23 junho 2011

alguns apontamentos sobre a reforma do ensino na Alemanha

Pediram-me notícias sobre o ambiente em redor de uma proposta de reforma do ensino alemão descrita neste artigo (em inglês). Com pliiiize e tudo: irrecusável. Pois aqui vai, mas aviso desde já que isto está longe de ser a minha área, e que agradeço todos os comentários que fizerem a corrigir e a complementar esta informação.


1. O Ensino é matéria das Länder. Não há uma política de ensino nacional. O que faz com que um aluno que já ande no segundo ano do liceu, na Turíngia, ao ir morar para Berlim tenha de voltar à escola primária (que vai até ao sexto de escolaridade), ou que as médias finais do secundário sejam impossíveis de comparar a nível nacional porque cada Estado tem o seu próprio nível de exigência - o que cria por exemplo injustiças no acesso à universidade, quando esta se baseia na nota.


2. Na maior parte dos Estados há uma selecção dos alunos ao fim da escola primária (geralmente 4 anos). Ou seja, aos 10 anos de idade, os miúdos são divididos entre os que têm estaleca para curso superior, os que em princípio terão mais jeito para uma formação técnica ou comercial, podendo eventualmente passar para o liceu (ou seja: via de acesso à universidade) se entretanto derem um bom salto no seu desenvolvimento, e os que... bom, aqui há lugar para muitos eufemismos, mas de um modo geral os atingidos sentem assim: "os que nunca hão-de ser ninguém na vida". Experimentem ser professores de uma turma de pessoas a quem aos dez anos foi dito que eles não dão mais que aquilo. E que vêm de famílias com situações complicadas, e que não tiveram pais que soubessem lutar por eles, ou porque nem sequer falam alemão ou porque estão bloqueados por alguma situação pessoal dramática.
Em suma: do meu ponto de vista, a "Hauptschule", o ramo escolar menos exigente, digamos assim, tem na prática um efeito "higiénico", porque retira das outras escolas os alunos que são vítimas de ambientes familiares muito difíceis, os que falam mal alemão, os que dão problemas. É uma leprosaria do ensino. Claro que há políticos que dizem que não, que nessa escola os alunos mais fracos não são sujeitos ao stress da concorrência e têm a possibilidade de se desenvolverem segundo as suas capacidades. Pois será, mas também conheço professores que se alegram quando os alunos fazem 14 anos porque já podem ir para programas prisionais de correcção, ou lá como isso se chama. 
Ao juntar estes dois ramos, que é a proposta referida no artigo em inglês, o problema de auto-estima  e de self fulfilling prophecy dos alunos de menor rendimento dilui-se um pouco, mas surgem outros, porque vai haver cada vez mais pressão dos pais para colocar os filhos no liceu. Um exemplo prático: conheço uma miúda que está a tomar ritalina para aguentar o ritmo e a exigência do liceu. Antes isso que ficar na Realschule (o ramo intermédio) "no meio daqueles brutamontes que arrumavam com a minha filha em dois tempos" - como dizia a mãe dela.

3. Há quem defenda que o "liceu" (Gymnasium) e não a Universidade é que é o viveiro de elite por excelência, e que esse é um viveiro indispensável a uma Alemanha que pouco mais tem para concorrer no mercado mundial para além das ideias e capacidades do seu povo. Aos melhores devem ser dadas todas as condições para se tornarem ainda melhores, e é errado - e contraproducente para os interesses do país - obrigá-los a marcar passo para que os alunos mais fracos consigam acompanhar. Os melhores devem ser "seleccionados" o mais cedo possível, para lhes oferecer e exigir o máximo.
Há quem argumente que as crianças têm diferentes ritmos de desenvolvimento, e que não se podem fechar as portas tão cedo. Outros ainda falam das competências sociais, e que há mais vida para além do rendimento escolar. 

