04 fevereiro 2014

a vida é dura



A vida é dura. Com 16 anos, a minha filha começou a trabalhar em restaurantes para compor a semanada miserável que os pais lhe davam, e para juntar dinheiro para a carta de condução (nós pagamos metade, ela paga o resto). Aos 18 anos foi trabalhar um ano inteiro num centro escolar de um bairro pobre na Bolívia. Cuidou de crianças com piolhos e sarna, viu pequeninos de 1 e 2 anos a ser criados na rua porque os pais não tinham os 15 euros mensais para pagar o infantário, andou a pedir à família e aos amigos alemães que juntassem o dinheiro necessário para tirar crianças da rua. Conviveu diariamente com a pobreza, a doença, o desmazelo de quem se debate com problemas existenciais. Agora, na Alemanha, exige que o seu país abra as fronteiras à miséria do mundo, em vez de as fechar por comodismo e egoísmo. E anda a pensar no montante de impostos que estaria disposta a pagar do seu bolso, do seu trabalho, para que o Estado alemão possa ter uma posição mais solidária com os outros povos. A vida é dura, e ela sabe-o mesmo sem ter passado pelas praxes portuguesas.

A vida é dura. Há tempos, a cidade de Magdeburg autorizou uma manifestação de neonazis que queriam fazer uma homenagem às vítimas dos bombardeamentos nessa cidade. O meu filho juntou-se a mais de 10.000 pessoas que os queriam impedir de desfilar. A manifestação antifa era ilegal, a neonazi era legal. A polícia estava obrigada a proteger os neonazis das acções do meu filho e dos seus amigos. A ideia destes era informarem-se sobre o percurso da manif, irem para lá, e sentarem-se no chão "a descansar". Só que ninguém sabia qual era o percurso. Um deles meteu-se no comboio que trazia os neonazis, e enviava as informações pelo twitter. Se o tivessem descoberto, matavam-no. Morria ao serviço dos valores nos quais acreditava, e a fazer algo de útil para a sua sociedade, assassinado por neonazis que já se sabe serem um perigo para a democracia.
O grupo do meu filho debateu com velhotes que os criticavam ("Desapareçam, seus vadios! Que é que vocês sabem do que é viver numa cidade que está a ser bombardeada?"), apagou rapidamente alguns fogos em contentores do lixo que alguns extremistas tinham ateado, riu-se com as palhaçadas que alguns dos seus faziam em frente aos polícias (e das caras que os polícias faziam para não mostrarem que estavam a achar graça). Antes de regressarem a Berlim, decidiram rasgar os seus cartazes e deixar os bocados num caixote do lixo, para não se meterem em sarilhos com os neonazis que viriam no mesmo comboio - e fizeram-no muito discretamente, não fosse alguns antifas mais acelerados concluirem que eram neonazis e darem-lhes um arraial de pancada. A vida é dura.

Com menos de vinte anos, os meus filhos já sabem que a vida é dura. E já sabem trabalhar com outras pessoas em função de um objectivo comum, apesar das inúmeras diferenças de carácter e sensibilidade. Não precisam de praxe nenhuma para lhes ensinar isso. E nunca estarão disponíveis para pôr os olhos no chão só porque alguém lhes dá essa ordem. Alguém cuja indiscutível autoridade se sustenta na extraordinária façanha de ter entrado na Faculdade antes deles. Para esses, a vida é fácil.

**

Fotos da manif de Magdeburg, em 14.1.2014, que encontrei no Spiegel online:









21 comentários:

lb disse...

Parabéns!
Pelo post, mas antes de mais pelos teus filhos!
Lutz

isabel disse...

Deves ter um orgulho muito grande nos teus filhos, mas sabes porque é que eles também são como são? Porque são teus filhos. É o que eu digo aos meus, têm muito mais responsabilidades. Mas que tudo isso não nos habilite a atirar a primeira pedra. E é isso que eu tenho andado a tentar dizer na última semana e a ser muito mal interpretada.

