29 maio 2012

Berlim meio metro ao lado

Estou com o Der Terrorist: como é que isto chega a ser notícia?
E acrescento, depois de ler os posts com ligação para essa notícia: não é por aí. Rir de um incidente sem importância e chamar "sopeira" e "bola de Berlim" à Angela Merkel não é o caminho para o debate democrático que nos é exigido a todos. Não é o caminho para nada, excepto para o beco sem saída do ódio difuso e da pena de si próprio. 

Para o caso de ser preciso fazer um desenho: o chanceler alemão não é um paizinho como Salazar, que toma conta do país e do povo sem ter dúvidas e sem cometer erros. Cresçam, pessoas.

(E se já se estão a preparar para rir da falta de organização da "sopeirinha", que não consegue inaugurar o novo aeroporto de Berlim no prazo marcado, nem controlar os custos do novo terminal (que praticamente duplicaram), vou já adiantando que essa questão não é da responsabilidade da chanceler, e que - se quiserem - me posso dar ao trabalho de ver quem vai por estes dias para a rua devido a esta falha inaceitável, e que consequências haverá quando os resultados da comissão de investigação forem publicados. Penso que é coisa para meia dúzia de meses, e vai haver consequências.)

10 comentários:

sem-se-ver disse...

claro que é notícia. como não seria, Helena? é inadmissivel que um presidente de um país (aliás, que QUALQUER cidadão de um país) não saiba localizar a sua capital!!

pelo amor de deus...

Helena disse...

não invoques o nome do dito em vão, moça! ;-)

Não.
Primeiro, localizar Berlim é mais difícil que localizar Lisboa (e duvido que todos os políticos portugueses soubessem localizar Lisboa, às tantas iam atirar para Carcavelos). Sim: quantos portugueses saberão a diferença entre Lisboa e Cascais?
Segundo, por mim nem precisa de saber quanto é 2+2. Se souber usar a calculadora...
Saber essas coisas não é o que faz um bom chanceler. Não gastem munição com fraca caça, faz de vocês caçadores ridículos.

Anónimo disse...

Em vez de pegarem em gaffes como o do coiso, talvez fosse falar acerca do que não conhecem. Como por exemplo, ter ouvido discursos ou entrevistas de um político. Não tenho qualquer dúvida de que Merkel é uma pessoa inteligente eom uma sólida formação cultural. Física durante bastantes anos e com uma formação humanística por ser filha de um pastor protestante. As mesmas coisas eram ditas de Helmut Kohl que hoje é apresentado como um génio com enorme visão. No passado era o rei das gaffes. A última entrevista a Dirk Kurbjuweit no Spiegel, que sendo um crítico se revela surpreendido com a entrevistada.
O que é curioso é a arrogância intelectual de quem nunca percebeu por que motivo a moeda é um factor de identidade da Alemanha, por motivos históricos, e continuando a falar do que se passa como se se tratasse de um assunto de mercearia. Sem perceber que os princípios do tratado de Maastricht foram uma garantia respeitante ao modo de vida de uma comunidade política, logo da democracia.De resto sem conseguir perceber por que motivo o SPD rejeita eurobonds e e aprovou o travão constitucional à dívida pública.

Pedro

Helena disse...

Há aqui um concurso televisivo que põe miúdos da escola primária, de um lado, e adultos famosos, do outro, a responder a questões. Claro que perguntam aquilo que os miúdos aprendem na escola primária, e os miúdos volta e meia ganham aos adultos.
Mas é esse o saber que é realmente importante para ser um bom político?

A propósito: para ajudar a fazer os mapas do Viagem a Tralalá gastei horas e horas a olhar para os mapas de Berlim e da Europa. Não é nada fácil. Cidades onde já morei, inclusivamente. Não é fácil localizá-las num mapa sem nomes. E localizar Berlim num mapa sem fronteiras nem rios, é lixado.
Mais ainda se estás naqueles dez minutinhos com um grupo de jovens, entre uma cimeira não sei quê e uma reunião importantíssima em que vais decidir se mandas para a rua um ministro. Ou algo assim.

