13 abril 2012

caminhante, não há Kaminer... (2)




(Do livro "Não havia sexo no Socialismo", de Wladimir Kaminer)



Agrionemys horsfieldi e outras pechinchas socialistas

Nem tudo era mau na União Soviética. Se hoje me aparecesse alguém a oferecer uma troca de vinte e cinco anos na Moscovo socialista por cinquenta anos numa praia do Havai, eu recusaria. No socialismo aprendi a conhecer a utopia como a única realidade que se transformava em farsa teatral perante os nossos olhos. A princípio parecia muito realista, muito viva. Mas a luz começava a falhar com cada vez maior frequência, os chefes esqueciam o texto deles, a música repetia-se, e de repente toda a casa desabava e dávamos connosco num palco que tinha sido construído por uns malucos quaisquer numa região pantanosa. Durante todo esse tempo, o canto dos pássaros e o aplauso das multidões provinham de gravações.
Uma experiência destas deixa marcas. Já lá vão dezasseis anos, e a minha sede de utopia continua a crescer. Procuro-a constantemente e escrevo diligentemente sobre ela. E o que podia ter escrito no Havai, podem-me dizer? Talvez um estudo sobre cremes solares?
No Socialismo Desenvolvido a variedade de mercadorias era limitada. Em compensação, havia muitas mais pechinchas que as que um capitalismo desenvolvido poderia comportar. As nossas pechinchas não eram determinadas pela procura - a formação estatal de preços orientava-se pela ideologia. O povo era presenteado com os bens que, na opinião do Estado, lhe deviam ser necessários. Na economia planificada socialista, a produção de bens e serviços não dependia das necessidades, era antes resultado de uma decisão do Partido sobre as componentes de um plano de desenvolvimento geral. Estas pechinchas determinavam a vida de milhões de pessoas. Os óculos, por exemplo, eram muito baratos, tal como instrumentos musicais de cordas e gotas nasais. Também havia excesso de produção de pentes, escovas de dentes, antibióticos e puré de batata. Como resultado, muitos cidadãos tinham problemas de visão ou com os dentes, ou sofriam de queda de cabelo porque passavam a vida a pentear-se. Por outro lado, praticamente toda a população sabia tocar guitarra, a maior parte das pessoas tocava a versão clássica da guitarra de seis cordas, alguns tocavam até guitarra de sete cordas, o que exigia alguma virtuosidade no tratamento do polegar, e também, obviamente, a balalaica.
Um bom presente de aniversário na União Soviética era o tabuleiro de xadrez. Em cada casa havia pelo menos dois, pelo que um em cada dois cidadãos era campeão de xadrez. O alimento mais barato era o peixe congelado, no nosso “Gastronom” havia montanhas deles. Geralmente era um peixe sem nome, sem cabeça nem rabo, um não-peixe, que meio descongelado já deitava um cheiro horrível. A ninguém ocorria comer isto, mas era preciso dar-lhe um destino para não pôr em risco toda a economia planificada. E foi assim que os gatos se tornaram o animal doméstico mais popular do Socialismo.
Claro que nas cidades também havia cães, os chamados verdadeiros amigos do Homem. Mas davam muito trabalho e grandes despesas. Os cães não comiam não-peixe, para eles o Socialismo tinha previsto papas de trigo. A revista Amigo que, aliás, só tratava de cães, louvava as papas de trigo como a única alimentação correcta para os caninos. Dizia-se que as papas faziam de qualquer teckel um pitbull. Os cães não eram dessa opinião. Os maiores, em especial, evidenciavam-se na União Soviética pelo seu comportamento fora do normal: pareciam loucos, perseguiam gralhas, saltavam para os caixotes de lixo e ladravam esforçadamente alto. Além disso tinham graves problemas de digestão, ficavam sentados como águias durante horas e horas entre os arbustos, e os seus olhos vermelhos assustavam as crianças. Aparentemente, tudo isso eram efeitos colaterais das papas de trigo. As papas davam cabo do carácter dos cães.
A maioria dos gatos da União Soviética estava em grande forma. Não eram esterilizados como os seus irmãos e irmãs de peluche gordos que viviam no ocidente capitalista. O não-peixe tornava-os fortes, e ainda por cima excitava-os. Passavam o ano entretidos com jogos amorosos. Os machos fediam, e as fêmeas piavam como galinhas ou gemiam como bebés durante toda a noite. Todas as tentativas para os chamar à razão falhavam. Logo à primeira ameaça de uso de força punham-se a andar e nunca mais voltavam. Eram os únicos seres livres no Socialismo, tão livres que de facto nem se podiam chamar animais domésticos. Não viviam com as pessoas, mas ao seu lado. A única coisa que nos unia era o peixe congelado. Mais tarde, no exército, voltei a encontrar o não-peixe, já frito, em cima do meu próprio prato, e devo dizer que afinal era melhor que a sua fama.
Mas o animal doméstico realmente existente no Socialismo não era o gato, era a tartaruga. Por algum motivo que até hoje não consegui desvendar, uma tartaruga custava três rublos, ou seja, menos que uma garrafa de vodca ou tanto como um ramo de flores. Era habitual oferecer às crianças uma nova tartaruga em cada aniversário – ou até aos adultos. Tratava-se da tartaruga das estepes: a Agrionemys horsfieldi, que se encontra sobretudo no norte do Cazaquistão. Provavelmente tratar-se-ia de um barter, um negócio de troca no âmbito da economia planificada socialista. O Cazaquistão recebia máquinas e tomates e dava o que naquela república havia em abundância – entre outras coisas, tartarugas.
A tartaruga era o animal doméstico perfeito: alimentava-se de dentes-de-leão, defecava em quantidades invisíveis e passava a maior parte do ano a dormir. Não ladrava, não conseguia morder, e era bonita. Por serem de trato fácil e tão baratas, houve uma enchente de tartarugas, e deu-se um surto de experiências sem qualquer respeito por elas. Movidas pelo prazer e pela curiosidade, as crianças punham tartarugas debaixo das rodas dos carros e atiravam-nas pela janela para ver a quanto é que a sua couraça conseguia resistir. Quando brincavam na rua, levavam as tartarugas consigo. Muitas delas enterravam-se na caixa de areia do parque, e nunca mais eram vistas. Conheci um miúdo cuja tartaruga se escondeu num monte de roupa suja, e acabou cozida na máquina de lavar. Outro usou as ferramentas do pai para tentar desmontar a sua tartaruga. Pode-se dizer, com alguma propriedade, que as verdadeiras vítimas do regime soviético eram as tartarugas, e não os dissidentes - os bodes expiatórios do Socialismo Desenvolvido.
O fim da União Soviética foi também o fim das pechinchas. De um momento para o outro deixou de haver animais domésticos baratos. Os ricos abasteciam-se de animais exóticos, piranhas amestradas ou papagaios que falavam russo. Os pobres tinham mosquitos e bichos da madeira. A Agrionemys horsfieldi regressou ao seu território natural, a estepe no Norte do Cazaquistão. 