Helena disse...

Vocês embaraçam-me! :)
Claro que tenho um orgulho enorme nos meus filhos, mas sei que eles são também produto de uma sociedade que se preocupa, debate e conhece (e impõe) limites.
Como a Christina, há inúmeros jovens alemães que no fim do secundário fazem questão de ir trabalhar a servir os mais pobres.
E como estes dois há inúmeros jovens alemães que se manifestam, fazem parte grupos de debate e intervenção política e social.
Calhou de serem meus filhos, mas estamos longe de serem um caso raro na sociedade alemã.

Isabel, nós não estamos a atirar pedras. Estamos a definir rumos. Desde o "sei que não vou por aí" ao debate dos valores que devem estar subjacentes ao "espírito académico".

Margarida Noronha disse...

Muito obrigada e Parabéns. Os filhos também um pouco do nosso percurso. São jovens desses que este mundo precisa e sempre precisou

Rita Maria disse...

É uma caracterização justa e bonita dos teus filhos, mas não é nem uma comparação justa com Portugal nem é uma caracterização equilibrada da juventude alemã: quando me sentei no meu bairro a tentar parar uma manifestação de nazis, juro que não estava a fazer o mesmo em Berlim inteira nem 1% da juventude. Talvez estivessem os que cresceram com acesso à cultura, andaram em boas escolas e têm e conseguem arranjar o dinheiro necessário para experiências internacionais de ajuda ao terceiro mundo.

Há os outros, os que ouvem Schlager, os que mal sabem escrever, os que não têm emprego e não acabam a escola, na outra ponta do extremo, e até há, apesar de os números alemães como sabes não serem famosos a este respeito, uma classe média que manda filhos para a universidade sem lá ter ido - estes, sendo uma minoria, talvez fossem a comparação mais justa com os jovens portugueses que abraçam a praxe e ouvem Quim Barreiros em festas académicas.

Os teus filhos terem tido outras condições para crescer, uma educação melhor, um ambiente mais culto, uma experiência internacional, viagens, enfim, maiores recursos humanos, financeiros e intelectuais não tem nada de mal. Ainda bem que o tiveram, assim possa eu dar aos meus filhos um dia metade disso. E são pessoas extraordinárias per se, de certeza que seriam seres humanos fantásticos de qualquer forma.

Mas acho, sem querer ser ofensiva, que isso os torna um fraco patamar de comparação (aliás, é também por isso que evito falar também da minha situação, por achar que tive privilégios ao crescer que me equiparam para não querer a praxe).

Helena disse...

Rita,
quando disse, ali em cima, que me embaraçam, estava a falar a sério. Não pensei nisto como uma caracterização ou um elogio dos meus filhos. Simplesmente, perante estudantes que afirmam que a praxe é necessária e tem de ser dura porque a vida é dura, limitei-me a recorrer aos exemplos que tenho mais à mão (os dos meus filhos e dos seus amigos) para rebater essa afirmação: a verdadeira preparação para a dureza da vida passa muito ao lado destas dificuldades artificiais criadas por alunos mais velhos para treinar os mais novos.

Também não queria extrapolar dos meus filhos para a juventude alemã, e comparar esta com a portuguesa. Bem sei que a juventude alemã não é toda assim, nem tem de ser. Contudo, e já que falaste nisso, há uma diferença de fundo, e essa comparação posso fazer: aqui, na recepção a novos alunos, não há humilhações nem brutalidades como o que está generalizado em Portugal. As escolas não tolerariam nada disso.
A única coisa que conheço aqui com rituais estranhos para entrada e permanência no grupo são os Studentenverbindungen, olhados com tanta desconfiança. Mas esses são grupos fechados, nos quais só cai mesmo quem faz questão de cair.



Rita Maria disse...

