07 julho 2011

correio das ilhas (11)

Olá, Rita

Tens de fazer a viagem de comboio entre a Régua e o Pocinho, e com urgência, antes que acabe. De uma beleza indescritível: os montes cada vez mais bravios à medida que se avança para Espanha, as vinhas agonizantes de sede, os laranjais muito verdes ao longo do rio, as oliveiras a desenhar os caminhos. Aqui e ali um quinta, mais além ruínas tristes. E a literatura portuguesa a entrar-me pelos olhos dentro - eu a entender, maravilhada, o que é que os escritores do Douro querem dizer quando escrevem "fragas" e "barrancos".
Olhando a paisagem dos terraços da vinha ocorreu-me que quem escreveu o livro do Génesis não sabia nada: uma tal doçura e sensualidade não saiu da costela do homem, mas das suas mãos.
Na nossa carruagem iam alguns velhotes que falavam das glórias passadas e das misérias presentes. O costume: que é uma pouca-vergonha terem vendido a estação do Pinhão, que dizem que mandaram os azulejos para consertar mas nunca se sabe, que são todos uns mentirosos, que no tempo de Salazar não havia esta ladroagem e falta de respeito, que isto chegou a tal ponto que nem quinhentos Salazares conseguiriam endireitar. Contavam também dos restaurantes que servem belos peixinhos do rio (há um em Freixo de Numão, mesmo ao pé da estação), do passeio às gravuras de Foz Côa que se pode fazer a partir do Pocinho (são quase três horas, vai-se de jipe e depois a pé, custa cerca de 20 euros por pessoa). Ao passar no Tua começou o coro das lamentações: "Já fecharam tudo", diziam eles. "A beleza das linhas que havia, aquelas obras monumentais por penhascos e ravinas, quanta gente morreu para as fazer, e foi-se tudo: Tua, Corgo, Tâmega, Sabor". E faziam a lista com desalento, um desalento como só vi há muitos anos ao meu irmão mais velho, quando andava na quarta classe e tinha de aprender as estações e apeadeiros de todas estas linhas. Eu, dois anos mais nova, escapei a tudo isso, o que prova que a qualidade do Ensino já estava em queda livre antes do 25 de Abril.
As carruagens da CP são fechadas, as janelas não estavam propriamente bem lavadas. As fotografias são as possíveis. Mas aqui vão, para teres uma ideia do que isto é. Do que vamos perder.





7 comentários:

Paulo disse...

Há quase um ano andei aí pelo Douro acima, até à escaldante Ervamoira, ainda para lá do Pocinho, encavalitada sobre o vale do Côa.

(Desculpa estar a ler a tua correspondência íntima com a Rita, mas ela é irresistível. Espero que a Rita não leve a mal.)

Rita Maria disse...

Eu continuo a apostar na campanha. Até porque assim como assim tenho de demonstrar a minha capacidade de fazer campanhas online e nunca fui ao Douro... ;)

io disse...

Que maravilha! Estou mesmo tentada em não passar deste verão.

Helena disse...

Tens de ir, sim, Rita.
Tens de ir, sim, io.
Dou-vos a morada - ´´e so para amigos, mas voces sao amigos!

Helena disse...

Paulo, parece que nao es o unico a ler esta correspondencia. Alem disso, sao postais - nao te preocupes, toda a gente pode ler.

Miguel Silva disse...

Estou deliciado com estas fotos. Tenho a certeza que a qualquer momento vou descobrir o Afonso da Maia passeando com o seu neto. :-)

Helena disse...

Miguel,
mete-te no comboio e vai ver antes que acabe. E outro dia conto-te a história da minha primeira passagem pela quinta de Santa Eufémia. Parecia a chegada do Jacinto à quinta de Baião. Um Portugal como já não existe.