4. Contudo, paralelamente a este sistema de três níveis de ensino, há um tipo de escola diferente: a escola unificada, que junta todos os alunos até ao décimo de escolaridade, após o qual uns saem para cursos profissionalizantes e outros continuam para a fase final do ensino secundário, fazendo o exame final do liceu (o famoso Abi), que dará acesso à universidade.
O Spiegel dá o exemplo de uma escola destas, recentemente criada na Renânia do Norte–Westfália devido a uma mudança no governo (artigo em alemão): formas de ensino abertas, turmas pequenas e muitos assistentes sociais, do 5º ao 10º ano. A directora recebe imensos telefonemas de famílias que mesmo morando longe querem matricular os filhos nessa escola, e de pedagogos em toda a Alemanha, que querem vir participar nesse projecto.


5. A própria concepção do ensino está a mudar: do tradicional marra-despeja para uma aprendizagem individualizada em que o professor se entende não como aquele que ensina mas como aquele que acompanha o aluno no seu processo individual de aprendizagem. Nesse caso, a questão do ensino unificado versus duas ou três vias paralelas perde importância, porque os alunos podem estar todos juntos numa turma, aprendendo cada um segundo as suas capacidades pessoais. Embora possa acontecer - e acontece, conheci alguns casos na Jenaplan - que os alunos não se dêem bem com este sistema tão livre, e precisem da disciplina e da pressão do grupo para manterem um certo ritmo.

6. Em Abril de 2011 foram publicados os resultados de um grande inquérito sobre a educação, organizado pela Fundação Bertelsmann, com a possibilidade de responder em alemão, turco ou russo. Participaram 480.000 pessoas, mas só 130.000 preencheram o formulário completo, e só estas respostas foram consideradas. Síntese dos resultados, a que chamaram "dez teses e exigências" (artigo do Spiegel, em alemão) (o tradutor, Speedy Gonzalez, manda cumprimentos):



  • A maioria dá grande importância à instrução e formação (cerca de 2/3 dos inquiridos atribuem-lhe, pessoalmente, uma importância extraordinária). 
  • Para a maioria, a escola tem prioridade na área da formação. 70% entendem que é preciso investir mais. Em segundo lugar aparecem os infantários e as creches.
  • Em 80% das respostas aponta-se para uma baixa ou muito baixa predisposição dos políticos para operar uma reforma no ensino. 57% acham que os professores teriam a coragem de fazer essas reformas, mas faltam incentivos para os professores mais empenhados. Segundo os autores, os próprios inquiridos estão muito entusiastas quanto a essa mudança.
  • Uma das tarefas centrais do sistema educativo é permitir a ascensão social aos mais desprotegidos. Esta opinião é expressa em particular por um grande número de inquiridos com baixos níveis de formação e salarial.
  • Mais de 2/3 dos inquiridos estariam dispostos a pagar mais impostos para melhorar o nível do ensino. Grande parte desses são alunos, professores e descendentes de emigrantes turcos. Só uma minoria apoia aumentos de impostos para proteger o ambiente, combater o crime e melhorar os cuidados de saúde. A maioria aceita propinas universitárias conforme o rendimento dos pais.
  • Quase 90% concordam com a obrigatoriedade da frequência de um jardim infantil, e 2/3 concordam com a possibilidade de uma passagem posterior para um nível de ensino mais exigente. Quase 50% defendem que a escola unificada vá até ao 6º ano, 1/4 entende que devia ser até ao 9º ou 10º. 
  • 80% defendem a escola durante o dia inteiro, só 19% defendem a escola a meio-dia.
  • Nove em dez querem exames finais comuns a toda a Alemanha. Segundo eles, as diferenças entre os vários Estados não contribuem para melhorar o sistema educativo. 
  • Nove em dez aceitam a integração de crianças com deficiência física nas turmas normais, mas cerca de 50% não se conseguem imaginar a trabalhar bem numa turma com alunos com deficiência mental ou comportamento anormal. O grupo de inquiridos com raízes turcas mostrou-se particulamente céptico quanto a isso.
  • Uns 50% manifestaram-se contra uma distribuição equitativa dos recursos. Escolas em bairros problemáticos devem receber maior apoio.

5 comentários:

antuérpia disse...