10 comentários:

Bosc d'Anjou disse...

Devido a certas dificuldades técnicas (má propagação da luz no sentido da Europa para a América), o Kaminer não tem nada publicado nos Estados Unidos. Alguns jeitosos facilitam à sucapa a edição britânica de Russian Disco, mas mesmo de contrabando não se arranja mais nada em inglês. Felizmente, o público americano que não sabe alemão tem agora a Viagem a Tralala, graças à Helena. E estou confiante que depois dessa estadia em Portugal, Kaminer passará a escrever directamente em português. Vão ver que isto ainda vai ser a língua do futuro. Graças à Helena, repito!

Helena disse...

Bosc d'Anjou, obrigada! Graças a si, comecei o dia com uma gargalhada valente.
Parece que este Viagem a Tralalá existe em inglês: The Journey to La-La-Land.

Paulo disse...

Estou ainda arrepiado. Não sei se por causa do cheiro do não-peixe, se por causa das pobres tartarugas.

Spasibo, Helena. Isto é muito bom.

Bosc d'Anjou disse...

Helena, depois de consultar os oráculos do costume (Amazon, Abebooks e as entranhas do frango que tinha para o almoço)continuo convencido que não existe em inglês. Existe em norueguês desde 2003, mas isso não conta porque lá as noites de verão são curtas e eles acordam sempre cedo demais.(Chama-se Reisen til Trulala, talvez para desorientar o KGB?). Paulo Portas diz a que a medalha da ordem de S. Jerónimo, padroeiro dos tradutores, "is in the mail" a caminho de Berlim. Não se esquive!

Helena disse...

Paulo, se eu soubesse dizer "de nada" em russo, não ficavas sem resposta! ;-)

Bosc d'Anjou, começo a temer ter de lhe dar razão. Mas sei que os Kaminer foram aos EUA - de facto, até à Coreia foram apresentar os livros dele. Mas pode ser que seja tudo em alemão...
É pena.

Pois cá fico à espera dessa medalhinha. Ainda não é a do 10 de Junho, mas quem não tem cão...
;-)

(Quer que lhe mande o livro?)

Bosc d'Anjou disse...

Obrigado pela atenção, mas não lhe quero dar essa maçada. Pelo menos até a medalha chegar - depois veremos. Conto ir a Lisboa este verão. Estou a pensar ir à Barata, onde está sempre muita gente ao fim da tarde, e ali à entrada da sala principal grito lá para dentro "Ó sô Antunes, não me arranja aí um exemplar daquele livro traduzido pela Helena Araújo de que toda a gente fala agora? Parece estar esgotado em toda a parte". O resto ficará na história.

Helena disse...

hahaha
- coitadinho do sô Antunes.
Já estou a imaginar os livreiros a raspar o nome do tradutor nos monos de armazém, e a escrever Helena Araújo por cima!
;-)

(pois cá fico à espera da medalhinha, só para depois lhe poder ser útil! hehehe)

Anónimo disse...

De facto, este é muito bom. Para mim omelhor de quantosforam traduzidos.

Pedro

Helena disse...

O "não havia sexo no socialismo", Pedro?
Foi traduzido para que línguas?

Anónimo disse...

O melhor de "quantos excertos foram traduzidos" pela Helena. A rapidez é traiçoeira para os não Speedy Gonzalez. É o excerto de que mais gosto,dos três feitos aqui no blogue, o que não quer significa que seja a melhor tradução.

Pedro