02 março 2011

a queda de um anjo (4) - o papel da internet


No Spiegel online há um texto muito interessante (em alemão, e infelizmente o Speedy Gonzalez hoje anda ocupado com outras traduções) sobre o papel da internet no caso Guttenberg. Sinteticamente: se não tivesse havido um grupo de voluntários a fazer um excelente trabalho de controle, o caso não tinha chegado a ser escândalo. A Política dizia que a Universidade tem de controlar, a Universidade levava meses até conseguir controlar tudo, e teria tempo para pensar no interesse da Pátria e essas coisas.
Não, nada disso: as reacções de Guttenberg ("isso são acusações ridículas", seguida de "sim, parece que cometi involuntariamente um ou outro erro, vou deixar de usar o título até o caso ser esclarecido" para evoluir para "sim, cometi erros graves, e peço desculpa por isso - é que andava muito ocupado com outras coisas") foram provocadas por um trabalho de pesquisa rápido e muito eficiente, levado a cabo por - imagino - centenas ou milhares de voluntários. Para terem uma ideia da qualidade desse controle, cliquem neste link. Uma apresentação visual esmerada, simples e muito informativa. Carregando sobre qualquer das páginas a vermelho chega-se à página em causa, do lado esquerdo, com os trechos copiados, no lado direito, e indicação da fonte. Extraordinária clareza.

Até agora, dizia o artigo do Siegel, os políticos pensavam que meio caminho andado para a resolução destes problemas era ter o jornal Bild do seu lado. Isso acabou: o Guttenberg tinha o Bild a seu favor, mas nada pôde contra os factos revelados com espantosa simplicidade na internet.

Anunciam-se novos tempos. 
Mas, pergunto eu (e já não estou a falar da chico-espertice do Guttenberg): quem de nós aguentaria a transparência absoluta? Quem de nós passaria incólume um exame de milhares de voluntários procurando e publicando tudo aquilo que fizemos de errado, descabido ou politicamente incorrecto, desde que nascemos até hoje?
Estamos perante um mecanismo diabólico, e convinha falarmos hoje sobre os limites básicos da tolerância exigíveis perante a fragilidade do humano que - afinal de contas - todos nós somos.

21 comentários:

Rita Maria disse...

Acho que estas enganada, há os actos privados e os actos públicos. .

Eu por exemplo não sobreviveria a que me violassem a correspondência e trouxessem para a praça pública aquela conta do hospital que acho que não tenho de pagar (ou se calhar sobrevivia, porque não me passaria pela cabeça tentar primeiro mentir e ver se me safava?).

Outra coisa são actos públicos, que estão justamente sujeitos a escrutínio público. A atribui♪ao de um título académico ou de a promulgação de um diploma político são actos públicos. Isto do Guttenberg não foi a sociedade da transparência total, foi a mesma coisa que jornalismo de investigação, apenas com mais meios. Qualquer um dos meus trabalhos académicos pode ser entregue aos camaradas do Guttenplag sem sombra de hesitação, porque eu sei que a suspeita de plágio não é sequer possível, mesmo que haja um ou outro erro de citação.

Por último há ainda a forma como reages. Se a sociedade da transparência total chegar (e acho que estamos muito distantes dela), vai tornar-se claro que ninguém é perfeito - para quem precisava da clarificação. Aí, como diria qualquer manual básico de comunicação de crise, o fundamental é reagir de forma serena, responsável, assumir as culpas e acima de tudo não mentir.

Ora Guttenberg mentiu até a mentira se ter tornado incomportável - na verdade, na minha opinião mentiu até quando ela já se tinha tornado incomportável. E aqui, com ou sem internet, os valores nao mudaram.

É quase sempre possível salvar a honra do convento, desde que ela exista.

Helena disse...

