21 janeiro 2014

the third wave


(fotografia tirada deste post)

Ferreira Fernandes escrevia ontem sobre o nojo que são certas praxes académicas (copiei a sua crónica para o fim deste post). Compreendo-o bem, e de certo modo também entendo que todos tenhamos encolhido os ombros. Lembro-me do momento em que o fiz, em princípios dos anos 80. Andava no 2º ou no 3º ano da Faculdade, e participei em "piquetes" à porta da minha Faculdade, por iniciativa do Movimento Católico de Estudantes. Queríamos prevenir os caloiros sobre o que os esperava, e informar que não tinham de se sujeitar a isso, que mais lhes valia ir para casa, e voltar quando as aulas começassem normalmente. Pensávamos nós, no nosso triste bom senso, que eles faziam questão de entrar na Faculdade porque pensavam que iam perder alguma aula importante...
Só um nos deu ouvidos. Os outros riam, cheios de curiosidade. Dizíamos-lhes: "vão-vos estragar a roupa e cortar o cabelo, vão-vos humilhar". Quais quê. Algumas caloiras comentaram que não queriam perder isso nem por nada, e entraram, numa excitação galinácea. Desistimos de os avisar - "então está bem, se fazem questão..."
Ainda escrevi um texto de opinião para o jornal diocesano, perguntando porque é que a Igreja aceitava participar na fantochada da Bênção das Fitas (estivera na missa, numa catedral repleta de estudantes trajados a rigor que, ainda a cozer a bebedeira, agitavam as fitas cheios de entusiasmo mas nem o Pai-Nosso sabiam rezar). Depois encolhi os ombros.
Isto foi há mais de 30 anos, quando a nossa Associação de Estudantes estava a passar da esquerda para a direita, e a praxe - que nunca tinha existido naqueles termos no Porto - se começou a instalar. Com cada ano que passava, as maldades que faziam aos caloiros tornavam-se mais graves. Parecia-me que os alunos do segundo ano se queriam desforrar do que lhes tinham feito quando eram caloiros, e que o sadismo crescia de modo exponencial. As festas da Queima apimbaram-se cada vez mais. Em vez da crítica política a que me lembro tão bem de assistir, ao colo do meu pai, no fim dos anos 60, surgiu a ordinarice bem regada de cerveja.
Víamos, perguntávamos "onde é que isto vai parar?", e deixávamos andar.

Agora, parece que isto foi parar no horror de estudantes mortos na praia do Meco.

Visto a partir das experiências escolares que tenho feito na Alemanha, é ainda mais inacreditável.
Há dois anos houve um episódio de bullying na escola secundária onde o meu filho andava, envolvendo um grupo de finalistas e um pacto de silêncio. A escola não esteve com meias medidas: cancelou a cerimónia de entrega dos diplomas dos finalistas nesse ano - para todos, porque quem assiste passivamente também é cúmplice. No mesmo ano houve outro episódio de bullying, em que, durante uma aula de ginástica, dois alunos puseram a roupa de um colega no cesto dos papéis. Por um triz não foram todos castigados com a suspensão da viagem no fim do ano. O espectro do nazismo é ainda muito presente: quando, nas reuniões de pais, se falou destes incidentes, foram usadas as palavras que os alemães têm aprendido durante este árduo processo de confronto com a sua própria história. Disse-se, por exemplo, "Mitläufer": os que vão com os outros. As escolas não deixam por mãos alheias a sua responsabilidade de ver e mostrar onde estão os limites do aceitável.

De modo que, ao ler partes do despacho conjunto do reitor da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Mário Moutinho, e do administrador Manuel Damásio, datado desta segunda-feira (cito do Público: "a universidade determinou abrir um inquérito para aclaração dos factos que tiveram lugar durante o fim-de-semana em que ocorreram as mortes dos estudantes". (...) este é o momento em que "se impõe lançar luz sobre a génese do acontecimento", pelo que importa trabalhar no sentido do "cabal esclarecimento do que aconteceu naquela noite na praia do Meco") e ao ver como a Associação Académica Lusófona tentou sacudir a água do capote (cito de novo o Público: “A Académica Lusófona nada tem a ver com as Praxes Académicas, sendo essa actividade praticada e desenvolvida apenas pela COPA [Comissão Organizadora da Praxe Académica]”, respondeu a académica, por e-mail. “Neste momento, o responsável pela COPA é o Dux Honorário Fábio Jerónimo, pelo que ele é o único que pode responder às vossas questões - não temos qualquer tipo de contacto do mesmo”, acrescenta.) dá-me uma enorme tristeza. Então como é, meus senhores responsáveis das Universidades? Andamos a brincar aos Mitläufer, ou quê?

