14 julho 2015

eu se calhar ando a ver demasiados filmes...

Se calhar ando a ver demasiados filmes, mas estou em crer que desta vez não é alucinação.

No passeio matinal com o Fox, cruzei-me com três homens que não me chamaram a atenção (o que mais há por aqui é grupos de homens na rua, e além disso não olho para homens na rua) (quer dizer, tem dias, mas têm de valer a pena, o que não era o caso) mas acabei por reparar neles pela maneira como se comportavam. Dois iam à frente. Um deles, o que tinha cabelo comprido aos caracóis, olhava para as casas, o outro, com carequinha sexy tipo Varoufakis, olhava para os lados, e o que ia atrás, também ccstV, olhava em todas as direcções. Os dois ccstV tinham uns botões estranhos na lapela. Estavam a ser seguidos por um carro tipo grande preto, conduzido lentamente por um gajo que ia a falar para - juro que vi com estes que a terra hade comer ("hade" ou "háde"? lá tenho eu de ir consultar outra vez o acordo ortográfico) - como ia dizendo, eram seguidos por um carro conduzido por um homem que ia a falar para a sua caneta.

O Fox parou, para ler atentamente um jornal qualquer numa esquina, e eu parei também, olhando para o quadro para tentar perceber porque é que o dos caracóis parou a olhar atentamente para a casa de pessoas que conheço, e também para poder contar aqui. O ccstV olhou para mim com ar ameaçador. Quase lhe ia fazendo uma cara tipo "isto é um país livre e posso olhar para onde me apetecer" mas depois lembrei-me daquele pai benfiquista em Guimarães que também achava que estava num país livre e podia dar água ao filho onde lhe apetecesse, e apontei na direcção do Fox, que continuava a ler o jornal, chamei-o, e apressei-me para longe dali.

Muitos passos depois atrevi-me a olhar para trás, e não havia vestígios deles. Esfreguei várias vezes os olhos, e a rua continuava deserta. Se calhar ando a ver demasiados filmes...

A verdade é que tudo isto existe, tudo isto é triste - e muitas vezes ignoramos que é uma parte da nossa realidade.

(Se pedirem com jeitinho conto também a história de um conhecido meu que uma vez andou a investigar uma estranha morte por afogamento, e daí a pouco estava a chegar demasiado perto de simpáticos concidadãos que a seu tempo foram treinados pela Stasi para eliminar pessoas parecendo morte acidental ou por doença.) (Ou daquela vez no Rio de Janeiro, que deixámos os miúdos em Santa Teresa a dormir descansadíssimos, depois do jantar, e resolvemos ir à Mangueira pelo caminho mais curto, que era pela selva junto a uma favela, e daí a nada estávamos a ser parados por gajos que se diziam polícias à paisana e nos apontavam metralhadoras - e era na zona do precipício para onde às vezes caem carros..., como me disseram mais tarde) (Também há a história - digamos que a li numa revista - da pessoa que trabalhava em sistemas de segurança e mais não digo, que um dia calhou de estar a falar com um reformado da legião estrangeira, que lhe falou com toda a naturalidade do modo como resolviam os problemas que os incomodavam, e que a única coisa chata era esconder o corpo.) (O que me faz pensar que aquele tipo do Terra de Ninguém, da Salomé Lamas, se calhar...)

(foto)


5 comentários:

tum tum disse...

1. Acho que é "há-de".
2. Que medo!

Helena disse...

Jugava que se percebia a piadinha do "há-de", tum-tum. :(

tum tum disse...

Não percebi :(

R. Horta disse...

Com o Acordo Ortográfico, o hífen sai e fica "há de". Não seria melhor continuar a escrever com a ortografia estabilizada anterior? Quando mais não seja, porque o AO não tem ponta por onde se lhe pegue...

Helena disse...

R. Horta,
sobre o AO não ter ponta por onde se lhe pegue, não tenho opinião.
A ortografia estabilizada anterior dará lugar, daqui a umas décadas, à nova ortografia estabilizada.
A única coisa que realmente me incomoda neste AO é a ilusão de haver uma aproximação. Que adianta o esforço de escrever da mesma maneira, quando há disparidades cada vez maiores na sintaxe e no significado das palavras?