02 abril 2011

um atalho para sair do nuclear

Resumidamente, é assim: a SPD e os Verdes queriam acabar com a energia nuclear na Alemanha, e prepararam as coisas para que isso sucedesse o mais depressa possível. Depois veio a CDU, e a política mudou de novo: afinal, as centrais nucleares são seguras. Depois veio a catástrofe de Fukuxima (com x, como me avisou um simpático comentador, tal como Hiroxima) e a CDU começou a achar que se calhar as centrais não são tão seguras como parecem, e resolveu mandar parar algumas, as mais velhas, enquanto vamos pensar. Agora as empresas do nuclear andam por aí a protestar que não se pode fazer política de pára e arranca, e que se a CDU mudar de ideias em relação a coisas que já assinou o Estado vai ter de indemnizar as empresas, e não será pouco.
Não será pouco: só esta paragem temporária provoca prejuízos de 700.000 euros por dia em Biblis A.

Se eu fosse consumidor, era agora que me mudava para um fornecedor de energia "limpa". Por acaso sou consumidor, e já me mudei há dois anos. A nossa electricidade vem de produtoras de energia hídrica na Floresta Negra.

Se eu fosse a Angela Merkel, não discutia com as empresas. Obrigava-as a pagar todos-todos-todos os custos causados por um acidente: desde os bombeiros às indemnizações às vítimas. E obrigava-as a fazer agora um seguro que cobrisse todos esses riscos. De modo que as produtoras de energia nuclear não tinham de fazer lobbying para o lado do Governo, tinham era de ir discutir essas questões de risco residual com as suas seguradoras. Ah, isso é que seria lindo de se ver!

Se a Angela Merkel lesse este blogue, este seria o momento em que ela batia com a mão na testa e se perguntava: "porque é que ainda não me lembrei da Helena para me vir dar ideias a tempo inteiro?"
("A tempo inteiro não, minha senhora" diria eu, "preciso de algum tempo livre para as aulas de zumba, onde me ocorrem todas estas ideias geniais")

6 comentários:

jj.amarante disse...

A sua sugestão de encaminhar o assunto para as companhias de seguros poderá parecer boa à primeira vista mas tem um pequeno problema: nenhuma companhia de seguros segura uma central nuclear. É nestas alturas que eu vejo o lado positivo da iniciativa privada: conseguem por vezes avaliar bem o risco e são a eles mais avessos do que os próprios governos que irão ter que cobrir os custos todos em caso de catástrofe. Agora essas hesitações do governo alemão e a paragem súbita de 7 centrais nucleares parece-me uma decisão irreflectida, colocando o sistema eléctrico alemão numa situação muito ocmplicada. Antes desta decisão da merkel eu diria mesmo que decisões assim em cima do joelho só mesmo em Portugal!

Helena disse...

Por isso mesmo, por nenhuma companhia de seguros segurar uma central nuclear, é que a empresa não pode processar o Estado por este não querer assumir determinados riscos. Se quer continuar a produzir, arranje uma seguradora que lhe compre essa história de a central ser segura.

É verdade que este é mais um dos ziguezagues da Merkel: há meia dúzia de meses concordou que se podia prolongar a vida das centrais mais velhas, ao contrário do que fora determinado pelos governos anteriores, e agora mete travões a fundo, "só porque" Fukuxima se está a revelar uma catástrofe muito maior que Tchernobil - e isto num país com um nível de desenvolvimento absolutamente incompatível com falhas desta dimensão.
Pensava que seria por causa das eleições, mas mesmo depois destas ela reafirma que é preciso travar o nuclear. E é secundada por outros ministros.

Para já, não ouvi falar em falhas de energia por aqui. Será que a estão a comprar na Europa de Leste?...

O que se tem andado a discutir ultimamente: para além do que já contei atrás, de bastar um ataque cibernético às redes de energia e algumas centrais alemãs podem ficar em situação bem complicada, não há sequer a certeza de algumas centrais resistirem sem problemas a uma queda de um avião de passageiros.

jj.amarante disse...

O Estado alemão autorizou a construção dessas centrais, sabendo à partida que não tinham seguro para catástrofes, mudar a regra depois do investimento feito só em casos muito extremos. Eu acho que deviam fechar as centrais nucleares todas mas num programa faseado. Os sistemas eléctricos não costumam ter uma grande sobrecapacidade, para evitar que as centrais estejam paradas sem produzir mas não estão preparados para perder 7 centrais nucleares de uma só vez. A nossa regra é a segurança n-1 e não n-7. Se ainda não notaram falta de electricidade será porque o mês de Março já tem temperaturas mais amenas, os dias já têm mais horas de luz e provavelmente estarão a importar dos países vizinhos. Existe outra hipótese ainda que é estarem com alguma sobrecapacidade por as centrais térmicas clássicas (carvão e gás) estarem a ser deslocadas pela energia eólica e agora estão a funcionar mais horas mas neste caso estão a aumentar a produção de CO2.

Gi disse...

:-) @ aulas de zumba...

sem-se-ver disse...

amei, tal a Gi, o remate do post :))

Rita Maria disse...

E se fosses cidada, a tempo inteiro, e nao só consumidora?