28 outubro 2013

uma devassa alegre


Há momentos em que sinto um grande alívio por não viver em Portugal. Como agora mesmo, quando o país se entretém alegremente a lavar a roupa suja de um casal. Como desculpa, dizem que eles é que se puseram a jeito. Pois puseram - é isso, e a minissaia ser a desculpa do violador. 
Quem se lembra ainda de, no fim dos anos oitenta do século passado, ter sido criada uma revista propositadamente para publicar imagens com cenas muito privadas que envolviam um arquitecto lisboeta famoso? Não esqueci o comentário de um colega, quando falámos disso no trabalho: disse ele que se arrependia muito de ter visto aquelas fotos, porque se sentia conspurcado pelo próprio acto de abrir a revista e ver. Uma questão de pudor e decência. Hoje, apenas meio quarto de século mais tarde, já não é preciso criar revistas para esse tipo de material. A imprensa de referência publica, e o povo entrega-se alegremente à devassa.  

(Será que estou a ficar velha?)

(foto)

16 comentários:

calita disse...

estás tu e eu, pelo vistos.

Helena disse...

E parece que não estamos sozinhas. Vejo um grupo de velhotes engraçados.

(é bom envelhecer em tal companhia)

Unknown disse...

É verdade, mas neste caso confesso que o que mais me surpreendeu (serei ainda demasiado nova?) foi a participação voluntária dos visados, sobretudo a forma como usam os filhos - que nomeiam aos microfones das televisões - como arma de arremesso.

Quando o umbigo é grande toda a educação, dinheiro e múltiplos privilégios dão lugar aos instintos mais básicos.

Pergunto-me só se uma comunicação social responsável não tem o dever de defender pelo silêncio aqueles que não parecem saber defender-se (a si e aos seus).

Beijinhos da Marta Plem-plem

Carlos Azevedo disse...

Helena, tens razão, claro que sim. Contudo, as coisas não são tão a preto e branco. Neste momento, percebe-se claramente que o Carrilho está a usar a imprensa para atacar a mulher (repara, eu não discuto quem tem razão, era o que mais falatava, só constato). Se queres que te diga, vítimas, ali, só mesmo as crianças. Enfim.

Carlos Azevedo disse...

Como é óbvio, eu acabo fazer um juízo de valor sobre Carrilho: o comportamento dele, falando à imprensa sobre o botox e o silicone da mulher, é duma baixeza inominável.

Helena disse...

Marta,
Bem sei que eles se serviram e servem da comunicação social para "se venderem mais". E a comunicação social aproveita, porque precisa desesperadamente de vender. O povo compra, porque gosta de ver o sangue a correr na calçada.
"Vender" é a palavra chave. Ética devia ser o seu antídoto.
Não posso controlar o que eles fazem nem o que a imprensa conta, mas posso revoltar-me contra a sarjeta a que tudo isto chegou, e posso pôr-me a milhas da novela.
Na altura do Clinton e da Lewinski também me safei bastante bem.
Beijinhos!

Helena disse...

Carlos,
a Marta perguntava um pouco acima se a imprensa não tem o dever de proteger as pessoas de si próprias. Parece-me que é uma questão que se coloca também como comentário ao que dizes.
Não sei se o homem faz por maldade, ou por calculismo, ou se está com um surto psicótico. Nem me interessa saber. De facto, não me interessa saber nada.
Mas: imagina que o homem está é doente? Com que cara é que ficam, os que se estão a rir dele?

Seria positivo se este caso proporcionasse um debate que questionasse o papel dos media.

A propósito, em 1988 houve na Alemanha um assalto a um banco seguido de rapto que durou vários dias. A comunicação social andou atrás dos raptores, fizeram-lhes até entrevistas no autocarro onde estavam com as mulheres raptadas (uma delas tinha uma arma apontada à cabeça). O país ficou em choque com a baixeza dos meios de comunicação social. Discutiram, aprenderam, mudaram de vida: o conselho da imprensa emitiu regras muito claras para casos destes.
Não vale tudo, nem mesmo para vender jornais...

Mais ainda: se não estivermos muito atentos a este processo de falta de respeito pela privacidade (e é como a história da minissaia - há que respeitar, por muito que os envolvidos não se saibam dar ao respeito, digamos assim) vai tornar-se habitual devassar a vida de todos e qualquer um. Um dia destes vamos ser nós.
Aliás: o que mais há é devassas na internet. Namorados ou amigos que se zangam e publicam filmes e fotos feitos em momentos de intimidade.
Convinha a sociedade saber, sem margem para dúvidas, que não é por aí.

