21 outubro 2013

encontro histórico entre Angela Merkel e a autora deste blogue

A todos os que entraram neste post atraídos pelo título: hehehe, nunca ouviram falar em publicidade enganosa?
O verdadeiro título devia ser: "Concerto histórico - cinquentenário da Filarmonia do Sharoun - secção Caras". Mas depois achei que me dava jeito ter aqui 20.000 leitores, por causa da publicidade e assim, e zimbas. Além disso, não sei porque é que eu haveria de fazer os títulos com mais cuidado e honestidade que a maioria dos jornais portugueses.
Em todo o caso: se querem saber do tal encontro histórico, avancem para o antepenúltimo parágrafo do post.



O concerto começou com uma gargalhada: Simon Rattle no seu estrado, a levantar a batuta para um palco vazio. As mãos dele dançavam, e ouvia-se música - vinha das galerias laterais, bem lá em cima.
Seguiram-se os discursos. Curtos, interessantes, divertidos.

Citaram uma carta de Max Frisch endereçada a Hans Scharoun: "raramente aconteceu uma realização de arquitectura contemporânea suscitar em mim tanta alegria como a sua Filarmonia de Berlim. (...) Esta sala é uma das grandes obras do nosso século. O senhor sabe isso, mas quero que saiba também o quanto lhe estamos gratos." Falaram da coincidência histórica: a Filarmonia foi inaugurada no dia em que Adenauer abandonou o governo do país. O presidente da Associação Amigos da Filarmonia lembrou o papel dos berlinenses, que juntaram 1,5 milhões de marcos em donativos (o orçamento inicial andaria pelos 5 milhões de marcos), e suspirou "bons tempos aqueles, quando os cidadãos se uniam para construir alguma coisa, em vez de ser para a impedir". Também falou do descarrilamento dos custos: a obra acabou por custar mais do triplo do que fora orçamentado, "honi soit qui mal y pense". (O Wowereit, presente na sala, deve ter largado umas lagrimitas de "finalmente alguém que me compreende" - ele é o político responsável pelo descalabro do aeroporto de Berlim.) Lembrou ainda uma frase do discurso do então Ministro da Cultura berlinense, no dia da inauguração do edifício: "a Filarmonia não deve ser servida apenas pelo Estado; a ajuda será tanto mais valiosa, quando for fruto de decisões voluntárias e pessoais das pessoas que optem por dar um exemplo de participação cívica, sem a qual nenhuma sociedade livre pode existir", rematando, bem-disposto: "por isso, meus amigos, corram a inscrever-se na Associação Amigos da Filarmonia, corram a contribuir!"
O Wowereit também falou, e foi por ele que fiquei a saber que a Angela Merkel estava na sala. Acho que fez um discurso engraçado, mas já não me lembro do que disse, porque comecei a procurar a chanceler. Estava no bloco A, à esquerda (curioso, todos os políticos estavam a à esquerda - até o Wolfgang Schäuble: esse, estava à extrema esquerda).
Com o meu telemóvel jurássico fiz para os leitores deste blogue uma fotografia tipo "onde está o Wally". Podem encontrar facilmente: Schäuble, Merkel, von Weizsäcker, Wim Wenders, Norbert Lammert.



A peça do Rihm não foi tão má como eu temia. A do Ralph Vaughan Williams, que demorou o mesmo tempo da do Rihm, foi muito mais curta.
Em termos de "música no espaço", a primeira parte do concerto fez demonstrações de:
- dois grupos de músicos, um à esquerda, outro à direita, como Gabrieli já tinha feito na catedral de Veneza ;
- músicos espalhados por toda a sala (Rihm);
- três orquestras no palco: uma de música de câmara mesmo à frente, uma grande à volta desta, uma pequena na parte mais alta do palco (R. V. Williams).



Intervalo. Tentei cuscar os presentes famosos, mas não tenho jeito nenhum para isso, porque a minha memória visual é terrível. Preciso urgentemente de fazer uma assinatura da Gala...

A segunda parte do concerto começou com uma pequena nota de humor: o director da Filarmonia leu uma mensagem de um frequentador habitual, contando que no dia tantos de tal estava à espera da sua acompanhante, desesperado com o atraso, e como ela nunca mais vinha, ele deixou o segundo bilhete ao porteiro, para o dar a quem o quisesse. Passados 3 anos, casou com a senhora que ficou com o bilhete. Não é que tenha muita importância, mas é um retrato de Berlim, e do seu ambiente descomplicado, familiar, divertido.
Também mostraram um filme curto e bem-disposto sobre a história do edifício. A construção, o muro que lhe construíram a poucos metros de distância, e que atirou a Filarmonia para uma espécie de fim do mundo, os concertos tão diversos que por lá passaram, os seus três maestros, a queda do muro e o concerto histórico do Barenboim, oferecido aos habitantes de Berlim Leste (dizia um deles "esperámos 36 anos por este concerto!"). E uma condutora de táxi a dizer que quando leva visitantes da Filarmonia de regresso a casa eles ainda vão a cantarolar.
Não se pode dizer que a Mitsuko Uchida tenha tocado a "sonata ao luar" (1º andamento) de Beethoven - limitou-se a deixar que os seus dedos a sussurrassem ao piano. O que, naquela sala, teve um estranho efeito. Como a acústica é realmente muito boa, o delicado pianissimo fez com que se ouvisse demasiado bem a presença de duas mil pessoas na sala. O restolhar de um programa, o suspense, a própria respiração. Para mim, este foi o momento mais especial e surpreendente daquela noite: parecia que a sala estava intensamente viva, e essa vida abafava o som do piano. E, por uma vez, não estou a falar das tosses - que também as houve, embora poucas.
Por sorte, logo a seguir apresentaram quasi una fantasia de György Kurtágs, de novo com músicos espalhados pela sala toda, o que nos permitiu concentrar-nos na música e esquecer aquela estranha sensação de estar numa sala a fervilhar de vida.