Rita,
- pondo o Guttenberg completamente de parte (e tens toda a razão no que dizes sobre ele) -
achas que o escrutínio da internet vai parar na fronteira entre o público e o privado?
Se nem os jornais respeitam, quanto mais os anónimos da internet.
Lembras-te do episódio "diário da Kate McCann"? Uma mãe passa para um caderno considerado privadíssimo algumas das suas experiências familiares, desabafa, faz confidências a si própria, e no momento seguinte isso é considerado matéria de interesse público e ela vê os seus segredos expostos no lamaçal das teorias da sua culpa.

Ou o Facebook: nem quero pensar na quantidade de palermices que os meus filhos lá podem ter escrito, a quantidade de fotografias patetas que lá terão passado. E de como isso possa ser aproveitado num momento em que estejam a concorrer para um importante cargo público.
Ou até o que escrevo neste blogue. Sabe-se lá quantas frases mais infelizes haverá por aqui, a pedir para serem tiradas do contexto e dissecadas a meu desfavor.

Blondewithaphd disse...

Very good food for thoughts...

A. Castanho disse...

Helena, não partilho dos teus receios. A "internete", como muito bem diz a Rita Maria, não passa de mais um martelo nas mãos (sempre imperfeitas) da Humanidade. Seguramente que alguém deve ter dito ao inventor do martelo: "acabas de inventar uma arma poderosíssima, a qual poderá ser usada até para matar; para mim, serás o responsável moral por todos os assassínios perpetrados com recurso ao uso desta nova arma dibólica"!


E isto pode ser repetido e extrapolado para toda e qualquer invenção humana: a roda, o fogo, a pólvora, o parafuso, o vidro, a máquina a vapor, o automóvel, o telefone, a televisão...


As ferramentas são sempre neutras. Como a bomba de neutrões... O uso que lhes damos é que pode ser passível de crítica, à luz de critérios éticos.


Descansa que as potencialidades negativas da "internete" nunca excederão aquilo que na essência ela é: apenas um meio técnico de ampliar e acelerar aquilo que já se fazia doutro modo! Como foram também a alavanca, a calculadora electrónica, ou o guindaste...


Se um dia fosse possível escrutinar eficazmente todas as nossas faltas pessoais, mesmo as mais íntimas, e apresentá-las, em tempo real, para que tivessem efeitos práticos sobre as nossas vidas, a profusão de situações e de ocorências seria de tal modo elevada, em termos numéricos, que tudo se banalizaria a um ponto de extrema irrelevância, deixando como sempre a flutuar sobre a espuma apenas tudo o que fosse considerado digno de relevo. E aí, duvido muito que entrassem os actos banais das pessoas banais...


É uma mera questão de Física, como no caso dos navios e da força do Mar (caso paradigmático do "inafundável" «Titanic»...): quanto maior for a resistência, maior será igualmente a exposição ao ataque dos elementos adversos. Um pouco como a filosofia do Judo...

sem-se-ver disse...

este caso parece-me assombrosamente simples: se o sr fosse minimamente honesto, nunca teria plagiado. e ponto final parágrafo.

assim (novo parágrafo), mal foi detectaco, deveria ter sentido tanta mas tanta vergonha que só lhe restaria a demissão. pura, simples e imediata. ponto final parágrafo.

pelo que (último parágrafo), ao não ter reagido assim, demonstrou não ter honra nem ser homem de bem.
desonesto, portanto.

(fechado o círculo)

(compreendo o que dizes e os teus receios, justificados, mas neste caso nem deveriam vir à baila, sob pena de poderem ser confundidos com uma desculpabilização do senhor)

Helena disse...