A. Castanho disse...

Bem, bem, não sei se é assim tão irrelevante estar à frente dos destinos de um País como a Alemanha e de repente, numa situação corriqueira e descontraída, não conseguir responder a uma pergunta fácil, feita aliás por si própria, e perante a plateia mais exigente que uma pessoa pública pode ter: os Alunos de uma Escola, isto é, os Filhos da Nação!


E logo sendo a perguntinha precisamente localizar a Capital do seu País - não é Bona, nem sequer Königsberg! - num Mapa europeu! E fazê-lo com um erro não apenas de MILHARES de quilómetros, como para Nordeste, para cima da velha e arqui-inimiga Mãe Rússia, quase já para lá dos Urais!


Se isto não é notícia...

Helena disse...

Ela está à frente do destino da Alemanha, e não de uma sociedade de cartografia ou de um concurso televisivo "teste os seus conhecimentos de geografia".

Se te pusessem o mapa de Lisboa à frente, apenas com o traço da fronteira da cidade, e te dissessem para localizar a tua rua em menos de três segundos, que percentagem de erro ias ter?

Sobretudo: se te perguntassem isso, sabendo tu que não tens tempo para pensar.
Era importante ter também isto em conta: ela deve ter estado no máximo cinco minutos com aqueles miúdos. Não tem tempo para mais. O negócio dela não é perder tempo e neurónios a localizar Berlim num mapa continental em branco. Nem tem de ser.

E ainda bem que foi parar à Rússia. Sabe-se lá o que ia ser se tivesse acertado na Polónia, ou na França.

Anónimo disse...

Helena, com esses argumentos não me convences, desculpa.


Há um lado simbólico no poder que simplesmente não pode ser ignorado. Se ela não está na tv nem é geógrafa, o mesmo poderão dizer os Alunos a quem obrigam a responder às mesmas perguntas!


Aliás, podem até tirar a concomitante conclusão perigosa: se ela chegou onde chegou e não sabe o que nos obrigam a saber, então nós ao perder tempo com isto nunca chegaremos a lado nenhum. Certo?


Se me "pusessem no lugar dela" é uma questão completamente irrelevante - eu não tenho funções de representação! Mas imagino se me encontrasse numa reunião na CML em representação do meu Condomínio e fizesse confusão com a minha rua ou com o meu prédio, podes ter a certezinha de que a minha credibilidade nessa reunião sairia francamente prejudicada...

E se uma Chanceler não tem mais do que cinco minutos - e apenas virtuais, porque afinal a cabeça dela estava noutro lado (quem sabe se em Moscovo..) - para aturar "insignificantes criancinhas", que são todavia o Futuro da Nação que ela governa, então não se prestasse a este tipo de falsidades. Todos erramos, é certo. Mas nem todos sabemos é tirar as consequências dos nossos erros.


Já quanto à Polónia ou à França, acho que se falares com um Bielo-russo, um moscovita, ou um ucraniano de certa idade, não sei se concordarão muito com o teu último parágrafo. Há feridas que parecem fechadas, mas de tão profundas terem sido o melhor mesmo é não raspar demasiado nelas...

Anónimo disse...

Desculpa ter ido como "anónimo", mas é muito mais rápido...


A. Castanho.

Helena disse...

Ai que vamos ter de concordar em discordar, A. Castanho!

Arranja aí um mapa de Lisboa sem ruas, e diz-me em três segundos onde moras. E atenção: tu estás preparado, já andamos a falar disto há dias.

Ou então, arranja um da Península Ibérica sem rios, e diz onde fica Madrid. Ainda vais arranjar um sarilho com as regiões autónomas...

A. Castanho disse...

Dá-me então um problema bastante mais difícil (ao menos que seja o mapa do Porto ou do FUnchal sem ruas, ou o do Brasil sem as fronteiras dos Estados...), pois o que me propões não vale, até porque eu tenho a obrigação profissional de fazer esse tipo de tarefas muito bem (para além de ser desde sempre um apaixonado por Geografia...).


E já agora muito obrigado por me comparares com a Ângela Merkel! Apesar do que se diz por aí dela (quase sempre injustamente...), uma tal comparação é para mim extremamente lisonjeira - o que não quer dizer que me sinta inibido de a criticar quanto ao significado político e sobretudo simbólico desta sua enorme "gaffe".


Que os alemães (e os russos) lhe perdoem...