30 maio 2012

Roma! (7)

Sábado de manhã em Trastevere.


("fritti d'autore", hihihi)






A farmácia-museu de Santa Maria della Scalla, do séc. XVII, só abre em determinados dias de determinados meses, e no sábado passado estava fechada. Uma maçada, pois lá teremos de voltar a Roma.

Numa das praças havia um carro militar, e soldados na rua. O Robert, veterano dos protestos contra a guerra no Vietname, foi-lhes perguntar o que estavam ali a fazer.
- Garantir a segurança.
- A segurança de quem? Contra quem?
Ficou sem resposta.
Mais tarde, iria ter com uns carabinieri para perguntar para onde ia um autocarro cheio de colegas deles, que tinha passado à nossa frente. Começaram por olhá-lo com desconfiança, mas depois explicaram que havia mudança da guarda num edifício governamental.
O Robert move-se quase no limite do "desrespeito à autoridade" - admiro-lhe a tenacidade dos porquês. É preciso haver mais gente assim.

Em Santa Maria de Trastevere havia baptizados, e já estavam a preparar casamentos. Ah, o mês de Maio... 

(Um minuto antes, a cena era formidável: o homem que está de costas para mim não tinha ainda chegado, e era a criança que estava no centro, de costas para mim, com toda a família em ataques de sorrisinhos e gritinhos parvos que acontecem na presença de um bebé. Mas não tive coragem de fazer essa fotografia. Nunca serei um bom fotógrafo de ocasião...)




Em frente aos mosaicos medievais do altar, a Linda comentou, fascinada: "this Maria is dressed like a male bird". Hehehe, like a male bird. Fiz logo fotografias:



E por falar em pássaros (para ver melhor carreguem na imagem):


Na capela à esquerda do altar principal havia um fresco de fins do séc. XVI, um quadro muito estranho:


Uma mulher vestida como um papa?! Rodeada de mulheres?! Nas costas da cúria?! Diz que é uma cena do concílio de Trento, e que as mulheres na frente do quadro são figuras alegóricas. Pois sim, chamemos-lhe alegoria, e deixemos esta provocação atravessar os séculos...


Ao fundo da igreja encontrei um Santo António coberto de papelinhos. Com que fé, com que desespero, com que esperança lhe escreverão todas aquelas mensagens?



Queríamos ir ver o êxtase de Ludovica Albertoni, uma escultura de Bernini na igreja de San Francesco a Ripa, mas tinha acabado de fechar para o almoço. Por sorte havia um frade que, numa porta ao lado, dava um saco de comida a pedintes, a quem pudemos perguntar a que horas reabria e onde podíamos almoçar. Ele apontou o restaurante do outro lado da praça, o Da Paolo, e que lhes disséssemos que íamos da parte dos frades. Não sei se foi isso que tornou os pratos do dia tão bons, mas saiu-nos um óptimo restaurante. A pasta era fora de série (os molhos eram apenas bastante bons), e as tripas que encomendei foram das melhores que alguma vez comi.


Uma velhota na casa vizinha espreitava a rua. Primeiro abertamente, e depois os nossos pratos, por trás das suas persianas. É desagradável ter alguém a espreitar-nos os pratos e as conversas a um metro de distância, meio escondida. Apetecia sugerir-lhe que fosse antes ler as cartinhas que escreveram ao santo.




Uma pedinte - a que minutos atrás tinha recebido um saco enorme de comida dos franciscanos - apareceu a implorar uma esmola. "Tenho fome", fazia ela com a voz em tremolo. Disse-lhe que os franciscanos davam comida, ela respondeu que estavam fechados. Os pedintes em Roma impressionam, porque fazem da negação da sua dignidade um modo de vida. Mas isto sou eu a falar, que vivo num país cujos residentes não precisam de recorrer a nada disto para terem uma vida digna.

O almoço, incluindo uma garrafa de vinho, cafés e sobremesas (boas!) foi muito barato (para Roma) - uns 15 euros por pessoa. Para quem quiser, aqui vai a recomendação de amiga: Trattoria da Paolo, no largo de San Francesco a Ripa, em Trastevere.

Entretanto a igreja abriu, e fomos ver o famoso Bernini. Um homem preparava os bancos para um casamento, cobria-os com um rico tecido vermelho e uma paciência de chinês.


O famoso Bernini não nos desiludiu. Aquela beata de saia revolta, aquele ar de - sim... - êxtase. A posição das mãos. Cada vez desconfio mais dos antigos - eles sabiam-na toda! Só me pergunto se estas cenas eram vendidas à Santa Madre como alegoria, como liberdade artística ou com uma piscadela de olhos de como quem diz "com a verdade me enganas".



Em todo o caso: não me lembro de alguma vez ter visto tamanha rebaldaria de costumes e tanta pouca-vergonhice como vi nestas igrejas e nestes aposentos papais da renascença e do barroco.

Saímos pelas ruas, sem destino certo.








Em frente a uma casa perto da igreja dos franciscanos encontrámos cinco Stolpersteine no chão. No dia 16 de outubro de 1943 a família Citoni foi levada da sua casa, naquela rua de Trastevere, para Auschwitz. Os filhos, que tinham 3, 5 e 7 anos, foram assassinados uma semana mais tarde. Dos pais, não se sabe onde nem quando morreram.
Aquelas pedras lembraram-me uma crónica que lera dias antes, a propósito do novo livro do Sarrazin, no qual ele critica o actual  endividamento alemão para salvar o euro, por o ver ligado ao eterno sentimento de culpa e responsabilidade pelo Holocausto. Comentário irónico na crónica: bom, se com o euro fosse possível resolver o Holocausto, até nos saía barato... pois que quantia poderia alguma vez apagar este crime?
Com quanto dinheiro se pode iludir a dor desta Giuseppina Anita, nascida em 1940, enviada de Roma para Auschwitz em 1943?