A. Castanho,
há uma diferença muito grande entre um martelo e uma pistola (para não dizer uma bomba atómica). A capacidade de causar dano é incomparavelmente maior. A internet é uma espécie de bomba atómica na mão de todos e qualquer um.
Podes achar que não corres riscos - entre tantos, porque haviam de se lembrar de ti?
Mas ainda outro dia falei de um site organizado por escolas, onde as pessoas podem dizer a coberto do anonimato tudo o que sabem sobre pessoas concretas dessa escola, e todos os outros podem comentar. Na escola do meu filho há um miúdo de 14 anos sobre o qual foram escritos 150 comentários a discutir se ele é ou não é gay.
Agora vê lá se te dava jeito que os teus colegas de trabalho andassem a comentar num site ligado ao vosso local de trabalho que tu és assim e és assado.
E, respondendo à Rita: que hipótese é que uma pessoa tem de limpar o seu nome, se os anónimos continuassem a insistir que ele (vou inventar) só faz carreira porque presta pequenos favores sexuais ao chefe?
Como é que uma pessoa se defende disto?

Sem-se-ver, pensei que tinha deixado bem claro que já não estava a falar do Guttenberg.
Quanto a este: ao ver o resultado daquele mapa da internet, dou-me conta da profunda desonestidade dele. Porque, de facto, ele tinha frases copiadas em praticamente todas as páginas do trabalho, mas no princípio tentou fazer passar a ideia de que era apenas uma meia-dúzia de erros involuntários. Esta mentira é, para mim, o mais grave de tudo.

E (eu a chover no molhado) assusta-me que as pessoas continuem a gostar dele, e se continue a falar dele como um futuro chanceler. Esta gente seria capaz de eleger o palhaço do McDonald's, se lhe caísse no goto!?

Rita Maria disse...

Acho que o teu caso Gutenberg foi apenas um exemplo mal escolhido, porque pegaste num acto público, sujeito pela sua natureza ao escrutínio público e também numa pessoa que caiu a meu ver quase mais pelo seu comportamento do que pelo facto em si.

Por isso deixando o caso e discutindo a internet:

Existe uma diferença de escala, claro. Duplamente: primeiro porque se pode espalhar uma calúnia de forma muito mais eficaz, duradoura e abrangente - como na tua analogia da bomba atómica; segundo porque qualquer um pode difundir esta calúnia, autoridade e poder que dantes estariam reservados aos jornalistas, que em teoria estariam regulados por um código ético (sobre este 'em teoria' haveria muito a dizer, mas nao me parece relevante). A uma escala maior, é um pouco como o nascimento dos meios de comunicaçao em massa antes da sua regulaçao.

Mesmo estando perante um fait accompli, uma vez que nao vao desligar a internet porque afinal nao era boa ideia, nao acho inútil discutir vantagens e desvantagens desta revoluçao. A mim parece-me um enorme incremento democrático e um alargamento imenso da liberdade de expressao. A liberdade de expressao tem problemas associados e deve ter limites? Sim, desde sempre.

Neste caso acho que vale a pena e que, porque vale a pena e nao só porque nao há alternativa, depende de nós agora como sociedade decidirmos como vamos lidar com este alargamento da liberdade de expressao. E acho que encontramos soluçoes, como encontram empresas todos os dias, como encontraram os colegas do Matthias, como encontrarás tu se um dia fores colocada face a esta questao. E acredito mesmo que, tendo em conta a democracia e a igualdade que vigoram em princípio na internet, é muito mais fácil encontrar soluçoes agora.

Quando fulano X era caluniado no jornal, na semana seguinte até podia haver um desmentido que ninguém lia mas a sua honra nao era recuperável. Na internet nao só a mentira tem uma perna infinitamente mais curta como a possibilidade de um desmentido ter o mesmo peso numa pesquisa é muitíssimo maior.

Por último, olhando para o bullying, o racismo ou a extrema-direita, tudo problemas que a internet pode potenciar: aqui nao acredito que o meio seja a mensagem. Estamos a falar da necessidade de educar para os nossos valores enquanto sociedade - é a mesma pessoa que dantes escrevia na porta da casa de banho que agora escreve na internet que fulano é gay. A soluçao também passa por limpar regularmente as portas da casa de banho? Passa, mas é uma medida acessória. Um pouco como a caridade: é importante que existam organizaçoes que a praticam, mas nao é essa a soluçao para a pobreza e a desigualdade social.

sem-se-ver disse...

helena,
eu sei, mas, para além do que eu mesma disse, uso as palavras da rita: foi um exemplo mal escolhido.

quanto à net, tb subscrevo a linha de raciocínio da rita.

