06 abril 2012

rapaz de onze anos sugere forma para a Grécia não pôr em risco a sua estabilidade e o crescimento se sair da zona euro

A notícia que veio no DN:

Prémio económico

Rapaz de 11 anos sugere forma para Grécia sair do euro

Jurre Hermans é um jovem holandês, agora com 11 anos, e juntou-se ao coro de pessoas que apelam à saída da Grécia da moeda única. O holandês ganhou uma menção honrosa no prémio económico Wolfson para o melhor plano de contingência em caso de um ou vários estados-membros saírem da zona euro.
O jovem de Breedenbroek, no leste do país, ganhou 100 euros em vouchers pelo seu plano extremamente simples para a saída da república helénica do bloco monetário, explica o The Guardian. Herman sugeriu que os gregos deviam ser forçados a trocar os seus euros por dracmas, para que o Governo grego pague as suas dívidas com os euros que recolher.

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Ora bem: tinham de formular a notícia desta maneira? Tinham mesmo de escrever assim?
Para já, o rapaz "não se juntou ao coro de pessoas que apelam à saída da Grécia da moeda única". O rapaz respondeu à pergunta do concurso, que era: "No caso de um Estado sair da zona euro, como pode continuar a assegurar a estabilidade e o crescimento?"
Também não acho muita graça à formulação: "o holandês" - é uma criança, não é "um holandês". Será que esta formulação é inocente? Havia necessidade?
Aqui fique dito mais uma vez: em Portugal há cada vez mais um despudorado discurso de xenofobia contra os países ricos do centro da Europa. 

A resposta do miúdo: obrigar as pessoas do país a trocar todos os seus euros pela nova moeda nacional, e com esses euros pagar a dívida. Numa primeira fase, não estão a perder nada - e o que acontecer com a nova moeda é aquilo que o país for capaz de fazer de si próprio. Eu, num momento de maior cinismo, estaria capaz de apostar que, se todas as poupanças e especialmente as grandes fortunas do país estivessem em dracmas e não pudessem ser convertidos noutra divisa, a economia nacional e a moeda iriam viver uma extraordinária fase de pujança...

A ideia parece-me interessante. Se a Grécia voltasse à dracma, era muito melhor recomeçar sem dívidas e com uma moeda que obriga todos a uma verdadeira co-responsabilização, em vez de deixar que os mais ricos ponham as suas reservas em euros num local seguro e livre de impostos, e os mais pobres paguem o preço horroroso desta crise. Eu não teria problemas em exigir essa troca de euros por dracmas às pessoas e empresas que enriqueceram à custa da corrupção e da manipulação das leis, ou às pessoas que têm um excelente nível de vida mas curiosamente nunca ganham o suficiente para pagar impostos. Incluiria um montante máximo de euros per capita que estariam ao abrigo dessa troca, para proteger as poupanças da classe média. E parece-me que os pobres não ficariam nada prejudicados por essa troca de euros que não têm por dracmas que não têm. Com a vantagem de o Estado não ter de pagar juros e capital emprestado, e poder aplicar todos os seus rendimentos ao serviço do povo grego. Depois era só preciso começar a cobrar impostos como deve ser...

...este é o momento em que bato com a mão na mesinha de cabeceira e acordo: a medida não pode ser aplicada porque os proprietários dos euros saberiam como escapar-lhe. Como souberam antes ganhá-los à custa do endividamento crescente do Estado.

(Também deve haver outra dificuldade, ligada às reservas de ouro - hei-de investigar isso.)

2 comentários:

jj.amarante disse...

Eu diria que no máximo a frase em português no DN será uma tradução preguiçosa visto corresponder a esta no Guardian:"An 11-year-old boy from the Netherlands has joined the chorus of people calling for Greece to leave the euro in a surprise entry for the lucrative...". Como o Guardian é um jornal de Inglaterra a tratar-se de xenofobia em Portugal será por mera imitação da pérfida Albion. Por mim acho estranho que uma ideia tão simplória mereça uma menção honrosa, parece-me uma provocação, como aliás o próprio prémio Wolfson.

Helena disse...

Xenofobia por imitação continua a ser xenofobia. E o guardian pelo menos tratava o miúdo pelo nome, em vez de dizer "o holandês".
Provavelmente a menção honrosa é devida à idade do miúdo.