05 julho 2011

correio das ilhas (10)

Olá, Rita

estamos numa quinta no Douro. O rio, para estes lados, havia de se chamar Rio Lindodazulprofundo, mas como de costume ninguém me pergunta nada...
Tenho trabalhado bastante na tradução daquele livro muito divertido, numa mesa sob a vinha, junto à piscina. Quando a Merkel falou da produtividade dos portugueses, provavelmente estava a morrer de inveja destas coisas. Coitadita, uma chancelerina também não é de ferro.
Os miúdos treinam saltos especiais na piscina (é cada barrigada, bálhósdeus!) e depois desaparecem pela quinta. Reaparecem à hora das refeições, esfomeados. Hoje havia peixe assado com pimentos grelhados e um molho com cebola e azeite da quinta que nem te digo. E que dizer das batatas assadas de ontem, da tortilha do jantar? Não conheço restaurante nenhum onde a comida me saiba tão bem como aqui.

Amanhã vamos de comboio até ao Pocinho, e voltamos. Para nos despedirmos desta parte da Linha do Douro, que vai fechar. Acho bem: não faz sentido nenhum gastar um dinheirão a manter um património destes numa paisagem protegida pela UNESCO. Os turistas? Que se danem os turistas. Que vão de carro pelas curvas e contracurvas dos montes, apreciar de perto e de todos os ângulos os fantásticos postes das autoestradas da energia que agora atravessam o Douro. Viva o progresso! Porque havíamos nós de continuar a manter a paisagem protegida do Douro, só para os turistas acharem que as coisas aqui ainda são perfeitas? Não, não: realismo é que é preciso. Toca a arrancar os anéis, e se for preciso largar um ou outro dedo, pois que tudo se faça com coragem e sem anestesia. Somos um povo de valentes.

(Nem queiras saber o que ultimamente me tenho lembrado daquela linha Durango-Silverton, e do pessoal que faz viagens intercontinentais para viajar nesses comboios, e de como aquela paisagem não é em nada superior à do Douro)

10 comentários:

Cristina Gomes da Silva disse...

Ainda bem que assumiste este compromisso dos postalinhos de férias com a Rita. Continua, continua :-)

Helena disse...

E eu a pensar que aqui só estávamos a Rita e eu... ;-)

jj.amarante disse...

A maior parte dessas auto-estradas de energia que atravessam o Douro foram instaladas há dezenas de anos, para trazer a energia do Douro Internacional de Picote, Miranda e Bemposta para o litoral, onde vivem as pessoas. Essa zona do Douro é muito bonita mas não vive aí quase ninguém, dizia-se que eram 9 meses de inverno e 3 meses de inferno, para lá do Marão onde mandavam os que lá estavam mas agora já não estão. É realmente muita pena perder as linhas do caminho de ferro. Esses ramais com pouco trânsito deveriam ser convertidos em linhas para turistas, talvez convencer uma empresa alemã a explorar a linha mas sem subsídios do estado português. Outra hipótese seria convertê-los em pistas para ciclistas, o que talvez ficasse mais barato e apreciava-se a paisagem mais devagar. Agora os postezinhos deixe-os em paz que além de transportarem a energia hídrica e agora a eólica, às vezes até servem para as cegonhas nidificarem.

jj.amarante, trabalhador da REN

Helena disse...

jj.amarante,
sim, muitas delas foram instaladas há dezenas de anos - antes da Comissão para o Aproveitamento Turístico do Vale do Douro, antes da UNESCO. Mas no ano passado deu a tola na REN, e desatou a espalhar postes por aí que é uma loucura. E já avisou que vai continuar.
Quanto à desertificação: estamos a falar da região onde se produz o vinho do Porto. Estamos a falar de arames que dão choques eléctricos aos trabalhadores das vinhas. E estamos a falar de uma das poucas regiões do interior que ainda tem condições óptimas para manter a sua população. Desertificação é outra coisa.
Quanto às linhas históricas, vejo-as como património. Com certeza que era preciso arranjar uma maneira de as rentabilizar melhor - no caso isso passaria por uma aposta muito séria no turismo de qualidade. Mas destruir este património único, isso parece-me absurdo. E converter em pistas de ciclismo, também não me parece muito boa ideia, porque o turista que deixa dinheiro no Douro (e é esse que interessa), o que dorme nas quintas, come nos restaurantes caros e compra o vinho, não é o pessoal que tem pedalada para andar de bicicleta com 35 graus.

Helena disse...

jj.amarante,
só agora reparei nesse seu "trabalhador da REN". E agora, retiro aquele "deu a tola"?
Sinceramente, acho inadmissível o que se fez no ano passado contra esta paisagem protegida. Não era possível fazer um desvio por regiões menos importantes e menos habitadas?

jj.amarante disse...

Assinei "trabalhador da REN" não por estar a falar em nome da REN mas para sugerir que não sou parte completamente desinteressada. Implantar linhas no terreno é cada vez mais difícil, ora temos a população quando há gente ora temos os ecologistas quando não há ninguém. Garanto-lhe que tentamos encontrar o melhor caminho possível mas a solução encontrada nunca é perfeita. Há sempre imensos contactos, estudos e reuniões com institutos, ministérios, autarquias, forças vivas, etc. antes de construir o que quer que seja. Deixe o "tola" à vontade.

Rita Maria disse...

Ó Helena, já fazíamos uma campanha....

mãe preocupada disse...

A linha do Douro foi considerada, há uma meia dúzia de anos, um dos mais belos itinerários ferroviários do mundo. Não me recordo qual foi a entidade que a classificou assim, mas recordo-me desse facto.
Obrigada por estes textos sobre as terras do Douro. É o meu berço.

Helena disse...

Duas campanhas, Rita. Ou campanha e meia, que a da REN, por atenç~~ao ao jj.amarante havia de ser mais leve.
Eu percebo que n~~ao haja dinheiro, e tal.Mas custa-me. H´´a genteque vai do mundo inteiro aos confins da Am´´erica fazer aquela Durango, e nos fechamos o que temos.

Rita Maria disse...

Temos de fazê-la mesmo, das a sério. Vou pensar como e depois discuto contigo.