15 maio 2016

um concerto de mil vozes



Daqui a exactamente uma semana, mais minuto menos minuto, estarei na Filarmonia a cantar esta missa de Schubert.
Eu, e mais 999, e mais os solistas. Não se preocupem comigo, desta vez não me vou envergonhar, porque tenho o playback muito bem ensaiado: nas partes em que não estou segura, abro e fecho a boca dentro do ritmo e das vogais certas, e a coisa vai.

[ ouçam o "Domine Deus", a partir de 10:48, ouçam o - aaaaaah - "Miserere" ]

O meu coro teve cerca de dois meses para preparar a missa inteira. O nosso maestro deu-nos um plano muito exigente para prepararmos previamente cada ensaio, enviava-nos e-mails do género:

                               Seite Takt  bis
1 Kyrie Christe           4    51    88
2 GloriaGratias          14  68    115
   Domine Deus          19 151   229
   ff. Fuge
   Cum sancto             29 329   387
   ff.                            31  388   432
4 SanctusBenedictus (tutti)
                                  68    26   35

Quem não tinha piano, podia usar este site: http://www.cyberbass.com/Major_Works/Schubert_F/schubert_mass_eflat_major.htm
(que é o perfeito antónimo de música, mas quem não tem cão. Além disso, pode-se reduzir o ritmo, o que dá jeito quando se está a aprender as passagens de fuga.)

Apesar do ritmo intenso do trabalho e de fazermos os trabalhos de casa, no último ensaio senti sinceramente pena antecipada do Simon Halsey, que no próximo domingo vai ter de apresentar uma missa de Schubert com duas dúzias de coros amadores, e mais o seu fantástico Rundfunkchor Berlin. Adoro o Simon Halsey, gosto imenso de trabalhar com ele (esta é a segunda e provavelmente a última vez, porque ele também se vai embora de Berlim, como o Simon Rattle) (desconfio que esses dois em Londres vão provocar uma bela subida do índice de felicidade na região) e deu-me pena: coitado, não merecia levar com uma como eu, que em dois meses o máximo que consegue fazer é preparar o playback na ponta da língua. 

E depois senti muita pena de mim. É que, no ensaio da semana passada, ficámos um pouco mais em duas passagens - uma que me cativou por parecer russa [ 30:10 ] e outra, quase renascentista, que me fez sentir em casa - e por termos parado mais nelas comecei a perceber o que o Schubert queria e a sentir-me encantada por estar em comunhão com ele; pelo meio o nosso maestro dizia gracinhas do género "isto não é erro de impressão, é mesmo maldade do Schubert", a seguir a maldade resolvia-se em beleza, e eu só pensava - cheia de pena - que mais seis meses, seis meses de entrega total e íamos entrar realmente nesta missa e no Schubert, íamos talvez conseguir tocar a alma desta música.

[ ouçam os solistas a cantar "e encarnou", a partir de 20:50 ]  


2 comentários:

Lucy disse...

Lindo... mas a partir do 22:50, não é?
Boa sorte para o concerto deve ser lindo, pena não (te) poder ir ouvir!

Helena Araújo disse...

22:50, sim!
Já corrigi.
Não sei como me aconteceu - mas a verdade é que pelos 20:50 também era lindíssimo. Nesta missa é como no Lavoisier: não se perde nada, tudo se aproveita e nos renova. :)