27 agosto 2013

polegares ao alto



Há uns anos irritei-me com um fenómeno que estava a observar nos "blogues de gajas". Tanto, que escrevi este post:

o imperativo categórico e o seu avesso

Volta e meia leio em blogues alguém a gabar-se - geralmente com graça - de ter feito algo errado. E as caixas de comentários enchem-se de "hahaha, que engraçado" e "hahaha, eu também teria feito o mesmo".

Confesso que não entendo. O que leva as pessoas a contar abertamente que fizeram algo que não deviam ter feito? O que leva os leitores a aceitar alegremente a descrição de um acto ilícito?

O fenómeno tem pelo menos a vantagem de mostrar que a frase "os políticos são todos iguais" (ou a sua variação: "os de lá de cima são todos iguais") está incompleta.
Iguais a quem? A este povo.

O imperativo categórico de Kant propõe como norma: age de modo a que a máxima do teu agir se possa tornar lei universal.
O que vemos aqui é o contrário disso: as pessoas gabam-se de ter agido de modo errado, e recebem aplausos do coro de seguidores.
Como se o facto de falarem abertamente sobre o que fizeram tornasse lícito e banal o que não o é.
E eis como na bloga portuguesa se inventa a antítese do imperativo categórico de Kant: gaba-te de modo a que o teu agir se torne desculpa universal.

Que tipo de país é que construímos com comportamentos destes?


Lembrei-me disso a propósito de um post do João Lopes, no qual refere as reacções nas redes sociais à morte do António Borges, mostrando outra faceta do fenómeno de ufana exibição internética da perda do decoro:  

"Em todo o caso, ainda mais impressionante e assustador que a avalanche dos insultos, é o facto de a maioria dos respectivos autores o fazer assinando o seu nome por baixo e, mais do que isso, expondo a sua imagem.
Trata-se de um ganho ilusoriamente democrático. Porquê? Não porque se defenda a estupidez do anonimato. Antes porque a prática "social" da rede levou a esta miséria conceptual e a este vazio moral: aquele que insulta, insultando em rede, imagina-se um iluminado protagonista de alguma redentora dinâmica social, não porque evite a barbárie discursiva, mas porque a assume — e assina.
Assim se consuma uma ainda mais inquietante desumanização: o cidadão que insulta já não se vê, não se pensa, tornou-se indiferente à imagem degradada de si próprio — e confunde-se com ela, acreditando que esse é um bom princípio para fazer amigos, polegares ao alto."

(escusado será dizer que vale muito a pena ler todo o post)

(foto)

2 comentários:

Miguel Marujo disse...

Hoje ando comentador por estes lados. Confesso que houve textos desalmandamente idiotas, mas nºao vi esse regozijo generalizado de que se faz eco João Lopes ou o editorial do 'meu' DN. Eu, por exemplo, critiquei aquilo que foram as opiniões em vida do senhor, para notar que me dispensava de qualquer elogio. Atacaram-me como sendo um disparate. Acho que disparate é esta ideia de que a morte apaga o que as pessoas dizem ou fizeram. Cá estaremos para ver o sentido geral das mesmas redes sociais quando morrer alguém ad contrario.

Helena disse...

Não tenho a menor dúvida que quando morrer alguém "do outro lado", os comentários vão ser igualmente simpáticos. Já aconteceu: quando o Saramago morreu, correu por aí um texto que começava assim: "morreu um homem mau".
A pergunta é: temos mesmo de dizer coisas más de uma pessoa que acabou de morrer? Não seria mais decente guardar um "período de nojo"?
Não peço para entrar em elogios delirantes, mas ficar em silêncio já era uma boa opção. Mas compreendo que, perante os elogios delirantes, uma pessoa sinta vontade de repor o equilibrio.

Gostei muito do que o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura escreveu por ocasião da morte do Saramago. É possível falar das discordâncias sem transformar o defunto num monstro.

(Não estou a dizer que tu tenhas cometido esse erro, claro.)