27 agosto 2014

MRT


Hoje fui finalmente ao médico por causa de uma dor no ombro que me anda a incomodar há meses, e ele mandou-me fazer uma MRT. Fui, claro, que nem sabia o que isso era, e além disso a dor anda mesmo a incomodar. Nem sequer desconfiei quando me deram uma folhinha para ler e assinar, dizendo que durante todo o tempo havia contacto visual, e perguntando se sofria de claustrofobia. Fiz-me de forte, pus uma cruzinha no não. Mandaram-me entrar para uma sala, e foi então que vi a máquina de imagens por ressonância magnética, que desde sempre me provocou calafrios. Deitei-me, puseram-me auscultadores nos ouvidos e uma campainha na mão "para tocar se se sentir mal", disseram-me que o melhor era fechar os olhos, e ala comigo para dentro da câmara de torturas. Então, e o contacto visual?! Enganaram-me, era só a técnica a olhar para a figurinha que eu fazia com os pés de fora da máquina.
A primeira reacção foi de pânico. O que havia de fazer, ali metida de olhos fechados e sem me poder mexer, durante vinte minutos? Tentei entoar a Sicilienne de Fauré



e descobri nesse momento que, num regime totalitário, seria daqueles que começam logo a cantar - só de olhar para os instrumentos de tortura, confessava ali mesmo que a minha avó era o Zé do Telhado, e todas as outras revelações que me quisessem sugerir. Por pouco não toquei a campainha, para pedir que alguém viesse ter contacto visual comigo ao fundo do túnel, nem que para isso eu apanhasse um torcicolo. Pensei de novo nos prisioneiros políticos na solitária, e nas suas estratégias para manter a sanidade mental. Tentei lembrar-me da cantilena no yoga anti-stress, "vais pelo caminho da água, chegas a uma floresta de cedros, ao fundo há um pavilhão, entras..." mas não conseguia lembrar-me de mais nada - quem me manda adormecer sempre nessa parte do yoga anti-stress? E então a máquina começou a matraquear, rat-rat-rat-rat e pum-pum-pum-pum, eu era a Alexanderplatz do Döblin. Para o que uma pessoa está guardada! Que terá sentido a praça no meio de tanto rat-rat-rat-rat e tanto pum-pum-pum-pum? Será que ouvia? Será que sentia os operários a operar rat-rat-pum nela? Resisti à tentação de abrir os olhos, com a teimosia dos cobardes. E se a minha cabeça estivesse fora do túnel, e se eu estava apenas a ser vítima dos meus medos? Mas, e se não estivesse? Fecha os olhos, fecha os olhos, não queiras saber. Rat-rat-rat-rat pum-pum-pum. Ao fim de uma eternidade o tabuleiro começou a deslizar, eu abri os olhos e vi que tinha estado sempre fechada naquele tubo estreito. Ainda bem que não abri os olhos a meio.
Depois aconteceu tudo muito depressa. Deram-me o CD com as imagens, esperei um bocadinho pela consulta mas nem tive tempo de me pôr a par das novidades no mundo das futilidades, daí a nada estava a levar uma injecção e a marcar outra para a próxima semana, e a sair para a rua com a dor apaziguada.

Tão melhor que estou quase capaz de concordar que sim, que a tortura em certos casos é justificável...


6 comentários:

Cristina Torrão disse...

:D
Também já estive numa máquina dessas. Mas eu tinha um dispositivo à volta da cabeça com um pequeno espelho, colocado num ângulo especial que permitia ver uma abertura, no meio do tubo que me cobria (ilusão de ótica, porque, por cima de mim, só mesmo o tubo fechado). Acho que eu não podia fechar os olhos, o exame foi ao cérebro (não deu nada de mal). A minha tentação era desviar os olhos do espelho, mas estava como tu: não desvíes, não desvíes! ;)

Helena disse...

"não desvies, não desvies" - hahahaha

Cristina Torrão disse...

Ups! Estou a ver que não tem acento... ;)

Helena disse...

(Nem tinha reparado no acento.)

Cristina Torrão disse...

Mas foi um grande "desvío" da minha parte, Helena. Às vezes, não sei onde tenho a cabeça. Talvez tenha escapado algo ao MRT... ;)

Helena disse...

híhíhíhí :)