Finalmente, Berlioz: grande sinfonia fúnebre e triunfal. Música fúnebre no concerto comemorativo da casa? Parecia estranho, mas foi só até a música começar. Não me lembro de ter visto a orquestra alguma vez disposta desta maneira: os instrumentos de sopro à frente e no centro, os de cordas nas filas de trás. Os mais de 120 músicos no palco faziam uma barulheira impressionante - se era uma sinfonia fúnebre, com certeza traria a secreta intenção de obrigar os mortos a ressuscitar e a sair do caixão em passo de dança. E quando, ao fundo da sala, se ergueram instrumentos musicais que só me lembro de ter visto nas bandas de música da aldeia, coisas folclóricas de impressionante dimensão, não consegui conter o riso. Aliás: não fui só eu. O público tinha um ar muito alegre.

Depois do concerto fui ainda para a Kammermusiksaal, ao lado, onde o Wim Wenders ia apresentar o filme que fez sobre a Filarmonia. Estavam a servir comida deliciosa, e bons vinhos. Não nos deixaram entrar para a primeira sessão, porque a sala estava repleta, pelo que ficámos por ali a conversar com este e aquele, e a provar a comida e o vinho uma e outra vez.
Assim estávamos pacatamente, quando a primeira sessão acaba - e quem desce as escadas mesmo na minha direcção? Ela mesma. A Angela Merkel. Parou ao meu lado, conversando com alguém que se despedia e lhe desejava uns próximos anos com muitos sucessos. O outro foi-se embora, ela ficou sem interlocutor, olhou em volta, e os seus olhos pararam nos meus. Estavam vazios.
E agora, que faço?, perguntei-me. Num reflexo, a minha atenção foi intensamente atraída para o tecto da sala, como daquela vez que o marido da presidente da Finlândia foi apanhado em flagrante a olhar para o medalhão, digamos assim, da princesa Mary da Dinamarca.
Bem sei que lhe devia ter sorrido, e perguntado simpaticamente se não era possível aliviar a austeridade dos portugueses. Mas temi que ela me lembrasse que os portugueses elegeram e pagam ao seu primeiro-ministro para ele tratar desses assuntos, ou que me dissesse que quem faz o orçamento de Estado de Portugal não é ela.

Depois fui ver o filme do Wim Wenders. Ele estava no meio do palco, com um cesto cheio de óculos para 3D, perguntava com o seu vozeirão "já todos têm óculos?" e ia levar alguns a quem não tinha. Mais uma vez: Berlim!
O filme é amoroso. Não o golpe de génio de Pina, mas uma bonita declaração de amor à Filarmonia.

(Desta vez o Wim Wenders não comeu pipocas)


7 comentários:

Luis Novaes Tito disse...

Este post parece escrito por Hitchcock.
Ficamos sem saber se houve ou não troca de palavras entre a senhora elegante e a outra, se elas tinham a boca cheia de acepipes quando se encontraram no hall e se foi por isso que se limitaram aos olhares e ficou também por saber se a música fúnebre foi uma homenagem feita à senhora mais forte pelo estrebuchar da União Europeia.
Ficamos a aguardar a continuação :)

Gi disse...

Talvez lhe devesses ter dito, Helena, mesmo assim ;-)

Helena disse...

Luis,
o mistério é a alma do negócio!
;-)

Gi,
não estava preparada para uma conversa inteligente e produtiva com ela. Conversa, digo eu?! Nunca passaria de uma frase, ou de uma meia frase.
Se encontrasses a Angela Merkel, e só lhe pudesses dizer meia frase, o que lhe dizias?

sem-se-ver disse...

«guten nacht, frau merkel»*

:)




*espero que esteja bem escrito

Helena disse...

Está muito bem escrito, só tem um erro por palavra. ;-)
"Gute Nacht, Frau Merkel".

Pois, muito engraçada, essa frase. Consegues dizê-la sem sorrir? Eu não. E depois, com que cara vinha aqui ao blogue ou ali ao facebook, depois de ter sorrido para a Angela Merkel?!
Metade dos meus amigos linchavam-me!
;-)

Gi disse...

Meia frase? Ui! Se ao menos o Saramago ainda me pudesse dar uma ajuda com a (falta de) pontuação ;-)

Helena disse...

:)