10 fevereiro 2011

esta Berlim é uma cidade de malucos, mas as pessoas parece que não se importam

De erro em erro, vou aprendendo: só se pode comprar bilhetes para filmes da Berlinale com três dias de antecedência (quatro, se forem repetições dos filmes que vão a concurso). Com excepções: todos os filmes que passam no Friedrichstadtpalast e os das secções "cinema e culinária" e "Berlinale goes Kiez" podem ser comprados logo no primeiro dia.

Estão a ver isto? De um modo geral, se quiser ir ao cinema no sábado tenho de ir para a fila na quarta de manhã (as bilheteiras abrem às 10 horas); e se também quiser ir no domingo, tenho de voltar para a fila na quinta de manhã; e se quiser ir na segunda, etc. e assim sucessivamente. Se isto não é uma cidade de malucos! Quantos milhares de berlinenses perderão três ou quatro horas das suas manhãs durante a época deste festival, só para comprar os bilhetes?

Na minha estreia nas bilheteiras cheguei um pouco antes da hora de abertura, e já tinha centenas de pessoas à minha frente. Mas consegui ainda assim comprar bilhetes para a primeira exibição de Offside, que vai ser provavelmente um dos acontecimentos políticos mais importantes da Berlinale deste ano, porque o seu realizador, o iraniano Panahi, está preso por seis anos e proibido de filmar por vinte. Tenho a certeza que a Isabella Rossellini vai fazer um discurso a apelar aos governantes iranianos para que reconsiderem essa decisão. Panahi é um dos membros do júri desta Berlinale, e a sua cadeira ficará ostensivamente vazia.
Também consegui bilhetes para uma première na sexta, El Premio (um filme argentino que me promete), e para sábado comprei um que a Christina queria muito ver: Life in a Day. O que significa que vou fazer gazeta ao Swans do Hugo Vieira da Silva, por favor não contem a ninguém senão ainda me tiram o passaporte português.
Os bilhetes para "Cinema e Culinária", esses, já tinham esgotado nos primeiros minutos do primeiro dia de vendas. Que pena! Queria tanto ir ver o Jiro Dreams of Sushi, sobre o famoso mestre de sushi, Jiro Ono (famoso para mim desde o fim-de-semana passado, quando vi o nome dele no programa da Berlinale...), e comer a seguir os petiscos do Tim Raue. Ou o Toast, ou o También la Lluvia, ou o El Camino del Vino. De facto, queria ir a todos. Não admira que estes bilhetes esgotem logo nos primeiros minutos.

Hoje voltei ao suplício. Como queria comprar bilhetes para a première de Pina, do Wim Wenders, fui especialmente cedo - tipo: uma hora antes de abrir a bilheteira. Para deparar com centenas de pessoas à minha frente. Como se não bastasse, informaram-me que só podia comprar dois bilhetes para cada filme. No ano passado houve casos de açambarcadores que foram depois vender os bilhetes por 2000 euros na ebay, e por isso, para reduzir o risco de abuso, só vendem dois bilhetes a cada pessoa. Ora eu tinha andado a oferecer-me para comprar bilhetes para os amigos - sempre torna menos ridículo o tempo que perco naquela espera - e tinha encomendas para quatro.  E só podia comprar dois.

Mas ainda faltava uma hora para começar a venda, ainda tinha uma hora para fazer networking naquela fila. A princípio foi difícil: todos de cara fechada, a mulher à minha frente estava com ar de "não me incomodem, não vêem que estou a ler o meu jornal?" e a atrás de mim fazia de conta que não estava ali. Valeu-me um idoso que queria comprar três bilhetes para o Pina, e não percebia nada daquilo. Fui-lhe explicando, tendo a sorte de dizer asneiras que obrigavam os outros a entrar na conversa para me corrigir, e a pouco e pouco o gelo foi derretendo. As pessoas guardaram os respectivos jornais e começaram a fazer gracinhas umas com as outras, a ser prestáveis, a combinar quem comprava bilhetes do Pina para quem. Quando começaram a passar os primeiros felizardos com bilhetes, quisemos saber a que horas tinham vindo para a fila. "Cinco da manhã", disse uma, "esperei na rua até à abertura do edifício, às sete". Se isto não é uma cidade de malucos! "Pior que na Filarmonia", comentei eu - e logo começou uma animada conversa sobre ruídos nos concertos da Filarmonia e o humor de Haydn na música. Sim: o idoso que não percebia nada de bilhetes da Berlinale sabia imenso de músicos e de música erudita. Por essa altura, já não estávamos em fila, mas em animada roda.
Fomos interrompidos por um dos funcionários que passou para dar algumas informações, e contou que a máquina do cartão bancário estava a fraquejar. "Óptimo!", disse eu, "isso aumenta as nossas hipóteses de conseguir um bilhete para o Pina, porque podemos pagar em dinheiro" - e desatámos todos a rir de Schadenfreude. Mas guardámos o lugar a uma velhinha enquanto ela ia levantar dinheiro a um banco. E guardámos a lugar a outra, espertalhona, que estava sentada no chão com um portátil aberto. Dissemos-lhe que se fosse sentar confortavelmente noutro sítio, e despedimo-nos até daí a uma hora. Ela foi, e voltou daí a pouco a contar que o Pina estava a esgotar.
Desatámos todos a preparar planos B, cada um com o nariz muito enfiado no programa.

