17 junho 2011

a responsabilidade social do capital

Esta semana o Matthias está a fazer o estágio numa empresa, como é obrigatório no seu ano (contei aqui e aqui). Decidiu que queria estagiar na área de engenharia, perguntou aos primos engenheiros o que recomendavam, e eles indicaram um gabinete berlinense que tem muito boa fama.
Informou-se, telefonou, concorreu, insistiu - deram-lhe o lugar.
Tem trabalhado seis horas por dia, e mostra-me todo orgulhoso o projecto: vários edifícios, este é o Bismarck, este é o Palais, este é o andar que eu calculei hoje.
Está a calcular o betão necessário para as estruturas. No princípio tinha de fazer tudo manualmente, mas agora ensinaram-no a trabalhar com CAD, o que torna o processo muito mais rápido e eficiente.

- Acho admirável que as empresas tenham tempo para gastar com miúdos da vossa idade, comentei eu.
- Porquê?! Faço-lhes o trabalho de graça!, respondeu ele, muito zangado.

Digo então aqui, muito baixinho para ele não ouvir: apetecia-me ir àquela empresa dar beijinhos a todos, especialmente ao Alexander que é o seu tutor, e mais ao português simpático que trata dos computadores, porque lhe ensinam imenso e sobretudo sobretudo porque lhe dão a sensação de ter valor e ser útil.

E se calhar percebi alguma coisa mal, porque o Alexander já lhe ofereceu um emprego de Verão. Ao meu rapazinho de 14 anos.


 

13 comentários:

Rita Maria disse...

Isso é porque o teu filho aprende a trabalhar com CAD em tao pouco tempo. Poh, estou de boca aberta...

Paulo disse...

Sabes que eu sou fã do Matthias.

antuérpia disse...

Pois...isto só prova as qualidades de trabalho do Matthias, não a responsabilidade social do capital. Mas podes sempre tentar reunir mais algumas provas, Helena hehehe.

SofiAlgarvia disse...

Estou a imaginar a minha filha mais velha (13) a chegar a casa igualmente encantada porque conseguiu fazer uma montagem de fotografias sequenciais, ou a entrevistar uma actriz portuguesa, daquelas que ela admira... será que aqui as oportunidades surgem assim tão cedo?!...
(Parabéns, Mãe!)

Rita Maria disse...

Paulo: chega-te para lá.

De resto: grande Antuérpia, a recontextualizar aqui de forma inequívoca a luta de classes. Eu e o Marx do corredor saudamos-te com estima e consideração.

Helena disse...

Rita, Antuérpia: pois é. Se calhar eu só vejo nele um rapaz de 14 anos, e o pessoal lá do gabinete está todo contente com a sorte grande que lhe saiu. Assim de repente lembro-me de quando engarrafamos vinho na quinta do Douro, e da admiração da chefe pela maneira super-eficiente como o Matthias organiza o seu trabalho de etiquetagem.
Hoje disse-lhe que no último dia devia levar um bolo, e ele respondeu que espera que a empresa também lhe dê um bolo a ele. Ahem, acho que este gajo não vai ser nunca da geração à rasca.

Paulo, se já vou dar à Rita uma foto autografada, arranjo também uma para ti, queres? ;-)
Qual preferes: ao piano, ou a jogar à bola num parque de campismo de navajos, sob o imenso céu do Southwest?


SofiAlgarvia,
pois é: tão importante dar aos miúdos autoconfiança!

Helena disse...

Rita, queres uma dele ao piano ou uma dele a jogar à bola ou então aquela fatal dele a fazer saltos mortais no trampolim cheio de neve?

Rita Maria disse...

Qualquer uma me serve, mas essa última não. Arrepia-se-me o coração.

Helena disse...

Olha que a Christina só fez fotos do "antes"... ;-)
Se me lembro daquela noite... quatro horas a inventar histórias divertidas para o distrair, tentado abstrair da cara inchada e da roupa cheia de sangue.
E ele a brincar: "hoje ao almoço chateei-me por ter feito uma nódoa de molho de tomate na camisola, mas agora por sorte já não se nota..."

snowgaze disse...

omd, isso do trampolim deve ter doído (a ele, e a ti!).
começo a achar a ideia dos "estágios" fantástica. O meu miúdo também tem que fazer um, mas só no próximo ano. :)

Helena disse...

A ele mais que a mim. Eu estava muito concentrada a abstrair e a inventar histórias divertidas para lhe contar...

Essa história dos estágios é boa, mas é preciso escolher bem o sítio e a atitude. Um colega do Matthias foi enviado para casa, porque no gabinete de advogados não sabiam o que lhe fazer.

antuérpia disse...

Rita, eu?!! Obrigada pelo cumprimento, mas nunca faria tal coisa. Não fales ao teu Marx de mim, que ele não iria gostar: sou equitativa por natureza, tanto em relação ao (grande) capital como aos trabalhadores. Por outras palavras, cada um, quando tem de levar, leva.

Mas viva o Matthias, Helena o tal trabalhador que nunca «levaria». Competente e assertivo, isto é, sabendo o que quere agindo em conformidade.

Helena disse...

Assertivo em demasia: arruma comigo em meia frase. Sniff.