Acho que a única coisa que queria deixar escrito sobre essas afirmações era isto: não são alunos comparáveis, não são de níveis sociais e culturais comparáveis. Numa estatística sobre a probabilidade de filhos de pais que não frequentaram a universidade a virem a frequentar, Portugal está em 10º. A Alemanha está em 18º. Era só isto.

(de resto é verdade, não há rituais de entrada na universidade. Mas há uma grande festa feita à volta de terminar o Abi - se estiveres numa festa de jovens alemães e discutires Abitur, Abistreich, Abifeier e por aí fora tens horas de conversa, horas, é o equivalente para festas de universitários do "então e esse Benfica?". Porque é um momento marcante que foi marcado. Era também disso que falava outro dia quando falava em inventar rituais)

Helena Vasconcelos disse...

É muito simples: os seus filhos são assim porque têm pais inteligentes, fortes e com carácter. Miúdos e miúdas que crescem bem acompanhados, tornam-se pessoas interessantes e interessadas. Tento fazer o mesmo, com as minhas netas. Obrigada.

Helena disse...

Rita,
Em que te baseias para dizer que não são alunos comparáveis, e não são de níveis sociais e culturais comparáveis?
Parece-te que a praxe em Portugal é um fenómeno que só atinge os filhos das classes mais baixas? Duvido muito.
E parece-te que algum jovem de 18 ou 19 anos na Alemanha, se viesse de um nível social baixo e de um grau de ensino menos exigente, se sujeitaria a atirar-se para a água, a rastejar e a pôr os olhos no chão às ordens dos colegas mais velhos? Nenhum, tenho a certeza. Não é uma questão de nível social, é uma questão de consciência dos seus direitos e da sua dignidade. E também de controle social: a sociedade alemã não toleraria este tipo de espectáculo.

O folclore do Abi é um ritual de passagem, mas está muito controlado. Como já contei noutro post: quando os que organizaram as "partidas do Abi" se lembraram de deixar fezes à porta da escola, o curso inteiro foi duramente castigado.

Helena disse...

Helena Vasconcelos,
penso que isto não é só trabalho dos pais ou dos avós. As sociedades nas quais eles cresceram, e em especial as escolas, também ajudaram imenso.

Rita Maria disse...

A maior parte dos jovens que conheço em Portugal que recusaram ser praxados vinham de estratos cultural e economicamente mais elevados. Não é automático, conheço uns de estratos elevados que se deixaram praxar com alegria, mas o contrário é quase absoluto: digo quase porque não quero depender da minha memória para afirmações perentórias, mas não conheço um único caso de pessoa que tenha recusado ser praxada que não tivesse uma formação muito acima da média, normalmente resultante de um nível económico também acima da média.

E são estas pessoas que na Alemanha vão à universidade porque o sistema é muito mais desigual (em cada 100 universitários alemães, 77 são filhos de pais licenciados). E, embora eu saiba que tu estás consciente de que eu não acho as praxes importantes para saber como a vida é dura, também te digo que muitos desses não têm noção nenhuma de que o seja.

Esse retrato da Alemanha que fazes não é um que eu reconheça, acho que estás a tentar comparar o pior de Portugal com a nata alemã. Gosto muito da Alemanha, mas acho mesmo que a estás a ver com óculos cor de rosa, como se diz aí, em parte fruto da tua experiência e em parte porque os teus filhos são quem são e são fantásticos.

Quanto aos rituais, estás enganada, estava a levar o argumento para o outro lado. As pessoas continuam a querer falar sobre o Abi tantos anos depois e com tanta riqueza de detalhes porque os rituais são importantes.

Em Portugal, acabas o 12º aos bocados (as aulas aqui, uma leva de exames, outra leva de exames, uma fase de candidaturas, outra fase de candidaturas) e não acontece nada. Não há ritual.

E como faltam não só rituais mas também desígnios colectivos, esse vazio enche-se (um amigo meu escreveu um post muito interessante sobre a coincidência histórica do fim da luta contra as propinas e do regresso da praxe - desígnios colectivos).