Se me deixassem mandar, era isto que fazia: este ano, proibia o uso do trajo académico na semana da Queima, e usava esse período para debater intensamente a questão da praxe, discutir princípios éticos e estabelecer regras. Nem desfiles, nem serenatas, nem cervejas, nem bênçãos das pastas, nem garraiada, nem nada. Debater, todos os dias, com todos. Participação obrigatória dos alunos em todos os debates e, em caso de falta, exclusão desse aluno, não apenas da sua, mas de todas as universidades portuguesas. (sim: estou mesmo furiosa)
E a Universidade Lusófona parava hoje mesmo tudo, para passar a pente fino as suas praxes, e só recomeçava a vida normal depois de tudo esclarecido. "Tudo" quer dizer: nem aulas, nem exames, nem sequer a secretaria a passar os documentos que permitam aos estudantes passar para outras universidades. Pacto de silêncio?! Se os adultos quisessem realmente, estas criançolas até em afinadíssima polifonia cantavam.

Há tempos andou por aí um filme chamado "A Onda". Houve quem dissesse que devia ser visto obrigatoriamente nas escolas, e houve quem criticasse. Retive esta frase, por ter tanto a ver com a realidade portuguesa: "Faltou no filme a figura do adolescente acossado, o filho do neoliberalismo, que se adaptou às imposições do mercado e corre do estágio para o ginásio e deste para o ensaio de teatro, porque sabe que é o único responsável pelo seu próprio devir." (Christoph Cadenbach, Spiegel Online, via Wikipedia)

Em 1967, numa High School de Palo Alto, o professor Ron Jones fez uma experiência com os seus estudantes, para lhes explicar como foi possível a população alemã ter embarcado no desvario nazi. Traduzo da wikipedia alemã: o professor criou um "movimento" dirigido por ele de forma totalitária, baseado numa disciplina de ferro e punição de todas as infracções às regras. O sentimento de comunidade entusiasmou os alunos, e atraiu até alunos de outras turmas. Jones reconheceu mais tarde que a obediência cega dos alunos lhe deu um prazer especial. Para quebrar a dinâmica própria que a experiência estava a desenvolver, terminou tudo ao quinto dia, e mostrou aos alunos os paralelos que havia entre esse "movimento" e as organizações de juventude nazis.
Mais tarde, Jones escreveu um livro relatando a sua experiência, a que chamou The third wave.

Bem sei que à lei de Godwin se devia acrescentar uma segunda: quando, na internet, alguém diz "nazi", essa afirmação é desvalorizada com a chacota "pronto, lá vem este outra vez com o Godwin!".  Mesmo sabendo isso, arrisco: quanto há de semente de totalitarismo nas praxes académicas que deixamos acontecer em Portugal?
Uniformes, check. Disciplina e obediência, check. Exagerado espírito de comunidade que entorpece a ética e a consciência da própria dignidade, check. Orgulho de pertencer a essa comunidade, check. Que mais é preciso?

Tinha mesmo de acontecer a onda do Meco para percebermos o que há de "onda" na nossa sociedade?

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Crónica do Ferreira Fernandes no DN:

"Há meses, numa rua da minha cidade, vi um jovem humilhado. Levava uma corda ao pescoço e ajoelhava-se quando lhe ordenavam que o fizesse. Não era uma representação teatral, via-se que o ajoelhado não podia ter escolhido outro papel. Era mesmo uma humilhação. E, no entanto, segui. E, no entanto, nenhuma relação humana mais me fez expor, mudar de vida e sofrer consequências do que humilhação de homem ou de mulher. Já tenho idade que me aconselharia a calar perante um daqueles cenários públicos que, não sendo comuns, acontecem, de um homem agredir uma mulher e nunca, nunca a deixei sozinha. E, no entanto, se naquele dia, na minha cidade, em vez do rapaz de baraço fosse uma rapariga de joelhos a mimar um ato sexual, eu seguiria também em frente. É, a grosseria e a violência das praxes académicas - é disso que falo - são tão tolas que nos levam a encolher os ombros, não a indignar-nos... Com isto quero dizer que para com essas praxes somos todos mais ou menos cúmplices, dos dux veteranorum aos críticos. Era bom pensarmos nisso, agora que tantos jornais dizem que a tragédia do Meco poderá ter tido como origem praxes académicas. Sugerem-se responsabilidades de um jovem, o sobrevivente, apesar de ele só ter de dar explicações, mais nada. Responsabilidade têm as universidades, as autoridades académicas, os pais, os estudantes e os transeuntes, como eu, que não disseram o que deviam ter dito perante um nojo: que, aquilo, é um nojo."


