07 setembro 2012

"a Europa começa em Atenas"

A revista alemã Stern tem na sua edição de 30 de Agosto alguns textos interessantes sobre a crise do euro. Gostei de ler, e parece-me útil que em Portugal se saiba como é que na Alemanha se fala sobre a crise.

O primeiro é logo o editorial do chefe de redacção, Andreas Petzold. Começa assim:
(já sabem: a tradução é do irmão mais rápido do Speedy Gonzalez)

É lamentável que o palco político volta e meia seja ocupado com grande estrondo por espíritos mesquinhos da CSU e da FDP. Esses Dobrindts, Seehofers, Söders, Dörings e Röslers que repetem um discurso de saída da Grécia, e até gostariam de abandonar os outros "desmotivados" (a Espanha e a Itália) ao seu destino de devedores. Provavelmente pensarão que devem alimentar o que presumem ser o gosto dos cidadãos por soluções simples: quem não poupa, sai. Mas como é que não ocorre a estes espertinhos que, se a Grécia sair, no sul da Europa vai haver uma corrida às contas bancárias de tal ordem que fará vacilar todo o sistema do euro? E que o Banco Central Europeu pode bem ser obrigado a comprar títulos da dívida de todos os países porque fora da Europa não haverá mais compradores? Esses espertinhos são também responsáveis pela saída do espaço euro de quinze mil milhões de euros do gigante Shell. Dinheiro que falta nos circuitos financeiros europeus. Porque é que dão rédea solta a estes assassinos da confiança? É fácil de imaginar: fazem contas mesquinhas, que se traduzem em resultados nas sondagens. Completamente a leste de uma ideia da Europa. 
Contudo, valeria a pena continuar a trabalhar nesta grande ideia, como a reportagem de Jan Christoph Wiechmann mostra. Ele dedicou-se às questões que, no decorrer desta crise, têm caído no esquecimento: o que é um europeu? Sentimo-nos europeus? Que Europa queremos? O que significa para nós a Europa, para lá da união bancária e do pacto fiscal?
(...)
Após 120 entrevistas, tão diferentes como os países deste fantástico continente, ficou a sensação de que o projecto Europa continua a ser muito querido dos europeus, apesar da recessão e da crise duradoura; sentem-se insatisfeitos com Bruxelas e os conflitos entre os Estados, mas não querem regressar ao marco e à peseta; quanto mais jovens os interrogados, e quanto mais vezes estiveram no estrangeiro, maior é o desejo de uma Europa unida, na qual possam estudar, trabalhar, viver e amar sem a existência de fronteiras. Para eles, a Europa não é um tema, mas algo natural e evidente.

Algumas páginas à frente, Hans-Ulrich Jörges escreve na sua coluna:

