07 outubro 2015

manteiga

"Manteiga" era a palavra de ontem na enciclopédia divertida do facebook onde ultimamente tenho andado a gastar o tempo que tenho e que não tenho.

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Que pena a palavra mágica já não ser manteiga. Queria ter escrito ontem, mas a vida real meteu-se-me de permeio, e ao fim do dia já estava demasiado cansada para vir cá contar daquela vez que comi cinco pães com manteiga ao lanche, e a empregada me proibiu de comer mais um que seja, mas eu estava com fome e estava-me a saber tão bem, e além disso já tinha acontecido o 25 de Abril e não havia motivo para ter respeitinho pela autoridade, pelo que comi o sexto, e ela ficou tão furiosa que atirou o meu copo de leite pela cozinha fora (muitos anos depois uma psicóloga havia de explicar ao meu filho "quando os teus pais fazem coisas que te parecem patetas, é porque não sabem como lidar com aquela situação" - e eu vi o olhar dele a iluminar-se, finalmente o mundo fazia sentido, e podia continuar a gostar dos pais). Ui, a nossa empregada era uma mulher, ui!, daquelas cuidado com ela. Eu tinha 11 anos, e todas as semanas tinha de limpar as janelas da casa inteira. Em compensação, os rapazes tinham uma vidinha descansada. A minha irmã, aos 7 anos, era conhecida no talho porque pedia assim: "queria 1 kg de carne de estufar mas não me engane senão a minha empregada bate-me". Trazia a carne para casa, e ia limpar as casas de banho. Um dia era preciso falarmos muito a sério desta violência quotidiana contra as crianças, que provavelmente fez parte da história de nós todos. Ou quase todos.

Mas queria falar de manteiga, e dos scones dos Cinco a sair do forno, barrados com manteiga. Lá em casa descobrimos a receita de scones no livro do Pantagruel, e aos sábados e domingos, quando o pão se acabava (pudera, com gente a comer cinco e seis pães num lanche só...) era o que fazíamos. Adaptávamos a receita aos ingredientes que havia em casa, variava sempre. Talvez por isso tenha agora a mania de açambarcar, para que nunca me faltem em casa os ingredientes para todas as receitas do Pantagruel. O Joachim protesta: "achas que a guerra começa amanhã?", mas o meu inconsciente lá sabe como se arranjar com os traumas de não ter ovos para fazer uns scones ao domingo à tarde. Os nossos scones ficavam como pedras, mas quentes e barrados com manteiga (quando a havia), hummmm. Além disso, a fome é boa cozinheira, como dizem os alemães. Muitos anos mais tarde, convidei uma amiga para um brunch, e fiz esses scones. Depois ela convidou-me para um lanche, e fê-los à maneira dela, fofos como bicos de pato (ui, don't get me started on bicos de pato!). Comi-os com muito prazer e alguma vergonha, lembrando o ar discreto dela enquanto ia roendo os da minha infância. Já tenho um teste infalível para ver se os amigos são bons: observar a cara que fazem ao comer os meus scones.

Mas pronto, a palavra de hoje já não é manteiga, pelo que nem conto isso, nem falo de short bread, nem de fudge, nem deixo aqui uma receita de brownies que tem tanto de manteiga como de chocolate. Ainda anteontem fui dar desses brownies aos trolhas de uma obra aqui perto, nem queiram saber porquê, e eles agradeceram muito. Eu também lhes agradeço muito poder passar pela obra e cumprimentarmo-nos mutuamente como pessoas civilizadas, mas a palavra de hoje não é piropo.


2 comentários:

Carla R. disse...

Oh, tão bom.
Quero mais. Com scones duros como pedra e tudo.
Onde é que posso ler mais disto ? Que seita enciclopédica é essa ?

Helena disse...

:)
Já te vou meter na seita, fica descansada. Mas olha que nos gasta muito tempo! Todos os dias propõem uma palavra nova, e depois o pessoal desata a fazer posts sobre isso. Ontem eram três: Nigéria, Namíbia e Níger. Não publiquei nada porque passei o dia a telefonar para agências de viagens... ;)