01 dezembro 2013

o Evangelho segundo...


A vinda do Filho do Homem será como no tempo de Noé. Porque, nos dias antes do dilúvio, todos comiam e bebiam, casavam-se e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca. E eles nada perceberam, até que veio o dilúvio e arrastou a todos. Assim acontecerá também na vinda do Filho do Homem. Dois homens estarão a trabalhar no campo: um será levado e o outro será deixado. Duas mulheres estarão a moer no moinho: uma será levada, a outra será deixada. Portanto, vigiai! Porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor. Compreendei bem isto: se o dono da casa soubesse a que horas viria o ladrão, certamente ficaria a vigiar e não deixaria que a sua casa fosse arrombada. Por isso, também vós estai preparados. Porque o Filho do Homem virá na hora em que menos esperardes.
(Mt 24, 37 - 44)

Hoje, durante a leitura do Evangelho, ocorreu-me o lamento do costume: se me deixassem mandar...

Se me deixassem reescrever o Evangelho, retirava daquele texto todo o medo. Trocava o exemplo do ladrão por algo positivo: a primeira vez que um filho diz "mamã", o raio verde, a passagem de um head hunter ou um caçador de talentos, o momento em que o Richard Gere passa na rua onde a Pretty Woman está a trabalhar (ainda agora comecei e já estou a meter água...). Só não usaria o exemplo das virgens à espera do noivo, porque - infelizmente - desse já o próprio Mateus se lembrou.

A sério: não entendo esta passagem do Evangelho. A que propósito se lembrou Mateus de comparar a vinda do Filho do Homem a um ladrão que nos quer roubar a casa?
Esperar a sua vinda não é vigiar em permanente sobressalto como quem teme um ladrão - é viver em alegria e paz.

6 comentários:

jose disse...

Não será heresia?
Já estou há décadas longe das religíões(sem ser um materialista córneo)mas do que me lembro a ideia é mesmo "vigiai" para não serdes apanhados desprevenidos...digo eu já um pouco esquecido.
Desejo o melhor para os habitantes da futura casa.

Helena disse...

José, não me diga que deitei mais uma acha para a fogueira que me vai queimar em lume brando?... ;-)

A educação religiosa que tive também ia muito na direcção do "vigiai, caso contrário depois não vos queixeis de terdes azar na eternidade". Precisei de muito tempo para descobrir um Deus que nos convida a viver hoje em plenitude, em vez de nos fazer andar com medo do castigo eterno.

Lucy disse...

Concordo, Helena. Ontem o frei Bento na homilia disse "como Jesus não explicou o que queria dizer, eu também não sei" e passou a falar da Alegria do Evangelho...

Helena disse...

Lucy, obrigada por este comentário!
Estava a pensar que devo ser maluquinha e ignorante, mas se o Frei Bento também não sabe...
:)

(Também estava a pensar que nem tudo o que está no Evangelho terá sido dito por Jesus. Esta passagem, por exemplo, está em tamanha oposição à parábola do bom pastor, e por outro lado inscreve-se tão bem na lógica da dominação, que uma pessoa fica desconfiada)

Nan disse...

Isto sou eu, que nem crente sou, a deitar-me a adivinhar: talvez o mundo fosse mais assustador e imprevisível (ainda) do que é hoje...

Helena disse...

Nan, não entendi. O que é que fazia o mundo mais assustador do que é?