Firmeza e acções valem a pena - pagam, literalmente, em euros e cêntimos. O anúncio feito por Mario Draghi, o presidente do Banco Central Europeu, sobre um novo programa para a compra de títulos das dívidas públicas para estabilizar a zona euro foi um duro golpe para a especulação. Os hedgefonds - os abutres e comem-tudo dos mercados financeiros - capitularam. Tinham apostado na destruição e na queda dos valores da Bolsa, tinham vendido a prazo acções que não detinham - confiando que, no momento em que tivessem de as entregar, as comprariam abaixo do preço de venda. Devido a Draghi, perderam esse negócio com as acções europeias - e compraram. O fracasso dos especuladores contribuiu para a subida do preço das acções, em contraste com o espírito de crise europeu que imperara durante o Verão. Touché!
Podemos aprender com isso. A defesa da zona euro, incondicional e por todos os meios, de Atenas a Helsínquia, é também (e sobretudo, nestes tempos) um contributo poderoso para o combate à especulação e para civilizar os mercados. Opostamente, os discursos sobre o fim do bloco euro e o fracasso da Grécia servem os negócios dos predadores, na sua maior parte anglo-americanos. Se Atenas fosse expulsa do euro, isso seria um sinal da fragilidade europeia num momento histórico - e praticamente um convite aos abutres para se lançarem sobre a Espanha e a Itália, eventualmente até a França. Por isso é neste momento prioridade máxima defender a Europa - em toda a linha.
Ou seja: não é da Grécia que se deve fazer um exemplo, mas da especulação: todos esses fundos, bancos e multinacionais que farejam e deslocam milhares de milhões de um lado para o outro - para fora da zona de risco e para dentro dos nichos de lucros -, que já fizeram contas ao fim do euro, e até o praticam com precisão militar - o pânico das pessoas que não sabem o que lhes vai acontecer, a corrida às contas bancárias. 
Ao ouvir a vozearia que vem de Munique, perguntamo-nos o que é maior: a infâmia ou a lerdice dos seus autores. No estrangeiro, Angela Merkel é repetidamente representada com cruz suástica e em uniforme nazi. Markus Söder, que aparece em frente às câmaras no papel de sorridente crocodilo da CSU, oferece a banda sonora para estas imagens.
"Fazer da Grécia um exemplo": após 1945, este tipo de frases era considerado Lingua Tertii Imperii, indizível para os alemães. E que dizer do espírito cristão deste experiente orador de domingo, quando logo a seguir lembra a alegada sabedoria dos montanhistas que sabem cortar a corda quando a queda de um companheiro ameaça precipitá-los para o abismo?

No abismo? A Grécia não representa nem 4% do conjunto da dívida pública da zona euro. Ajudar a suportar esta dívida é um desafio demasiado grande para a força e a solidariedade europeias? É certo que a política ateniense tem de mostrar uma capacidade de acção que liberte os seus companheiros das calamidades da sua política interna; mas aos gregos já foi exigido muito mais do que qualquer outro povo europeu teria suportado. O analista financeiro ateniense Panos Panagiotou publicou um balanço no Süddeutsche Zeitung: nunca houve tal redução de salários e reformas num país desenvolvido, "o nível de vida e o poder de compra dos cidadãos desceu para metade". O banco central irlandês calcula que as restrições nas despesas e os aumentos de impostos na Grécia representam 20% do volume económico total nos dois últimos anos - cinco vezes mais que a Espanha e Portugal juntos. 
Afinal de contas, em que loucura de construção irreflectida nos perdemos? Se Atenas fosse expulsa do euro e assim deixasse de poder pagar as contas, todos os créditos de auxílio estariam perdidos - só no primeiro pacote vão 110 mil milhões de euros. Por outras palavras: se a Grécia se conseguir salvar, nós ganhamos com juros; se fracassar, perdemos tudo. Dito de forma ainda mais simples: se a Grécia sair, em vez de poupar vamos pagar. Atirado à miséria, esse país teria antes de mais direito a ajudas da União Europeia, já que continuaria a ser seu membro. A catástrofe sairia ainda mais cara.
A tão alardeada proposta de saída da Grécia é tão absurda que dói. 

A dívida pública grega ronda os 300 mil milhões de euros. Só o auxílio ao Hypo Real Estate (HRE) aumentou a dívida pública alemã em 200 mil milhões de euros. É demais para nós? Isso é grotesco. A Europa começa em Atenas - e terminará também aí, se os cegos da História levarem a melhor.   


2 comentários:

Goldfish disse...

Obrigada pela tradução, de fato é ótimo sabermos como é que estas questões estão a ser tratadas na Alemanha. E os parabéns ao irmão do Speedy, é ver tradutores oficiais que não lhe chegam aos calcanhares! Eu sei que não conheço o texto de base mas só o facto de a gramática estar correta - ai, este acordo... - e a leitura ser fácil e clara é quase um milagre.

Helena disse...

Goldfish,
há outras vozes, claro. O presseurope está cheio de traduções de artigos em jornais que criticam a acção do Draghi. Mas gostei muito desta abordagem, e achei que era preciso dar-lhe eco em português.
Quanto à tradução: obrigada pelo elogio! O irmão do Speedy ficou todo orgulhoso - mas conhece bem os seus pés de barro...