É uma explicação entre muitas, claro, deve haver outras tantas muito boas.

jj.amarante disse...

Helena, estão de parabens os seus filhos e mais quem lhes proporcionou um bom desenvolvimento. Quando eu passei pelo IST em vez de praxe havia uma semana de recepção ao caloiro, com uns convívios com música na associação de estudantes e umas sessões onde os alunos mais velhos avisavam das diferenças entre o liceu e a universidade e da vida no IST. Praxe era em Coimbra, geralmente mal vista em Lisboa e Porto, que acabou em 1969, com a agitação estudantil desse ano.
Entretanto parece que as pessoas se deixaram de preocupar com o tema e ele voltou em força, moderado no IST e noutras universidades mas de uma violência extrema, parece-me que nas universidades criadas há pouco tempo e nas próximas da Lavoura e dos escrementos dos animais.
A classe dominante de Portugal (como de outros países) gostava de humilhar os seus semelhantes, a nossa sociedade era muito estratificada, mas nos anos 60 foram convencidos que as humilhações das praxes não eram uma boa ideia. Entretanto esse debate sobre a maldade das praxes não atingiu as classes que anteriormente não tinham acesso à universidade (com as poucas excepções) e elas renasceram. Bem andam os alemães que se dão ao trabalho de conter os nazis porque a natureza humana evolui apenas ao ritmo do ADN, o que demora milhões de anos, tudo o resto que se obtém muito mais depressa através da civilização (apenas décadas, um ou dois séculos, às vezes um milénio) desaparece rapidamente se não for cuidadosamente mantido.
Gostava de saber onde a Rita Maria foi buscar aqueles 10º e 18º lugares para Portugal e a Alemanha, no critério de acesso à universidade por pessoas em que os pais não tinham licenciatura.

Helena disse...

jj.amarante,
tenho alguma dificuldade em correlacionar o fenómeno praxe com a classe social. Lembro-me de quando a praxe começou a ser implantada no Porto, no princípio dos anos 80 - era um fenómeno de meninos queques e de direita.

Helena disse...

Rita,
seria interessante fazer estatísticas sobre o estrato social dos praxados (e, já agora, estudar os motivos que os movem - como dizias no teu post).

O que estou a tentar dizer é que a vida é dura e as pessoas sabem que é dura porque a vivem, não é preciso praxes para lhes explicar o que elas já sabem, e há maneiras muito mais interessantes e profícuas de fazer ver isso a quem não o sabe ainda.

Não estou a comparar o pior de Portugal com a nata alemã. Estou a afirmar - e sobre isso não tenho a menor dúvida - que nenhum alemão se sujeitaria ao autoritarismo e às humilhações da praxe. Nenhum filho de doutores, nenhum filho de imigrantes desempregados, nenhum universitário e nenhum aprendiz no início da Lehre. Nem sequer os militares: lembras-te do escândalo que foi quando se soube que no exército andavam a treinar os novos com práticas que incluíam algum sadismo? (Leio no Die Welt a descrição das tratantadas que lhes fizeram, e quase me dá vontade de rir: isto que no exército alemão dá direito a processo e a escândalo, é pouco mais que o b-a-ba da recepção ao caloiro em Portugal - e é muito menos do que o que entretanto ficámos a saber que se faz na Lusófona. "Die Opfer, allesamt Wehrpflichtige in der Grundausbildung, wurden in unterschiedlichen Gruppen bei insgesamt vier Nachtmärschen zwischen Juni und September 2004 von "irregulären Kräften" überfallen. Sie wurden gefesselt, bekamen die Augen verbunden, mussten knien, still sein, wurden zu Liegestützen und Kniebeugen gezwungen. Sie wurden mit Wasser abgespritzt - einige bekamen den Schlauch einer Kübelspritze in Mund oder Unterhose gesteckt.")