Carlos Azevedo disse...

Helena, neste momento a situação saiu do foro privado deles, e ele escancarou a porta, para dizer o menos.
O que ele revelou à imprensa, e que vem hoje publicado no jornal nacional que mais vende, é de uma violência brutal, provavelmente muito pior do que muitas agressões físicas. E, neste momento, eu quero saber, no sentido em que faço questão de tomar uma posição.
Independentemente do que se passou na relação deles -- e, isso sim, não me interessa -- assistimos neste momento a um exercício de violência brutal sobre uma mulher.
A discussão do papel dos meios de comunicação é importantíssima (ainda hoje defendi isso no mural da Ana Cristina Leonardo), mas não é o princípal.

Helena disse...

Ui, Carlos, prefiro mesmo mesmo não saber.
Isso é caso para tribunal, não é?
(Ui, estou tramada: lá vou levar com o segredo de justiça nas parangonas...)

Sem me dizeres o que é, pergunto: é mais grave que quando os princípes de Gales deram aquelas entrevistas, na altura do divórcio? Xiiiii...

jose disse...

Da geração 68 eu penso que é melhor começarmos por nos impôr alguns limites,começar por casa.Evitar o negócio do tablóide.Se houver violência que actue a Justiça.O resto é privado.Não sigo.Os partidos talvez tivessem algo a dizer sobre a violência doméstica,não fossem as vidraças...

Carlos Azevedo disse...

É.

mar disse...

Uma vez que a Helena começa o post a confessar o alívio que sente por não viver em Portugal neste momento, decidi comentar só para dizer que, apesar de estar neste momento a viver em Portugal, de sair à rua, de ler mais blogs do que devia e de até acompanhar diariamente alguns jornais portugueses (ainda que apenas online), foi preciso ler este post escrito em Berlim - e sobretudo os respectivos comentários - para saber que há uma grande polémica de lavagem de roupa suja entre um casal famoso cá em Portugal, quem é o casal em questão e até alguns contornos dessa lavagem de roupa suja.

Só agora julgo que percebi o título de uma crónica de Henrique Raposo no Expresso que me surgiu hoje no feedly. Terá sido a única referência que encontrei ao assunto mas, como há muito tempo que escolhi deixar de abrir os artigos de opinião de Henrique Raposo, não posso/quero confirmar. E tal como escolhi não abrir mais os artigos de opinião de Henrique Raposo porque não me traziam nada de bom, também fui fazendo outras escolhas no que se refere à informação que quero ter, de acordo não só com os meus interesses e modos preferenciais de acesso mas também com o meu pudor e com o meu sentido ético. Na falta de ética por parte de alguns meios de comunicação, o leitor continua a ter escolhas. (E quero acreditar que desconhecer esta polémica até agora mostra que as minhas escolhas até agora não foram completamente erradas.)

margarete disse...

a Helena referiu um exemplo que costumo dar, o do arquitecto
nunca vi as imagens, recusei-me sempre

Helena disse...

José, Mar,
fazem bem. Eu é que ando cá com umas companhias pouco recomendáveis no facebook... ;-)
Pelos comentários dos amigos é que vou ficando a saber o que não queria.
Até me lembra o tempo do Clinton e da Lewinski, quando as anedotas me revelavam o que por ali terá acontecido. Cheguei a um ponto em que fazia por não ouvir nem as anedotas.

mar disse...

Afinal, não consegui escapar; apenas adiei. A bem da verdade, devo dizer que, no dia seguinte a ter comentar o post da Helena, o assunto surgiu em outros dois blogs que acompanho e em alguns artigos de opinião dos jornais que leio. Até no Governo Sombra o ouvi. Para além disso, no fim-de-semana, entrou-me pelos olhos adentro através do escaparate de revista junto à caixa no supermercado e tive a infelicidade de ir a um jantar de aniversário em que era difícil falar de outra coisa e piadinhas com o verbo ‘descarrilhar’ abundavam. E também eu me senti velha, apesar de ser a pessoa mais nova à mesa...

Helena disse...

mar, razão tinha a minha avó, que me queria longe das más companhias...
;-)
É difícil escapar a isso. Vi-o perfeitamente na altura do Clinton. Uma pessoa descansadinha da vida, e zimbas, alguém conta uma anedota!