16 comentários:

André Pereira Matos disse...

Parabéns pelo post - brilhante como sempre, mas especialmente relevante. Subscrevo da primeira à última palavra. Se não se importar, vou divulgá-lo.

Helena disse...

Obrigada, André.
E claro que não me importo - sinto-me muito honrada!

Lucy disse...

também subscrevo na íntegra...

Pedro disse...

A desculpa de: "eles são adultos, sabem no que se vão meter" não me chega. Talvez por isso tenha sido sempre anti-praxes e raramente as vi sem humilhação. Obrigado por este texto!

Zélia Maria Matos disse...

Muito bem, Helena. Um dos pontos que tocas o "alheamento" das autoridades académicas é um dos aspectos que mais me incomoda. Porque se elas se comportassem devidamente há muito que esta coisa feia e má não tinha tomado o freio nos dentes.

Cristina Torrão disse...

Também gostei muito! A praxe é uma fantochada, nunca gostei. Nem nunca tive traje de estudante!

Portugal estimula muito o elitismo, é por isso que estas coisas acontecem. O desejo de dar nas vistas e mostrar pertencer a uma "elite" é tão forte, que as pessoas esquecem a sua própria dignidade. Um nojo!

jj.amarante disse...

Obrigado Helena, por mais esta excelente contribuição contra a praxe.

barroca disse...

lúcido e explicativo: impecável!

Brisa disse...

Boa-tarde,
Leio-a há já algum tempo, mas hoje tenho de comentar para a felicitar pelo excelente texto sobre um assunto que me tem dado tanto o que pensar. E, se não se importa, partilho-o no facebook.

lino disse...

Grande texto!
Abraço

Helena disse...

Ora bem, meus amigos: obrigada pelas vossas palavras de apoio, mas fizeram-me ver, ali ao lado no facebook, que me posso estar a precipitar com esta ligação da tragédia do Meco à praxe.
Vou deixar o texto como está, deixando aqui a ressalva: no actual momento da investigação não tenho provas de que os jovens morreram devido à praxe. Pode ter sido uma maluquice de gente com vinte anos, uma cervejita a mais, e pouco juízo.
No entanto, não retiro nada à comparação das praxes com a experiência The Third Wave e as sementes de totalitarismo que encerram.

Maria de Jesus Lourinho disse...

Gostei muito. Parabéns.

margarete disse...

Olá, Helena,
O comentário que deixa aqui só me faz gostar mais de si, da persona virtual que conheço. Li uma conversa no Fb de uma amiga em que se discutia o assunto e na qual participava a Helena e outra pessoa que gosto muito de ler também. E concordei com ambas.
Hoje leio isto: http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=3648828
e penso apenas que independentemente do lamentável mote que leva à discussão, é importante que ela não seja de novo interrompida.
Vivo em Coimbra e decidi que não volto a passar ao lado de um episódio humilhante de praxe sem chamar a polícia. Sou nascida no Canadá, em Toronto, se eu lá não hesitaria em fazê-lo, por questões de dignidade humana, porque hei-de usar o argumento "diferenças culturais" para não o fazer em Portugal?

Tenho um enteado de 15 anos cujo perfil me leva a suspeitar que nunca vai permitir tal coisa, ainda assim fico com o estômago revoltado só de o imaginar numa situação destas :S

Um abraço e bom fim de semana!

Helena disse...

Olá Margarete,
tenho estado a pensar nisso mesmo: acaba por não ser assim tão importante para este debate esclarecer se aquelas pessoas entraram na água porque isso fazia parte da praxe e obedeciam a ordens, ou se o fizeram por mera maluquice. O simples facto de suspeitarmos que podiam ter feito aquela maluquice obedecendo a ordens já é um sinal de alarme para parar as praxes.
Mas não antevejo grande sucesso para essa decisão de chamar a polícia. Todos lhe vão dizer que é só brincadeira, e que a polícia não é chamada para o que pessoas com mais de 18 anos decidem fazer no pleno exercício da sua liberdade.
Penso que isto é caso para muito mais que a cidadania de cada um. É um caso para fazer um debate sério na nossa sociedade e para as Universidades tomarem uma posição de força e sem margem para dúvidas.

margarete disse...

sim, reconheço que não vai servir de nada...

sem-se-ver disse...

de novo, chego tarde..

dou sp a onda aos meus alunos de 11º ano, a propósito de manipulação. é mt eficaz, percebem logo.

a praxe é um escândalo. mais grave do que isso, é sintoma de uma doença mortal.