Em que te baseias para afirmar que os privilegiados alemães que chegam à universidade não têm noção nenhuma de que a vida é dura?
Muitos deles, quando chegam à universidade, já passaram um ano a fazer serviço social em países pobres, ou a dar a volta ao mundo num esquema work & travel, ou a fazer serviço social no seu próprio país. E a esmagadora maioria deles teve uma infância e uma adolescência tramadas: desde os 3 anos de idade mal tinham tempo para brincar (de manhã infantário, à tarde, desporto, dança, inglês, música, desenho e artes manuais). São os que tocam pelo menos um instrumento musical e
praticam pelo menos um desporto, participam nas actividades da paróquia e sei lá que mais.
Isto também é vida dura. Não trocava a minha infância pela deles nem que me pagassem muito.

E, escusado será dizer, os que não chegam à universidade também sabem que a vida é dura. Desde já porque vêem os pais a trabalhar muito para continuarem a viver mal. Ou porque estão a fazer uma formação profissional e têm de se levantar às cinco da manhã, por exemplo, para estar na obra ou na fábrica às sete.

Não, ninguém precisa de "doutores" prepotentes a dar ordens parvas para perceber que a vida é dua.

Quanto aos rituais: são importantes, sem dúvida. Mas que tipo de rituais? Têm mesmo de ser atravessados por autoritarismo e sadismo?

Quanto ao fim da guerra das propinas: a praxe começou a ser instaurada e começou a descarrilar muito antes do início da guerra das propinas. Em 1983, no Porto, já estava a descarrilar. Já andavam a perseguir caloiros nos autocarros, já lhes andavam a estragar roupa e a cortar o cabelo. Lembro-me perfeitamente: na minha faculdade (Economia) já metia medo e asco, e o meu irmão, que entrou para Ciências nesse ano, arranjou de ser apadrinhado por uma amiga minha, para ter a certeza de que não lhe acontecia nenhuma maldade. Ou seja: em 1983 o sadismo e o poder arbitrário já andavam na praxe.
Agora seria interessante ver como eram as estatísticas de acesso ao ensino superior por níveis de rendimento familiar em 1983. O país estava a atravessar uma crise terrível (o FMI interveio em 1977 e regressou em 1983) - não me parece que houvesse muita margem para ajudar os filhos das classes de mais baixos rendimentos a ter acesso ao ensino superior.

Rita Maria disse...

@jjamarante

Tirei do relatório de implementação de Bolonha.

E os 77 de 100 tirei de uma investigação do Deutsches Studentenwerk, que li no Zeit

susskind disse...

Helena, os teus filhos estão, é claro, de parabéns.

Acho que o que a Rita está a dizer é que o grosso da população estudantil não tem tido o "previlégio" de ter experimentado as dificuldades da vida vistas pelos olhos dos outros. Aquilo que ouvem na televisão -- dia sim, dia não -- é que não há lugar para todos, que têm de passar à frente dos outros sob pena de ficarem para trás, a linguagem com que estão familiriarizados através da imagem do cinema e da televisão é "salto-te para cima, vou-te matar", sempre a toda a velocidade, meio segundo por plano, sujeitos a um espectáculo que estimula sempre as pulsões em vez da emoção, que é sempre uma construção, que implica uma lentidão, um tempo para uma pausa, lançam-lhes o pânico em vez da razão, a mentira (a dívida, viver acima das suas posibilidades) em vez da informação e de instrumentos intelectuais que lhes permitam decifrar a realidade, o efémero, a incoerência das avaliações nas escolas, a precaridade, nenhuma esperança de construir com tempo um futuro melhor (seja um ano para conhecer o mundo dos outros ali "ao lado", seja para se construirem a si próprios). Temo bem que isto não seja exclusivo dos portugueses. A praxe pode ser a forma particular de como os estudantes portugueses expressam a sua desorientação; as causas essas são bem mais universais.

