bandeiras portuguesas aqui na Alemanha tenham outro significado. Por falar nisso: no último campeonato, nós andávamos com uma alemä e uma portuguesa no carro. Este ano pus-me a dormir, ainda näo arranjei a portuguesa. Tenho de corrigir isso.
Quanto à estupidez da frase da Merkel: no próprio dia foi criticada por todos, e a comunicacäo social teve o cuidado de a contradizer com factos. Foi um erro gravíssimo da parte dela, mas näo me consta que os alemäes pensem täo mal dos portugueses como ouco em Portugal dizer mal dos alemäes. Por exemplo, o salto do "alemäo" para "nazi" é muito mais fácil que, na Alemanha, alguém passar de "portugues" para "preguicoso".

Maria de Jesus Lourinho disse...

O que este post tem dado, também no FB!! Quando escrevi o 1ª comentário, não pensei que os miúdos pudessem ter algum problema por aqui. Problema gravíssimo é que coração de mãe possa ter um sobressalto por causa de um jogo de futebol entre EUROPEUS. Esse, sim, é um sintoma de como as coisas correm mal na nossa Europa de 2014.

Helena disse...

Maria de Jesus Lourinho, ainda bem que cá voltou. Parece-me que exagerei naquele "pessoas que odeiam os alemäes", mas sinto-me contente por ter entendido a minha aflicäo de mäe.
Ainda bem que os miúdos näo estavam no café em Lisboa onde dois malucos incendiaram uma bandeira alemä.
Näo é porque corressem risco de vida, mas corriam o risco de ficar muito chocados. E näo há necessidade.

Ceridwen disse...

Não sei, Helena. Confesso que não sei. Eu tento sempre não confundir uma sociedade com os/as seus/suas líderes, mas se há coisa que esta crise nos tem mostrado é o quão perto estamos dos piores sentimentos. Acredito que a CS portuguesa selecione os acontecimentos que parecem mais escabrosos (logo, mais passíveis de audiência ou discussão). Aquela frase merecia um pedido de desculpas ou, pelo menos, uma correção pública. Há muito que se devia ter muito cuidado com as palavras. Pelo discurso age-se. Toda a gente deveria ter muito cuidado com as palavras. Merkel afirma que os povos do Sul têm férias e feriados a mais, e cá, os líderes confirmam: precisamos de trabalhar mais. Julgo que uma parte da antipatia advém precisamente do facto de os governantes terem adotado o discurso dominante, sem que houvesse qualquer estratégia discursiva de resistência. Acredito que o sentimento antialemão na Grécia seja muito acentuado (por motivos históricos). Em Portugal não o sinto dessa forma. Isto é, parece-me que existe sim, claramente um sentimento de antipatia em relação a Merkel (não hegemónico, já que continuo a ler inúmeras opiniões - mais ou menos intelectuais - a favor de Merkel), mas não um sentimento antialemão: os/as portugueses/as sentem-se agradecidos/as pela fábrica da VW de Palmela, que é sempre representada na CS como um exemplo de diálogo entre Direção e Comissão de Trabalhadores, continuam a comprar no Lidl e no Aldi – sem qualquer problema. Julgo que um ambiente de hostilidade implicaria isso (ou a destruição dessas propriedades, p.e., como aconteceu com alguns bancos durante as manifestações).

Maria do Ceu disse...

Não "facebuco". Tenho pena de só ter conseguido ler isto hoje, depois do jogo... Ter-te-ia dito que os miúdos não corriam risco. Houve vários lugares em Portugal onde portugueses e alemães viram juntos o jogo e apreciei as declarações de ambos os lados.
Se ontem me desagradou alguém foi o Pepe. Deixo-te um abraço e parabéns pela nova morada e saudades e digo-te ao ouvido: "É só fumaça! O povo é sereno!" ;)

Maria do Ceu disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Helena disse...

Ceridwen,
grande golo: se os governantes fizessem um discurso tipo morrer de pé para defender a honra do país, tudo seria bem diferente.
A propósito, lembro uma reuniäo dos países em crise, à qual o Passos Coelho nä foi. E era täo importante fazerem uma frente forte, e lutarem unidos para que a Europa olhe para a crise do euro com outros olhos!
Já essa distincäo entre Merkel e alemäes, näo a consigo ver com tanta nitidez. Quando um amigo nosso apela no facebook a que os portugueses e brasileiros presentes no estádio gritem "nazis! nazis!" à equipa alemä, isso é apenas contra a Merkel, ou é sintoma de um sentimento anti-alemäo? (e estava capaz de apostar que ele näo se ensaia nada para comprar no Lidl)
Claro que a questäo que fica em aberto é: qual é a representatividade destes exemplos que conheco de perto? Qual é a percentagem de portugueses que näo se ensaia nada para chamar nazi aos alemäes, e qual é a percentagem de portugueses que protesta quando houve uma enormidade dessas?

Helena disse...

Céu,
que saudades!
Houve um debate intenso no facebook, onde diziam isso mesmo: isto é só da boca para fora.
Será? Numa situacäo de copos e de tensäo como aquele jogo foi, näo há o risco de alguém se sentir muito provocado e comecar a mandar vir ("calem-se, seus nazis!") ou querer ir-se a eles?
Continuo a achar que foi boa ideia dizer àqueles oito miúdos que fossem um bocadinho comedidos na forma de exprimir o seu júbilo. Até porque seria de mau gosto aplaudir aquele massacre em frente aos massacrados.

O que o Matthias contou: algumas pessoas no café ficaram chateadas com a alegria deles. A dona do café disse-lhes que podiam gritar na mesma. Mas ele pediu aos amigos "que se calassem um pouco".

Um amigo alemäo assistiu ao jogo num café em Lisboa. Os poucos alemäes presentes no café estavam caladinhos como ratos. No fim do jogo, dois homens deitaram fogo a uma bandeira alemä que estava num quiosque. Näo havia necessidade...