Helena disse...

Não foi bem um exemplo, foi um "e já que estamos a falar do poder da internet..."
Mas pronto: importante é que fique claro que este tema foi suscitado pela recente revelação do poder e da eficiência da internet, e de modo algum por ter pena do ministro.

Quanto ao resto: acho que estamos a falar da mesma coisa - "depende de nós agora como sociedade decidirmos como vamos lidar com este alargamento da liberdade de expressao." é outra maneira de dizer "convinha falarmos hoje sobre os limites básicos da tolerância exigíveis perante a fragilidade do humano que - afinal de contas - todos nós somos."
Concretamente: num momento em que qualquer um pode publicitar o que lhe apetecer - e mesmo que seja a verdade - convém que a sociedade saiba que não se pode exigir a ninguém que seja perfeito.
(Mas olhem que não estou a falar do plágio do Guttenberg, que está muito para lá do aceitável!)

Contudo, não sou tão optimista como a Rita. Penso que essa batalha já está perdida. Vamos ter a internet infestada de pequenos instantes em que gente importante se descai. Como se fosse possível viver permanentemente observado por câmaras e telemóveis, sem se descair nunca.
Vamos ter filmes de políticos que, julgando-se a recato, tiram um macaco do nariz, vamos ter passagens dos discursos onde se enganam (Sócrates: "queremos um país mais pobre!"), vamos ter o Durão Barroso nos seus tempos de estudante a fazer uma comunicação sem pés nem cabeça. E tudo isso pode ser utilizado com precisão cirúrgica, quando for conveniente para destruir a imagem de uma pessoa.

Vamos ter de treinar o bom senso e a tolerância. E acho que não, não vamos conseguir.

Rita Maria disse...

Oh meu deus, o fim do mundo ;)

Conheces aquela frase do Douglas Adams, the natural order of things??

“I suppose earlier generations had to sit through all this huffing and puffing with the invention of television, the phone, cinema, radio, the car, the bicycle, printing, the wheel and so on, but you would think we would learn the way these things work, which is this:

1) everything that’s already in the world when you’re born is just normal;

2) anything that gets invented between then and before you turn thirty is incredibly exciting and creative and with any luck you can make a career out of it;

3) anything that gets invented after you’re thirty is against the natural order of things and the beginning of the end of civilisation as we know it, until it’s been around for about ten years when it gradually turns out to be alright really.

Apply this list to movies, rock music, word processors and mobile phones to work out how old you are.”

Helena disse...

está bem, está... ;-)
Estava agora mesmo a traduzir dois parágrafos muito interessantes de um artigo do Spiegel, que infelizmente te dão razão.

;-) para o infelizmente

Até já.

A. Castanho disse...

"sem-se-ver" (penúltimo comentário): invulgarmente límpido e cristalino. Os meus parabéns!


Sobre a "internete" e seus imensos e radioactivos perigos: repito o que já disse, o meio em si é neutro. Se é mais potente, há uma velha resposta à altura, que é "para grandes males, grandes remédios".


A força da "Internet" é também a sua grande fraqueza: se quero ser levado a sério, tenho de dar a cara (e correr o risco de levar uma lambada a doer mesmo, seja ela físicamente, seja judicialmente - vidé o acordo de hoje entre Rui Pedro Soares e o Semanário "SOL", que vai ter de o indemnizar a bem, para não ter que o indemnizar ainda mais dolorosamente a mal, toma lá Zé António Saraiva, que já almoçaste!); se não der a cara, não serei levado a sério, pelo menos numa Sociedade decente - se escreverem na casa-de-banho que eu sou isto ou aquilo também não me posso defender, mas ninguém que me conheça irá levar tal palermice a sério.