Quanto às classes sociais, sem querer ser demasiado cínico, talvez sejam os "meninos queques e de direita" que gritam "mata e esfola", e os outros que "matam e esfolam" para, talvez, um dia, poderem fazer parte.

A tomada de poder do nazismo e do fascismo não resultou de um levantamento popular. Foram as pessoas "de bem", as classes abastadas, que os apoiaram para melhor esmagarem, justamente, aqueles que viam como o "inimigo interior".

Helena disse...

Por favor, parem de me dar os parabéns pelos meus filhos. Tenho muito orgulho neles, é certo, mas nisto que aqui contei são iguais a muitos outros que conheço. É tão óbvio para mim, que nem me dei conta de estar a contar algo especial.

Sinceramente, não sei como é a vida do "grosso" da população estudantil. Parto do princípio que cada pessoa tem o seu fardo para levar, e que a vida não é fácil para ninguém. Pode calhar de ser menos difícil para uns, mas, de um modo geral, as dificuldades não escolhem idade nem classe social. E por isso (lá me vou repetir) não é preciso haver uma praxe para lhes mostrar que a vida é dura.

Também não entendo a praxe como um fenómeno de desorientação perante os tempos que correm, porque os tempos têm sido muito diferentes ao longo dos últimos 30 anos, e a praxe tem vindo a piorar em crescendo desde então.

Rita Maria disse...

Helena, julguei que tinha dito que tinha conhecido também adolescentes das classes altas alemãs que não sabiam que a vida é dura. Também, não exclusivamente. Também em Portugal conheci jovens ricos com actividades extra-curriculares que sabiam como era a vida real e muitos que não sabiam.

Baseio-me nos alemães que conheci socialmente, no meu percurso escolar e académico, em ter trabalhado com outros e lido no jornal sobre outros ainda, não é um estudo científico.

Mas resulta, é verdade, numa perceção da Alemanha e dos jovens alemães diferente da tua.

Sobre o resto, como acho que já sabes que não defendo nem o sadismo, nem a humilhação, nem a praxe, não vale a pena alongar-me.

Helena disse...

Rita, conheces algum jovem alemão que estivesse disposto a sujeitar-se à praxe?

Quanto ao resto: não tenho a menor dúvida que não defendes a praxe. E reafirmo que enriqueceste este debate lembrando que é preciso ouvir quem a faz, e entender por que motivo a faz.

mar disse...

Tenho muitas dúvidas sobre a associação, linear ou não, entre classe social de origem e atitudes perante a praxe. A minha experiência não tem mais valor do que a da Rita mas todas as pessoas contra a praxe que conheço pessoalmente provêm de estratos económicos e sociais mais baixos. Acrescentaria mesmo que é essa origem que fundamenta a nossa posição. Somos filhos e netos de pessoas que tiveram vidas duras, que foram muitas vezes humilhados pelas classes elevadas para quem trabalhavam e cresceram e/ou ainda vivem em meios pequenos (onde a democratização das relações sociais chegou muito mais tarde do que a democratização política). Devido a essa experiência, são pessoas muito conscientes do direito universal a um tratamento digno. Claro que não têm as ferramentas à disposição de pessoas de um nível cultural mais elevado para transmitir esses valores aos seus filhos e netos de uma forma articulada. Obviamente que isso se reflectiu na dificuldade que encontrámos à entrada da universidade para articularmos a nossa posição, sobretudo quando em confronto com colegas mais equipados para discussões desse tipo porque provinham de estratos mais elevados. Acredito que, em contextos de praxe mais agressivos (que felizmente não encontrei), sejam estes que mais temem oferecer resistência. No entanto, mesmo quando não se tem ferramentas (ou se tem ferramentas diferentes, isso já é outra questão), a atitude perante a praxe é sobretudo uma questão de valores. E esses sãos transversais a classes sociais.

(E, já que a Helena insiste, não lhe darei os parabéns pelos filhos que tem.)

Helena disse...

mar,
Obrigadíssima pelos parabéns omitidos!
:)