02 setembro 2013

artigo 3º, 2.



O vídeo está no idioma original - tragicamente, desta vez não se pode desconfiar que a culpa seja do tradutor. E os aplausos não parecem gravação de sitcom. Como portuguesa que me prezo, a primeira reacção foi a piada: olha aqui um nicho de mercado! Vou imprimir a Constituição da República Portuguesa em rolos de papel higiénico, vão-se vender como papos-secos.

Lembrei-me então dos prisioneiros em Guantánamo: homens que vivem num limbo legal, despojados de direitos, completamente à mercê da prepotência dos guardas e dos responsáveis do campo de concentração - e que fizeram um motim que se ouviu no mundo inteiro quando um energúmeno ameaçou deitar um Corão pela sanita abaixo.

No momento em que o primeiro-ministro ignora algo tão básico como "O Estado subordina-se à Constituição e funda-se na legalidade democrática" (para azar dele, é o artigo 3º da Constituição, vem logo na primeira página - nem pode alegar que a tem andado a ler aos bocadinhos, à noite, mas adormece ao fim de duas páginas), e na presidência da República não há sinais de alerta vermelho perante a desonra do presidente (art. 127º, 3. - "Juro por minha honra desempenhar fielmente as funções em que fico investido e defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa."), pergunto: e nós?

Há tanto tempo a viver em indigência democrática, seremos capazes de evitar que se cruze uma fronteira que devia ser intransponível?
Ou vamos aproveitar a minha ideia de negócio (tanto mais que até se criam uns postos de trabalho), mandando a Constituição pela sanita?

1 comentário:

Carlos Azevedo disse...

Uma vergonha -- mais uma.