Por isso, continuo sem perceber a origem dos teus receios. Desde que tomemos as devidas cautelas e caldos-de-galinha, óbviamente. E talvez agora compreendas por que não apareço aqui com o meu nome completo, ou mais conhecido...

Helena disse...

A. Castanho,
olha que não, olha que não...

Primeiro: as pessoas não sabem lidar com isso. Já houve casos de miúdos que se suicidaram porque alguém escreveu coisas sobre eles na internet. Seria interessante fazer um inquérito aos psicólogos juvenins: quantos casos há de miúdos que precisam de ajuda, que nem sequer se atrevem a sair à rua porque alguém publicou algo que os envergonha imenso? E outro inquérito interessante: quantas pessoas há que se recusam a aceitar cargos públicos porque não estão para ver o seu nome enxovalhado?

Segundo: nem todos te quererão bem, e haverá com certeza um ou outro que gostará de ter sobre o que falar. Independentemente dos factos, dificilmente conseguirás apagar a ideia de que "não há fumo sem fogo".

Terceiro: uma vez o Expresso trouxe uma notícia falsa sobre o meu pai, na primeira página, onde o faziam passar por altamente corrupto - e era apenas um caso de um nome semelhante, nem sequer igual (passo a vida a falar disto, mas é que foi uma chocante oportunidade de aprender imenso). Na segunda-feira seguinte, uma pessoa que o conhecia muito bem e de quem ele pensava ser amigo disse-me "oh, pá, não esperava isso dele"

Quarto: quando um tribunal decide a favor de alguém que já foi considerado culpado no tribunal popular, qual é a reacção? "Estão todos feitos uns com os outros".

sem-se-ver disse...

helena,
claro que a net amplifica o poder terrífico da maledicência e da maldade tout-court; sem dúvida que também por isso há que advertir todos em geral, e os jovens em particular, para a NECESSIDADE IMPERIOSA de protecção da identidade e privacidade na net (vd moi-même, que se recusa a ser mais do que sem-se-ver, e foge do FB como diabo da cruz por essa mesma razão); mas não há que diabolizar o meio. é um instrumento que, como todos, pode ser bem ou mal usado.

(lamento muito essa história com o teu Pai, claro está)

A. Castanho disse...

Helena, mas olha que é sim. O lamentável caso do teu Pai não aconteceu bem antes da "net" existir? O que é que a "net" tem a ver com o suicídio dos jovens? Acaso não se suicidaram sempre jovens por esses motivos, fosse qual fosse o "trombone" ou a "boca" utilizados?


Daqui por cinco ou seis anos já toda a gente se terá habituado a lidar e a defender dos aspectos mais agressivos da "net" (mantendo escrupulosamente a privacidade e o sigilo), assim como os carros só a partir de certa altura passaram a ter cintos-de-segurança e "air-bags". Que nem por isso deixa de haver acidentes mortais, qie dantes eram provocados por quedas de cavalos...


A essência, a essência e o conteúdo das coisas é que nos deve ocupar e preocupar, neste mundo em que tanto se sobrevalorizou, inútilmente, a forma e o invólucro delas...

Helena disse...

Vá, eu não estou a dizer que temos de destruir a internet, como os operários tentaram fazer com as máquinas na altura da revolução industrial.
Estou apenas a dizer que, paralelamente com as muitas vantagens que traz (e como seria a minha vida sem a internet? andava um milénio para trás!) tem também riscos graves e com os quais não sabemos lidar: a possibilidade de, de forma anónima, destruir o bom nome de qualquer um a uma escala até agora desconhecida (e não basta evitar o Facebook, não basta andar mais ou menos anónimo na net), ou a possibilidade de apertar o cerco a qualquer um.
O caso McCann (que foi mais dos jornais que da internet, diga-se de passagem) permite vislumbrar o que pode acontecer a qualquer um de nós. De repente podem começar a aparecer na net fotografias daquela noite em que eu tinha um copito a mais, um testemunho daquele meu one night stand, alguém a dizer que me viu num clube de swing, etc. Tudo coisas privadas, não é?, mas que dão cabo da minha imagem de seriedade.
(ah, já agora: tudo coisas inventadas)
E a gente não tem defesa para isto. A não ser meter-se debaixo da cama, ou torcer para que ninguém repare em nós.