Decidimos ir ao Palazzo Corsini. Mais barroco, mais renascença, mais malcriadices. Pensávamos nós - mas não, que aquilo nem era igreja nem era palácio papal...
A senhora na caixa tentou vender-nos os bilhetes mais baratos possíveis: alguém tem mais de 65 anos? Alguém é professor? "Bem, eu dou aulas...", responderam dois de nós, e ela sorriu e cobrou 10 euros para o grupo de quatro pessoas. Só por ser tão simpática, perguntei-lhe se podia fazer fotografias, e como ela disse que não eu não fiz.
Logo na primeira sala, onde está a caixa, há um tríptico de Fra' Angelico que justifica a visita àquele museu, e uma estadia de vários dias: impressionante a expressão no rosto de cada uma daquelas figuras.



Também o São João Baptista de Caravaggio justifica a visita, e por sorte lembraram-se de lhe pôr um banco à frente. Também a escultura Psyché de John Gibson valeria a entrada, mas de momento está no Castel Sant'Angelo (o que uma turista se alegra quando consegue juntar as pecinhas do puzzle e vê que já conhece e até já viu a peça que falta em determinada exposição...). E há um Murillo com uma Maria muito humana, muito terra-a-terra. E um Rubens igual a si próprio. O próprio edifício justifica a visita, mas isso pode-se dizer praticamente de metade das casas de Roma, não conta.
O que é pena é a iluminação dos quadros, terrível. Se me deixassem mandar...

O Joachim e eu saímos de lá para fazer mais um pouco de power shopping, e aproveitámos para passar em frente ao restaurante Sofia, para termos a certeza que era verdade. Era verdade, é mesmo verdade.
Por causa das manifestações no centro da cidade voltámos a casa a pé, parámos numa gelataria nova muito boa, a grom, numa esquina abaixo do Giolitti. Aaah, caramelo com sal rosa do Himalaia, aaaah, chocolate amargo, aaaah, tudo.

Depois fomos ter com o Robert e a Linda a um tal de restaurante Trilussa, seguindo as indicações muito vagas que nos deram: um restaurante enorme, toda a gente conhece, perto da piazza Gioachino Belli, vê-se logo.
O perto deles era a umas boas centenas de metros por ruas labirínticas, e ninguém tinha ouvido falar. Chegamos com quase uma hora de atraso. Nada a que o restaurante não esteja habituado: o que eles se atrasaram para nos servir a água, o vinho, os pratos... A comida era boa, mas o serviço era uma catástrofe. De modo que no fim dos secondi pagámos e fomos comer a sobremesa ao outro lado da cidade, à Sofia. Aaah, Sofia!



***

No domingo de manhã aproveitámos a porta aberta da igreja em frente à nossa casa, e fomos espreitar. Tinha alguns quadros do séc. XX. Um deles mostrava uma cena em frente a Auschwitz: Maria, ou talvez uma freira, consola um prisioneiro junto ao qual há uma mala com a estrela de David, segurando-lhe a cabeça com uma mão e uma cruz com a outra. Eu achei a cena de uma arrogância insuportável, o Robert ficou furioso: "A Igreja Católica, que ao longo de dois mil anos preparou o terreno para o Holocausto, não pode vender-se agora como aquela que consola as vítimas. Devia pôr-se de joelhos e pedir desculpa!" Saímos da igreja, mas ele continuava a zurzir nos franciscanos, que geraram e alimentaram o anti-semitismo onde não o havia, nos papas, em toda essa cambada de cínicos sem vergonha.

Para a despedida da cidade, fomos mais uma vez até Campo de' Fiori.
"Adeus, Giordano Bruno", disse o Robert para a estátua. "Talvez seja esta a última vez que nos vemos."
Eu fiquei triste, a Linda quase chorou. Ela tem uns quinze anos menos que o Robert. Se para mim já é duro assistir a este lento despedir dos lugares que nos foram importantes, que sentirá ela ao ver o marido fechar contas à medida que vê a morte aproximar-se?

À despedida, no aeroporto, já estávamos mais animados. Do Giordano Bruno não sei, mas eu cá farei os possíveis para me encontrar ainda muitas vezes com aqueles dois amigos!

3 comentários:

Paulo disse...

Adorei as reportagens de Roma. Nem sei de qual gostei mais, mas o episódio de hoje é um sério candidato.

A papisa... se calhar é a papisa Joana, não?

Maria vestida como um "male bird", ahahah.

Tripas à moda de Roma? Não lhes põem ao menos uns feijõezinhos à volta?

Os êxtases de Bernini, quem mos tira...

Etc.

Helena disse...

Parece que nunca houve papisa, que eles antes de eleger o papa metiam-lhes as mãos por baixo das saias para ver se era mesmo menino.
Será que ainda fazem isso? (que segredos se seconderão naquele sorriso, quando assomam à janela para pela primeira vez se mostrarem ao povo nas suas roupagens de papa?...)

Sim, também senti a falta do feijão, mas em Roma sê romano. As tripas estavam uma delícia, é o que importa.

Helena disse...

E agora me lembro que me esqueci de mais um detalhe importante.
Lá vou eu para o "Roma!(8)"...