18 comentários:

Paulo disse...

Essa Qual der Wahl foi terrível.
Afinal conseguiste bilhetes para o "Pina" ou não?

Helena disse...

Não. Esgotaram todos - inclusivamente os das repetições - meia hora antes de eu chegar à caixa. Mas não é propriamente um problema: ainda posso tentar arranjar sobras da Imprensa e assim meia hora antes do filme começar, e vai de certeza passar no cinema.

Mas é mesmo difícil escolher. Parece que são mais de quatrocentos filmes!

Paulo disse...

Ele há-de aparecer nos cinemas, sem dúvida, mas vê-lo agora teria mais graça. Boa sorte.

Rita Maria disse...

Uff, precisei de vir ver a caixa dos comentários para descobrir se tinha bilhete ou nao ;)

Helena disse...

Pois, esqueci-me de contar. Shame on me.

snowgaze disse...

Fantástico. Eu não me metia nisso (as filas, tenho horror a perder tempo em filas!), mas a história é genial. :-)

Gi disse...

Adorei a descrição, Helena. Essas cenas de gelo a derreter derretem-me também a mim.

sem-se-ver disse...

poxa... por meia hora. caramba :(

sem-se-ver disse...

(2º coment:
esses srs tem que aprender umas coisitas com o indie e o doclisboa... no que se refere a bilheteiras, pelo menos!)

Helena disse...

Mais ou menos para todos,
sim, foi um momento muito especial. Eu estava no meio daquilo sem conseguir reconhecer as pessoas que apenas 10 minutos antes ainda pareciam tão irremediavelmente antipáticas.
No fim, pouco faltou para irmos tomar café juntos.
E o que aprendi com elas! Por exemplo: a Cate Blanchet e o George Clooney são uns minorquinhas. Ficámos a pensar o que devíamos levar para a espera no tapete vermelho, para os ver melhor: binóculos, ou microscópio?
;-)

Helena disse...

sem-se-ver,
Como é que fazem no indie e no doclisboa?
É que este sistema é uma autêntica loucura! Mas funciona... eu bem digo que eles são todos malucos.

A. Castanho disse...

Muito a despropósito: e já viste o "Tulpan" (um Filme de um Realizador casaquistanês, mas uma Produção suíço-germano-polaco-russo-casaquistanesa)? É uma maravilha...

sem-se-ver disse...

simples: bilheteiras on-line, bilheteira central na culturgest onde podes comprar para todos os outros locais onde o festival também se passa, bilheteiras nessas outras salas onde podes comprar so o que vai passar ali, reservas até 24h antes (se nao me falha a memoria) e, naturalmente, poderes comprar seja para que data for do festival, seja qual for a antecedencia, portanto. além das 'assinaturas', vulgo passes. bilhetes a 3 euros.

tá bem montada, a cena. :)

(e dizemo-nos atrasadinhos, desorganizados e sei lá...)

(tb têm acordos com a carris e fazem carreiras entre as diferentes salas do festival, todos os dias do dito, a horas certas, começando de manha e acabando à noite...)

love them :)

Helena disse...

A.Castanho,
não, não vi, mas vou estar atenta.

Ou estás a falar de Tulipani? Pane e Tulipani?
;-)

Helena disse...

sem-se-ver,
isso é muito bom, mas não resolve o problema que os da Berlinale querem evitar: que haja açambarcadores a comprar tudo no primeiro minuto, e a vender depois na ebay por preços absurdos.
Isto é uma cidade com três milhões de foliões (excepto a Rita, que trabalha pelos outros todos) ( ;-) para a Rita) e a oferta é incrivelmente menor que a procura. Talvez a maneira mais justa de dar uma oportunidade aos mais interessados seja mesmo este sistema de várias bilheteiras espalhadas pela cidade, venda três dias antes e compra de dois bilhetes no máximo.
Também têm um pequeno contingente que é oferecido na internet, e levantado na bilheteira antes do início do filme.
É que isto não é só o filme, é toda a festa e o espectáculo ao vivo. Ontem estive sentada a um metro das filas dos realizadores e actores mais famosos do cinema alemão e do iraniano. Todos ali, à mão de semear.

Para as sessões menos "glamourosas" (os filmes nos cinemas de bairro, por exemplo) os bilhetes estão disponíveis logo desde o princípio na internet e em todas as bilheteiras.

sem-se-ver disse...

ok, calaste-me

Helena disse...

Ai, isso é que não pode ser! Gosto imenso de te ouvir!

A. Castanho disse...

Não, é mesmo "TULPAN", nome também da formosa e gentil moçoila casadoira das estepes, que um jovem e pobre pastor tenta conquistar, à base das suas heróicas chalaças de ex-Marinheiro (de água-doce...), as quais não chegam, porém, para convencer os Pais da cobiçada Tulpan...

Isto não é um resumo do Filme, muito menos uma "crítica", é só uma nova recordatória, porque acho que vais gostar muito de ver.

Uma pista: "By the Rivers of Babylon" (dos «Boney M»)...