E conto apenas uma históriazita "sem importância": duas adolescentes zangaram-se porque uma começou a namorar com o rapaz de quem a outra gostava. Como vingança, esta pegou em fotografias que ambas tinham feito nuas, na brincadeira, no tempo em que eram as melhores amigas, e pôs na internet. Quando a outra descobriu, já toda a escola tinha visto as fotografias e se andava a rir. Precisou de meses para conseguir ganhar coragem para sair à rua.
Ter cuidado, dizem vocês. No caso, significa que miúdos da escola primária ou início do secundário têm de aprender a desconfiar de tudo e de todos, aprender aos seis anos a proteger permanentemente a sua imagem. Não fazer figuras tristes, não escrever cartas ridículas.

Ou estou a exagerar?

A. Castanho disse...

Pois, eu acho que talvez exageres um pouco, embora com as melhores intenções. Pegando no teu exemplo, se é mesmo o melhor que podes apresentar em defesa da tua tese, diria que tirar fotografias nua, seja lá com quem for (até com a Mãe...), pode pôr gravemente em risco a privacidade. Uma qualquer criança deve ter a noção disso, sim. Não basta ensinar as crianças que devem atravessar sempre na passadeira...


Quanto ao teu caso "pessoal": claro que tens defesa para "isto"! Sem precisares de te meter debaixo da cama (ou esperar que ninguém repare em ti, ou te queira mal): é teres uma vida irrepreensível. Tu própria o disseste, por palavras tuas - "tudo coisas inventadas"! Estás a ver?

Helena disse...

Nunca tiraste macacos do nariz? Nunca deste um pum? Nunca andaste á pancada com um rapaz da escola? Nunca tentaste copiar num teste? Nunca contaste uma anedota daquelas que só se contam entre muito bons amigos?

É impossível ter uma vida irrepreensível. Por isso falei em educarmos a tolerância. Porque todos nós cometemos um ou outro erro, e seria insuportável sermos expostos no pelourinho da internet pela menor coisa que façamos.

A. Castanho disse...

Repara no teu exagero: todos os exemplos que apresentas são insusceptíveis de ser "captados" ou veiculados pela "internete"!


SIM, É POSSÍVEL, ainda que custoso, termos uma vida irrepreensível (nos aspectos importantes, claro) e, se mantivermos os cuidados básicos (não "atravessarmos fora da passadeira"), também não será impossível escaparmos incólumes ao pesadelo de um dia podermos ser pendurados, injustamente, no "pelourinho da internete". Agora, se for justamente...

Helena disse...

Por acaso o de tirar macacos do nariz ocorreu-me porque vi na internet um filmezinho feito às escondidadas durante um almoço de políticos.
Mas também tens aqui este, visto quase 1/4 milhão de vezes (e tem dezenas de cópias na internet): tirar macacos do nariz, metê-los à boca, cheirar o suor.
http://www.youtube.com/watch?v=9Q3XKvjLDsE

Cenas de pancadaria filmadas nas escolas: é o que mais há - basta lembrar aquela cena da professora e do telemóvel.

Quanto ao facebook: está cheio de fotografias daquelas que só se fazem entre amigos, e que alguém publica sem pensar duas vezes.

Esta semana puseram mais um filme muito engraçado na "internet": a reacção da Angela Merkel e da ministra da Cultura, Annette Schavan, quando a Merkel recebeu um SMS dizendo que o Guttenberg tinha acabado de resignar.

http://www.youtube.com/watch?v=cME9qZWkA7c

O que por aqui vai de comentários sobre aqueles meios sorrisos, e até sobre a olhadela que o Bruderle tentou dar ao SMS...

Helena disse...

Brüderle.