12 outubro 2018

nos transportes públicos de Berlim

1. De cada vez que vou sentada nos transportes públicos e tenho o impulso de oferecer o meu lugar a uma pessoa mais velha, penso duas vezes: corro o risco de estar a oferecer o lugar a alguém mais novo que eu. É que a imagem que tenho de mim estacionou ali para os 25 anos, talvez 30, mas quem vê caras não vê auto-imagens. Um dia destes alguém ainda vai levar a mal.

2. Entrei para uma carruagem de metro que ia bastante cheia, e fiquei à porta, juntamente com uma jovem alemã que ocupou o espaço a que sentia ter direito sem reparar no pobre rapaz ao lado dela. Este, encurralado entre as costas do banco atrás dele e a mulher à sua frente, começou a fazer um exercício de implosão. Sabem como é, um corpo humano a tentar ficar o mais plano possível? Nem respirava, coitado do rapaz. A rapariga estava muito descontraída a pensar em coisas suas, inteiramente alheia ao esforço dele para que os corpos não se tocassem. Saí na estação seguinte, e sorri para o rapaz um daqueles sorrisos de compreensão, solidariedade e agradecimento pelo respeito demonstrado.
Suspeito que era refugiado. Um desses "refugiados que vêm para cá violar as nossas mulheres"...

3. Ontem Berlim exibiu-se no seu melhor rosto outonal. Encostei o telemóvel ao vidro da S-Bahn e comecei a fotografar às cegas. Do outro lado do corredor, um alemão meteu conversa. Se estava a filmar contra o sol. Não, estou a fotografar. E fotografias tiradas contra o sol ficam bem? Olhe estas aqui. Ena, ficaram óptimas, não imaginava! Pois é, às vezes corre bem. Você é da Escandinávia? Não, sou portuguesa.
E então (até vou mudar de linha), ele disse isto: Ah, Portugal! Como é que anda o vosso, como é que ele se chama?, o vosso rei? O... vosso presidente, o... o vosso chefe? O... ah, já sei! O Ronaldo! Como anda ele? É um jogador de classe, mas aquilo que ele fez não se faz. Vai ter de pagar por isso. Vai ter de pedir desculpa. Vai ter de pedir desculpa.








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