11 junho 2014

sinais auspiciosos



Durante os preparativos para a nossa mudança para Berlim, há cerca de sete anos, dei comigo num bairro muito sossegado, num dia claro de Outubro, a procurar uma escola para o Matthias. A rua tinha mansões do séc. XIX com jardins-parques e árvores enormes cujas folhas, já tingidas pelos Outono, pairavam no ar, embaladas pela brisa. Ouro no ar? Aceitei esse momento de beleza como um gesto de boas vindas de Berlim.

No sábado que antecedeu a mudança para a casa de imigrante tive de vir bem cedo abrir a porta a uns pintores, e aproveitei para ir passear o Fox junto ao lago. As tílias largavam flores douradas sobre nós, e acreditei que isso seria um sinal auspicioso.

Bem me enganei. Nesta mudança, tudo o que podia correr mal - enfim, quase tudo - correu péssimo. Alguém se enganou a fazer os alicerces das escadas, de modo que quando chegaram cá os homens para instalar as escadas foi preciso fazer à pressa os alicerces no sítio certo, e quando chegámos nós, com dois camiões para descarregar, o cimento ainda estava húmido. De modo que no dia seguinte foi preciso fazer 3 horas do trabalho do dia anterior, que faltaram ao fim da tarde, obviamente. Quando, finalmente, chegaram os dois camiões seguintes, começou a chover torrencialmente. Saíram depois das dez da noite, e o carpinteiro já não conseguiu montar os móveis. Telefonou dias depois a dizer que estava na cama com um febrão por causa das 3 horas que esteve a descarregar móveis vergastado pela chuva e pelo vento. Vários dias sem cozinha, nem armários nem estantes para começar a abrir as caixas e a dar destino à tralha. A internet, diz que virá um dia destes ou talvez lá para o Outono. E o simpático que andava a fazer o jardim foi pai quatro semanas antes do dia esperado (mas correu tudo bem, excepto que agora não vem trabalhar).

Nunca mais volto a acreditar nos sinais da natureza. Ou então, havia de arranjar de os saber ler.


7 comentários:

Luis Novaes Tito disse...

Ao menos o Fox está satisfeito.
:)
Helena, isso tudo vai passar. Veja lá se eles se despacham com a Internet senão ficamos sem leituras interessantes. Meta uma cunha ao seu primo Ricardo Araújo (é seu primo, não é?) que ele vai aí instalar a MEO4O.
Ah, é verdade, na Alemanha não há cunhas. Bolas, estamos tramados...

Agora a sério, que estava só a tentar distraí-la dessas chatices, espero que tudo comece a correr bem rapidamente. Abraço solidário.

Helena disse...

Obrigada, Luís.
E näo é só o Fox que está satisfeito. Eu, nos intervalos das caixas e das irritacöes com a telekom, também me sinto muito contente.
Até já!

Paulo disse...

Até já. Também fico à espera que isso da internet se resolva depressa para ires contando os detalhes todos e com vontade de experimentar a água do lago. O resto vai com o tempo, deixa lá.

jj.amarante disse...

Essa de pensar que uma mudança para uma casa acabada de fazer vai correr sobre rodas ou mesmo só "normalmente" e ver mesmo sinais auspiciosos só se pode entender como o cérebro a tentar evitar pensar no rol de problemas que se avizinha! Mesmo assim podia ser pior, de 27/Mai a 11/Jun foram apenas cerca de duas semanas de silêncio no blogue. E diga à Rita Dantas que a teoria dela de que as febres são causadas pelos virus e não pelo frio (que baixa as defesas contra os vírus) é falsificada com bastante frequência como o seu carpinteiro pôde agora constatar. Boa sorte e bons banhos!

jj.amarante disse...

Na continuação de um meu comentário anterior: já disse à Rita Dantas aquilo dos resfriados, num comentário a este interessante post:
http://infernocheio.blogspot.pt/2014/06/ironia-sarcasmo-e-cinismo.html?showComment=1402566287270#c1268719452686314795

Gi disse...

Valhamedeus, precisavas de um empreiteiro português para resolver isso.
Mas vai acabar por correr bem, acredito.

Helena disse...

jj.amarante,
para ser sincera, ao ver aquelas flores pensei que anunciavam uma nova fase boa da minha vida - de facto, nem me lembrei da mudanca.
Mas depois, quando tudo correu täo mal, voltei a lembrar-me das flores, e a rir de mim própria por achar que eram sinal de algo bom que por aí vinha.