Helena, não é a corrigir nem a complementar. É só mesmo comentar. Nunca me esqueço que uma das supresas da minha vida de estudante aconteceu numa aula de inlglês do 11º ano, teria portanto 15 ou 16 anos. Comparavam-se os sistemas de ensino português com o inglês e o alemão. O meu espanto não teve medida: o sistema alemão separava os estudantes ao 10 anos?! Olhei para o meu próprio percurso académico e estarreci (daí não ter esquecido): de aluna média/baixa, até ao 9º ano, passei a média superior, entre os melhores de uma turma muito boa, só a partir do 10º ano. Lembro -me de ter ficado profundamente baralhada. Na Alemanha, teria visto as minhas possibilidades de crescer academicamente cerseadas aos dez anos? Ou, ao invés, teriam puxado por mim, até aí e descoberto nessa idade as minhas (ainda que não muitas, pelo menos algumas) potencialidades, que só sobrevieram no sistema português aos 15/16 anos e que me permitiram ir para a faculdade sem qualquer problema? Ainda hoje quando se fala do sistema de ensino alemão, me ocorre esta dúvida.

Helena disse...

Vá, para o liceu não vão apenas os alunos de vinte...
Também podes ver de outra maneira: se um aluno tem uma inteligência prática, porquê andar a torturá-lo com coisas extremamente complicadas e que exigem enorme capacidade de abstracção?
Talvez te deixassem ter ido para o liceu, apesar de "tudo". Talvez o professor da escola primária tivesse achado que tu ainda chegavas lá.

Eu acho que estas coisas não têm respostas simples. Na Alemanha fazem assim, em Portugal os pais que podem tratam de meter os filhos em colégios particulares. Ficam de fora os que falam mal português, os que vêm de famílias pobres, etc...

Na Alemanha também houve uma tentativa de ensino unificado, aliás como me parece que se faz em algumas escolas portuguesas: os alunos melhores eram metidos todos numa turma.

Helena disse...

E estava-me a esquecer de uma coisa importante: se não fosses logo para o liceu no quinto ano, ias para uma escola mais "relaxada" (Realschule - uma cunhada minha é professora numa escola dessas e diz que o ambiente é muito mais agradável que no liceu), atravessavas a puberdade com menos stress que os miúdos do liceu, e chegando ao fim do 10º ainda podias decidir se querias passar para o liceu e fazer o tal exame Abi.
As portas não estão completamente fechadas.

antuérpia disse...

O procedimentos dos alunos melhores metidos numa turma e os restantes nas outras nunca fez/faz parte da política oficial do sistema. Unificado era/é praticamente sinónimo, para o Ministério e para os pais, de aleatoriedade. Como se imperasse a ideia de que as matrículas deviam ser atiradas ao ar e nas turmas em que caíssem, seria onde o respectivo aluno ficava/fica. É uma farsa em que fingimos todos que acreditamos.
Os professores, sempre à revelia do Ministério, é que acabavam/acabam por fazer a distinção, jurando sempre que é mentira. O problema é que depois ensinavam/ensinam todos da mesma maneira, não atendendo às especificidades das turmas, passando a distingui-las como as "turmas boas" e as "turmas más"...pior a emenda que o soneto. Eu cada vez mais defendo um sistema de separação (sim, separação dos que têm maiores capacidades para um ensino académico) por forma que todos produzam ao máximo nível das suas capacidades. Ora isso exige, antes de mais que se passse a ver os alunos não apenas com vocações mais práticas ou mais académicas,mas também com diferentes ritmos de aprendizagem. Nesse caso, não só não se ministrará a todos o mesmo tipo de ensino, nem se dará o mesmo tipo de atenção. Turmas de miúdos com perfil académico, podem ser bem maiores do que turmas práticas de alunos que precisam de mais ajudas pelo menos nas aprendizagens básicas essenciais - a língua materna e a matemática - por exemplo. Na Finlândia, um aluno que está com dificludades de leitura no início do terceiro ano e imediatamente detectado, repescado, com ensino personalizado até estar ao nível dos outros para poder ser reposto no seu "aquário" de novo. Mas nada disto é sobre o sistema da Alemanha, o tema do teu post. Retiro-me, portanto :)).

Helena disse...

Antuérpia,
nem mais.
Atenção: esta reforma que estão a propor na Alemanha não mexe na via académica. Só junta as outras duas vias.