24 novembro 2013

a economia e a Bolsa - um pequeno caso prático



Há dias, um amigo fez-me um resumo chocante sobre os efeitos da entrada na Bolsa para a empresa onde ele trabalha, uma produtora de máquinas no Sul da Alemanha.

Durante cerca de um século foi uma empresa sólida, com produtos mais caros que os da concorrência mas com óptima fama no mercado. A sua taxa de crescimento era relativamente baixa, mas constante. Os trabalhadores orgulhavam-se muito de fazer parte daquela equipa, e nos tempos livres ostentavam alegremente bonés e t-shirts da firma.
Foi comprada por um grupo económico que tem curvas de crescimento semelhantes a uma montanha russa, e vive permanentemente em função da próxima subida abrupta. Para os directores desta empresa com curvas de pura adrenalina, um gráfico com subida constante mas pouca inclinação parece algo pré-histórico. Nada que mereça admiração, muito menos respeito. Um anacronismo.
Aconteceu, portanto, o que seria de esperar: o grupo decidiu que esta empresa devia entrar na Bolsa, e para isso foi necessário criar um novo departamento, enorme, retirando dinheiro do destinado a pagar o pessoal produtivo. O objectivo último da empresa deixou de ser a qualidade, para dar lugar às contas a apresentar aos accionistas. O curto prazo - os resultados trimestrais - passou a ditar as políticas da empresa. Os trabalhadores trabalham cada vez mais para receber cada vez menos. Andam desmotivados e até envergonhados, devido à redução da qualidade do que produzem. Deixaram de usar bonés com o nome da sua empresa. Qualquer um dos antigos trabalhadores seria capaz de explicar aos directores o que é preciso mudar para a empresa recuperar o nome e a quota de mercado que já teve. Mas os directores não querem saber: vêm e vão com um grau de rotação surpreendentemente alto - e à saída levam os seus milhõezitos consigo, independentemente dos resultados que deixam.

Uma pessoa pergunta-se qual é, afinal de contas, o interesse da Bolsa. E fica com vontade de impor uma regra no pagamento aos directores: esperam cinco anos para receber os milhões combinados, e só se conseguirem provar que a sua gestão contribuiu de facto para os bons resultados da actividade produtiva e para a solidez da empresa.

(sim, eu sei: daqui a nada chega o momento em que estendo a mão e bato na mesinha de cabeceira...)

4 comentários:

Gi disse...

É a tal história: passámos do capitalismo produtivo para o capitalismo especulativo e ficámos todos a perder.

Ant.º das Neves Castanho disse...



Exemplo edificante. Deveria ser ensinado nas Faculdades de Economia em todo o Mundo ocidental.

Não aos Alunos, mas aos Professores.

Helena disse...

A todos, a todos...
(até faz pena, sabes? Pensar no orgulho daqueles trabalhadores, e como essa cultura do trabalho está a ficar doente)

Ant.º das Neves Castanho disse...



Mas não penses que é só aí na ALemanha. Por cá é igualzinho (e em todo o mundo "desenvolvido", parece-me a mim...)!


E faz a mesma pena...